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Desertificação acelerada

CB, Opinião, p. 18
15 de Jul de 2008

Desertificação acelerada

Enquanto a exuberância da Amazônia atrai as atenções do mundo e o desmatamento ocupa espaço nobre e permanente na mídia, com cobranças incessantes de solução, avança sem maiores alaridos o processo de desertificação do semi-árido nordestino. A área de 1,3 milhão de km², habitada por 30 milhões de pessoas, não oferece condições de sustentabilidade aos moradores. Os indicadores sociais são os piores do país. Em 87% dos seus 1.482 municípios, a população vive abaixo da linha de pobreza, com renda per capita inferior a R$ 75,50 mensais, contra uma média nacional de R$ 297,20. Em alguns bolsões de miséria, a expectativa de vida não passa de 55 anos e a taxa de mortalidade infantil chega a 109,6 por mil nascimentos (a média brasileira é de 30,6 por mil).

Sem apoio efetivo do Estado - programas governamentais que incentivem o desenvolvimento sustentável e reconciliem o homem com a natureza, cursos de formação técnica e oferta de crédito -, o próprio sertanejo contribui para agravar o problema. Na luta pela sobrevivência, a rentabilidade imediata pesa mais que qualquer preocupação ecológica. "Entre morrer de fome e cortar uma árvore para vender lenha, eles vão preferir a segunda opção", ilustra a especialista em recursos hídricos Romélia Moreira de Souza, do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura. Além dessa atividade predatória, alimentada sobretudo pelas indústrias de cerâmica, sobram a monocultura e a pecuária extensiva.

Resultado: os efeitos antrópicos, com o uso inadequado do solo, somados ao fenômeno natural da seca, que de tempos em tempos castiga a região por períodos prolongados, tornam o semi-árido cada vez mais inóspito. Em Gilbués (PI), Irauçuba (CE), Seridó (RN) e Cabrobó (PE), a desertificação já é uma realidade: o que antes era vegetação típica de caatinga ou cerrado é hoje uma paisagem tomada por areia, pedregulhos e tocos de pau estorricados. Esgotada pela exploração pedratória, a terra não serve mais ao plantio. Rios secam, como foi o caso do Boqueirão, o mais importante de Gilbués. Nesse município piauiense, a degradação chegou a tal ponto que enormes valas decorrentes de erosões e assoreamentos causados pelo extrativismo mineral indiscriminado e obras de engenharia malfeitas ajudam a propagar a lenda de que o chão engolirá a cidade inteira.

Especialistas ambientais estimam que, se nada for feito, em 100 anos o cenário dos quatro núcleos desertificados terá se expandido para todo o semi-árido do país, que compreende terras dos nove estados do Nordeste, abrangendo a quase totalidade da região, parte de Minas Gerais e parte do Espírito Santo. O governo tem o diagnóstico (organizou um Atlas das áreas susceptíveis à desertificação), programa específico (em 2004 foi lançado o Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação), mas falta ação. A resposta não vem com a urgência requerida. O país nem sequer dispõe ainda de um projeto nacional de enfrentamento das mudanças climáticas, que deveria ter sido apresentado, ao menos em versão preliminar, no final de abril.

CB, 15/07/2008, Opinião, p. 18

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