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Deserto pode afetar 16 por cento da area do pais

FSP, Cotidiano, p.C6
12 de dez de 2004

Brasil tem cerca de 31 milhões de pessoas vivendo em regiões susceptíveis à desertificação; ao todo são 1.482 cidades
Deserto pode afetar 16% da área do país
A terra vermelha e quase sem cobertura vegetal de Gilbués, no sul do Piauí, parece se desmanchar ao abrir crateras e ondulações que avançam a cada dia sobre a cidade. É o efeito mais visível de um processo de desertificação, que consome a área e amplia a miséria da população mais carente.
A região de Gilbués (800 km de Teresina) é um dos quatro núcleos de desertificação no país (veja o quadro) onde a degradação ambiental e os resultados socioeconômicos do fenômeno são considerados mais graves pelo Ministério do Meio Ambiente.
Na sede de Gilbués, as crateras já chegaram a um terreno atrás da igreja central e derrubaram uma casa no bairro Santo Antônio. Um trecho da BR-135, a sete quilômetros do centro, teve de ser reforçado na última semana porque uma cratera ameaçava a estrada.
Toda a região do semi-árido e das áreas que sofrem os efeitos da seca são consideradas susceptíveis à desertificação. Esse é um problema que preocupa o mundo inteiro e que, no Brasil, pode afetar 1,3 milhão de km2 (16% do total) e 31,6 milhões de pessoas, o que representa 18% da população no país, caso nada seja feito.
A erosão causada pelo processo de desertificação, além de prejudicar o plantio de subsistência em Gilbués, município com cerca de 10 mil habitantes, ameaça casas de moradores. Miraci Ribeiro da Silva, 41, usa uma enxada e entulho de construção para tapar parte das crateras que se formaram no quintal da casa onde mora com cinco filhos e dois netos.
Ela não deixa o local, que é emprestado, porque não tem outro lugar para ir. Todos da família vivem lá com os R$ 100 por mês que a mulher ganha de faxinas e dos benefícios sociais do governo. "Se eu não tapar, depois da próxima chuva, a gente não entra em casa."
Contrastes
A cidade é repleta de contrastes ambientais e socioeconômicos. Do lado mais pobre predomina o terreno irregular, que se abre em "grotas" (como a população chama as crateras e ondulações formadas pela desertificação). Na parte mais alta e plana, começa uma corrida por investimentos em soja, com produtores do Sul do país se instalando para aproveitar as terras baratas e férteis.
Não há emprego para todos. "Outro dia, numa dessas fazendas de soja, fizeram uma seleção para contratar dois. Quando cheguei, já havia mais de 15 na minha frente", afirma Arivaldo Rodrigues Alves, 37. Quando chove, ele planta uma roça, mas, na maior parte do ano, busca no garimpo de diamantes algum meio para a sobrevivência. "Faz quatro meses que não acho nada."
A riqueza do diamante na cidade teve seu auge entre as décadas de 40 e 50 e deixou marcas que até hoje têm conseqüências.
A cada chuva, os buracos esquecidos se abrem ainda mais, formando enormes crateras. "Teve muita gente que morreu soterrada por aqui", diz Ivete Oliveira, que preside a ONG SOS Gilbués.
Entre os que insistem no garimpo está Juraci Barbosa da Cunha, 50. "Faço isso desde menino, assim como meu pai."
O garimpo não é a única causa das deformações na terra de Gilbués. Em boa parte da área atingida nunca houve extração mineral. "Entre os fatores que interferiram está o mau uso do solo, tanto na agricultura como na pecuária", disse o professor Luiz Gonzaga Carneiro, da UFPI (Universidade Federal do Piauí).
Carneiro desenvolve em Gilbués, com a Fundação Agente e apoios governamentais, um núcleo de pesquisas para recuperar o solo, usando técnicas para o plantio, como curvas de nível e a criação de pequenas barragens.
A experiência começou no ano passado, em uma área bastante degradada. Desde então, algumas mudas de leguminosas e de capim plantadas estão se desenvolvendo. "Uma prova de que a terra é fértil e pode ser recuperada."

Programa deve investir R$ 23 bi
Em um projeto que envolve sete ministérios, secretarias estaduais e ONGs, o governo federal lançou o PAN (Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca), com previsão de investir R$ 23,5 bilhões até 2007.
As comunidades atingidas diretamente pelo problema da desertificação, como em Gilbués, querem ver as ações na prática. Investimentos já realizados por governos passados não surtiram efeito.
Em Gilbués, foi construído, com verba pública, um prédio para o Instituto Desert, de Teresina, que nunca funcionou. Salas de capacitação, auditórios e um terreno suficiente para pesquisas estão abandonados.
"Por isso a população rejeita o tema desertificação. Não quer nem ouvir falar. Já houve muitas promessas, mas nunca foi feito nada", afirma Ivete Oliveira, presidente da SOS Gilbués.
A dificuldade para conseguir investimentos aumenta ainda mais pelas desavenças políticas locais. A ONG é ligada ao PT -Oliveira foi eleita vereadora pelo partido. O prefeito do município é do PFL.
"Enquanto não acabarem as barreiras políticas, pode ter certeza de que não vai mudar nada e que o processo de desertificação só vai aumentar", disse José Celesmá Bertulino, engenheiro agrônomo e secretário da Agricultura de Gilbués.
A descrença também é justificada pela demora nas ações dos governos sobre o tema, mesmo com apoios internacionais. O conceito internacional de desertificação foi discutido no Brasil, na Eco 92. Em 1995, o país assinou um convênio de cooperação com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Apenas nove anos depois o plano de ação para o combate à desertificação foi colocado no papel.
O PAN é uma soma de programas sociais em curso, como o Bolsa-Família (os investimentos sociais devem tomar 90% dos recursos do programa), e de projetos ambientais, como a recuperação do rio São Francisco.
Para o coordenador-técnico José Roberto de Lima, do Ministério do Meio Ambiente, a maior novidade do programa é pôr o tema desertificação como prioridade.
O problema foi tema de discurso de Marie-Pierre Poirier, representante do Unicef no Brasil. Ao divulgar um relatório sobre a miséria entre as crianças no país, disse que "a pobreza brasileira tem a cara da criança do semi-árido nordestino". Pelo relatório, 45% das crianças e dos adolescentes do Brasil vivem abaixo da linha da pobreza. (KF)

FSP, 12/12/2004, p. C6

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