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Desertos sofrem ameaça de mudanças climáticas

CB, Mundo, p. 24
06 de jun de 2006

Desertos sofrem ameaça de mudanças climáticas
Temperatura máxima em zonas áridas subiu entre 0,5 e 2 graus centígrados de 1976 a 2000 e pôe em risco suprimentos de água

Da Redação

Os desertos estão enfrentando ameaças sem precedentes, em decorrência da mudança climática, da alta demanda de água, do turismo e da contaminação de áreas irrigadas. O alerta, estampado nas páginas do relatório do Programa de Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (Unep), revela pelo menos um dado impressionante: se a Argentina não tomar medidas urgentes para evitar a degradação do solo, em algumas décadas 75% de seu território se transformarão em terrenos desérticos ou semidesérticos. O documento foi apresentado ontem durante as comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, em Argel, capital da Argélia. Intitulado Panorama Global dos Desertos, o dossiê expõe as zonas áridas como prováveis fontes de desenvolvimento econômico e de medicamentos. Segundo o texto, a maior parte dos desertos fornece luz solar e regimes de temperatura favoráveis à criação de camarão e peixes. Negev (Israel) e Arizona (Estados Unidos) são citados como exemplos.

Para especialistas, os desertos podem se tornar fontes de energia livres do carbono. Eles sustentam que uma área de 800km por 800km do deserto do Saara, por exemplo, poderia capturar luz solar suficiente para prover as necessidades de eletricidade do mundo inteiro. Por outro lado, o relatório adverte: o crescimento populacional e o uso indiscriminado da água determinarão, até 2050, a escassez do líquido em países como Chade, Iraque, Níger e Síria. Os suprimentos renováveis de água, responsáveis pelo abastecimento das regiões áridas, estarão ameaçados até 2025. De acordo com o documento, o fenômeno atingirá os rios Gariep (sul da África); Grande e Colorado (Estados Unidos); e Tigre e Eufrates (Iraque). Por isso, o Unep acredita que um melhor gerenciamento do recurso natural será o desafio-chave para o futuro dos desertos.

Longe de serem terras estéreis desoladas, os desertos emergem como dinâmicas biológicas, econômicas e culturais. São locais de novas possibilidades econômicas, sustenta Shafqat Kakakhel, vice-diretor executivo do Unep. Quase um quarto da superfície terrestre - 33,7 milhões de quilômetros quadrados - receberam a denominação de deserto. Essas regiões abrigam uma população estimada em 500 milhões de pessoas.

Riqueza
Em relação ao potencial farmacológico dessas áreas, o relatório revela que a microalga Haematococcus produz um pigmento avermelhado que fortalece o sistema imunológico, retarda o envelhecimento da pele e alivia a fadiga muscular. Na Argentina, nos Estados Unidos e no Marrocos, algumas plantas desérticas são eficientes contra o câncer de útero.

A mudança climática resultante das emissões de gás carbônico vem afetando duramente os desertos. A temperatura máxima no ecossistema subiu entre 0,5 e 2 graus centígrados entre 1976 e 2000 -variação bem maior que o aumento médio global de 0,45 grau. O deserto Dashti Kbir, no Irã, registrou uma queda de 16% em chuvas, por década, no mesmo período. O Kalahari (África do Sul), com redução de 12%, e o Atacama (Chile), com 8%, também preocupam o Unep. A maior parte dos 12 desertos do mundo enfrentará um futuro mais seco, com diminuição nas chuvas de até 20% no fim do século. Apenas o deserto de Gobi, na China, deverá ter aumento na precipitação pluviométria de até 15%. As projeções não são animadoras no que diz respeito à vida selvagem: o documento prevê que os animais, presentes em 60% da área desértica mundial, ficarão restritos a 30% dela até 2050.

Argentina
O efeito do homem sobre a natureza deverá se tornar prejudicial particularmente para a Argentina. Caso as previsões se confirmem, 205 milhões de hectares que abrigam 10% da população se transformarão em deserto nas próximas décadas. Diante desse panorama negativo, Ricardo Sánchez Sosa, representante regional do Unep para a América Latina, pediu ontem, na apresentação do relatório, que seja desenvolvida uma agricultura de alta tecnologia de irrigação localizada e baixo consumo de água e cidades com dimensões mais adequadas.

CB, 06/06/2006, Mundo, p. 24

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