MPD Dialógico, nº. 12 , mar 2007, p. 10-15
Autor: VEIGA, José Eli da
31 de Mar de 2007
Desenvolvimento sustentável: "Nós não somos eternos"
José Eli Lopes da Veiga
Por Carolina Stanisci
Quando o assunto é desenvolvimento sustentável, José Eli Lopes da Veiga não reza segundo a cartilha dos ambientalistas em geral. Autor de livros como "Meio Ambiente e Desenvolvimento" (ed. Senac, 2006), o professor de economia na USP estuda a interação entre o meio ambiente e a economia há anos e afirma que, apesar dos relatórios divulgados pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) sobre o aquecimento global, ainda não existe certeza científica de que o problema tenha como causa a ação humana. E vai além. Para o professor, George W. Bush, presidente dos EUA, foi injustamente transformado em "bicho-papão" por não ter assinado o Protocolo de Kyoto pois o país nunca teve a intenção de diminuir as emissões de carbono. "Os Estados Unidos nunca tiveram maioria no Congresso para aprovar o Protocolo", diz. Veja a seguir os principais trechos da entrevista em que Veiga discorre sobre a criação do IDH, sobre fontes alternativas de energia e até sobre o fim da espécie humana no planeta.
Fale um pouco sobre desenvolvimento sustentável, por favor.
José Eli: Se pegarmos o "desenvolvimento" sem adjetivo, veremos que existem problemas em torno da noção.
Quando o termo foi adotado de fato e passou a ser usado como ele é usado hoje, depois da Segunda Guerra Mundial, ele representava as noções gerais do que as Nações Unidas [ONU] procuravam. Antes da guerra, a expressão "progresso material" era muito mais usada do que "desenvolvimento". Todos na época supunham que o desenvolvimento decorria do crescimento econômico. Nos anos 1950 os países que mais cresceram e tiveram um desempenho positivo do ponto de vista do crescimento do PIB, entre eles o Brasil, que na década de 1950 teve um crescimento fenomenal, não apresentavam outras características que todos estavam acostumados a associar com o desenvolvimento, como a redução da pobreza, a diminuição da desigualdade, o acesso à educação e cultura, a democracia. Esses fatores não ocorriam necessariamente quando havia crescimento.
O debate foi em relação a crescimento versus desenvolvimento?
José Eli: Esse período foi confuso. Uma grande economista de Cambridge, Joan Robinson, disse a uma platéia: "Desenvolvimento é como um elefante: muito difícil de definir, mas muito fácil de reconhecer". E esse era o problema.
Quando vamos a um país desenvolvido percebemos, mas definir claramente o que é [desenvolvimento] não é uma coisa simples. Esse debate durou muito tempo até que no final do século passado um paquistanês teimoso, Mahbud ul Haq, que tinha trabalhado a vida toda no Banco Mundial e na África, convenceu-se de que não haveria condições de mudar nada nesse debate se não houvesse uma medida de desenvolvimento. Isto é, todo mundo discutiria, concordaria que desenvolvimento é diferente e na hora "h" todos usariam o PIB per capita como critério. Porque era isso o que se tinha. Mahbud é o grande idealizador do IDH [Índice de Desenvolvimento Humano], que passou a ser uma medida muito mais razoável de desenvolvimento.
Li um artigo em que o sr. criticou o PIB como critério de medida de crescimento.
José Eli: Eu entendo que o PIB mede mal o crescimento e a riqueza. Mas o IDH pode ser entendido como uma boa medida de desenvolvimento. O que vale ressaltar é que um dos principais teóricos do desenvolvimento, Amartya K. Sen, ganhador do Nobel de 1998, foi um dos economistas premiados mais contestados. A revista "The Economist" achincalhou o fato de ele ter ganhado o Nobel. Ele passou a vida estudando a pobreza e tem um livro muito bonito chamado "Desenvolvimento como Liberdade". Eu digo isso, particularmente, pois eu poderia ter pulado essa parte, mas para quem mexe com direito essa é a questão fundamental.
