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Desequilíbrio no paraíso

O Globo, Ciência, p. 25
21 de abr de 2009

Desequilíbrio no paraíso
Árvores da Mata Atlântica mudam e florescem mais depressa

Soraya Aggege

Nem mesmo o paraíso escapa do inferno climático do aquecimento global. Provas disso estão na Mata Atlântica, o mais biodiverso e devastado dos biomas brasileiros. Espécies nativas como cambuís, araçás, inhomirins mudaram e florescem mais depressa. Suas sementes mostram degeneração. São sinais que podem representar o desequilíbrio de todo o ecossistema, com consequências amplas. Da Mata Atlântica, dependem o clima do Sudeste e a saúde dos rios que abastecem a região.

A Mata Atlântica sofre mudanças em sua dinâmica por causa dos extremos climáticos, afirma o cientista Ricardo Rodrigues, da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo.

- A floresta começou a trocar de fisionomia devido às mudanças climáticas. As chuvas, mais concentradas, arrastam bancos de sementes. Vários trabalhos mostram que as alterações na temperatura afetaram florações. E ainda não temos a dimensão dos efeitos, por exemplo, na polinização - destaca Rodrigues.

São mudanças evidentes para o biólogo Celso Bernardo, que monitora o viveiro de plantas do Parque Estadual da Ilha do Cardoso (Cananeia, São Paulo) e vive na região desde que nasceu. Um dos paraísos ecológicos do Brasil e Reserva de Biosfera da Humanidade, o Parque Estadual da Ilha do Cardoso demonstra possíveis sintomas das mudanças climáticas. E esses sintomas assustam as pequenas comunidades caiçaras que habitam o parque. São pouco menos de 500 moradores acostumados a dividir os 15 mil hectares com golfinhos, jacarés, aves raras e a floresta.

- As plantas mal terminam de frutificar e começam a florescer.

Está tudo acelerado. É o caso do inhomirim (tipo de canela), dos araçás e dos palmitos. O cambuí está com flores e frutas ao mesmo tempo. O índice pluviométrico parece mais concentrado e a intensidade de luz é maior. Há um descontrole muito grande. Até nos insetos a gente nota diferenças, as larvas cresceram e a qualidade das sementes, que testamos, está ruim - afirma Bernardo.

Pela ilha, é fácil encontrar florações e frutificações simultâneas. Segundo Bernardo, as mudanças se acentuaram nos últimos seis anos.
- As plantas estão mais ativas. Para mim, é evidente que as mudanças climáticas são a causa. Principalmente devido aos extremos de precipitação (secas e temporais) e do aumento da temperatura mínima. Numa mata preservada como essa, é mais fácil notar alterações - diz Bernardo.

'A natureza está meio louca'
A Ilha do Cardoso abriga um ecossistema peculiar e complexo. De um lado, mar aberto. Do outro, o chamado Mar de Dentro, um amplo canal com salinidade menor por causa do desague dos rios do Vale do Ribeira.

- Outra mudança afeta as restingas. A drenagem do solo tem sido muito baixa nos últimos anos.

Nunca tivemos uma situação assim, e o calor só aumenta. E agora ocorrem alagamentos constantes em áreas que eram secas - diz Camila Costa, gestora ambiental.

Os caiçaras estão apreensivos. O pescador Daniel Fernandes, de 56 anos, passou toda a vida no Itacuruçá, na Ilha do Cardoso. Ele está assustado com o aumento das erosões, da temperatura, das tempestades e das longas estiagens.

- Os guanandis (árvores ameaçadas de extinção) estão sumindo daqui. Não temos mais as quatro estações do ano, só inverno e verão. O inverno está muito mais quente, até mesmo durante a noite. A natureza está meio louca - disse Daniel.

Plantas ficam diabéticas, obesas e morrem antes

Um estudo do cientista Marcos Buckeridge, do Departamento de Biociências da USP, revela que o aumento na concentração de CO2, em combinação com o aumento de temperatura e chuvas, produz um efeito fertilizante, mas doentio nas plantas. É como se elas estivessem se tornando "diabéticas e obesas", nas palavras do cientista.
- As plantas consomem mais açúcar e ficam maiores. Desconhecemos o impacto disso ainda - diz Buckeridge.
Segundo ele, foram analisadas folhas de várias espécies, como o jatobá. Ficou claro que atualmente as folhas têm mais amido que no século passado. Na avaliação do cientista, o CO2 elevado aumenta as taxas de fotossíntese e de crescimento das plantas. Referência mundial em biodiversidade, Carlos Joly, do Instituto de Biologia da Unicamp, concorda com Buckeridge:
- O CO2 é o fator limitante para a fotossíntese das plantas nos trópicos. Em tese, as plantas realmente poderão morrer mais rapidamente.
Os indícios são de um envelhecimento precoce. Precisamos aumentar nossos conhecimentos sobre a fisiologia das espécies nativas.
Joly diz que, apesar das muitas incertezas, já é possível observar alterações na vegetação, principalmente da Mata Atlântica. Ele usa modelos computacionais para prever impactos do aquecimento.
- Algumas espécies tendem a desaparecer. Na Mata Atlântica, a araucária seria uma delas - conta.
Segundo Joly, embora ainda faltem pesquisas, algumas mudanças são mesmo evidentes.
- É óbvio que as quaresmeiras florescem na Quaresma. Quando elas florescem em janeiro, há problemas - avalia Joly.
Patrícia Morellato, pesquisadora do Departamento de Botânica da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), estuda alterações na época do floração.
- Na seca de 2001, houve atraso na floração de algumas espécies. Em 2008, observamos um atraso na floração de ipês. A pesquisa será publicada no final deste ano. Os estudos demandam pelo menos seis anos de observações, mas já temos os indicativos - considera Patricia.
De acordo com a cientista, as mudanças nas floradas poderão causar alterações nos frutos, e, em consequência, na fauna, num efeito dominó.(Soraya Aggege)

A Ilha do Cardoso

Sobram motivos para a Ilha do Cardoso ser considerada um paraíso. Ela combina espécies típicas da floresta atlântica com manguezais.
Estes se espalham pela face ocidental da ilha. E uma restinga cobre boa parte da planície litorânea do local.
Já foram catalogadas quase mil espécies de plantas. E a ilha abriga animais ameaçados de extinção, como muriqui (o maior macaco das Américas), papagaio-de-cara-roxa, veado-mateiro e jacaré-do-papo-amarelo. O morcego Lasiurus ebenus só existe num lugar do planeta: a Ilha do Cardoso.(S.A.)

O Globo, 21/04/2009, Ciência, p. 25

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