A referência, sobretudo para quem está na área de direitos humanos... O conceito de desenvolvimento foi desenvolvido principalmente por Amartya K. Sen. A tese que ele defende é de que o desenvolvimento é o processo de expansão da liberdade humana. Uma definição diferente daquelas que você irá achar nos livros de economia, seja o que for.
Por pensar assim, Sen era contra a criação de um indicador.
Ele ajudou a elaborar o IDH e era contrário ao índice?
José Eli: No início ele era contra. O Mahbud chamou uns dez economistas de primeira, entre eles o K. Sen, que foi até lá para dizer que era contra a idéia. O desenvolvimento é um processo tão multidimensional que seria difícil traduzir isso em um índice. A figura que usamos para explicar isso é a seguinte: não é possível pilotar um avião criando uma síntese de todos aqueles dados que estão no painel do piloto. O piloto precisa monitorar o avião olhando para todas aquelas coisas. Monitorar ou medir o desenvolvimento exigiria uma coisa semelhante. E não adianta você falar para tirar uma média de todos esses indicadores, pois eu não entraria nesse avião. Mas o Mahbud estava convencido disso que eu falei inicialmente. Mesmo que essa síntese não seja perfeita, se ela não for feita o PIB per capita vai continuar a ser usado como medidor do desenvolvimento. Dessa forma K. Sem foi vencido nessa discussão e 10 anos depois ele escreveu uma carta para o PNUD, publicada juntamente com o relatório anual da entidade sobre o desenvolvimento humano, dizendo que ele dava graças a Deus pelo fato de ter sido vencido nessa discussão.
E como prosseguiu o IDH?
José Eli: Foi feito com certa simplicidade de propósito.
Como temos quase 200 países no mundo, o Índice não pode ser muito sofisticado porque muitos países não teriam as estatísticas necessárias para elaborar o Índice. Além disso, depois de muito discutir, chegou-se à conclusão de que, mesmo que o desenvolvimento tenha que ser visto como uma coisa multidimensional, você deve se perguntar quais são as dimensões básicas. Tudo bem que o desenvolvimento tenha 50 dimensões, mas algumas são condições SINE QUA NON. Ou seja, as outras nunca serão atingidas sem passarmos por essas. Chegou-se à conclusão de que essas condições prévias eram três: ter uma vida longa e saudável, ter acesso à educação e de ter uma renda mínima que permita uma vida digna. São essas as três principais condições do Índice, que aparentemente é muito simplório por ser o resultado da média aritmética dessas dimensões. Durante muito tempo, eu achei que isso era ruim. Mas quanto mais os anos vão passando, mais a gente vai percebendo o contrário. O IDH é um índice muito bem feito.
E o termo desenvolvimento sustentável, que surgiu no Relatório Brundtland, da ONU?
José Eli: Na verdade, surgiu antes do Relatório Brundtland, o documento da ONU. A expressão começou a surgir no final dos anos 1970.
O termo era restrito aos meios acadêmicos?
José Eli: Eram discussões na ONU que, embora feitas por acadêmicos, ainda não tinham penetrado nas universidades. A expressão ganhou certo relevo com o Relatório Brundtland, que é de meados dos anos 1980, e foi consagrada na ECO 92. Hoje o adjetivo "sustentável" é usado de forma tão banal que experimentamos um fenômeno que conhecemos por amnésia da origem. Eu até brincava com os alunos: "Não vai ser difícil vocês ouvirem alguém comentando algum casamento de famosos e dizendo que foi um casamento sustentável". Eu cheguei a receber um telefonema de um cara que estava procurando alguém para fazer conferências sobre relacionamento sustentável. E eu, surpreso, perguntei a ele: "O que quer dizer relacionamento sustentável?". Ao que ele respondeu: "Quer dizer isso, relacionamentos humanos e como eles podem ser sustentáveis".
O termo se banalizou...
José Eli: A banalização nos fez esquecer da origem do termo. Ele surgiu de um debate científico a respeito de atividades, especialmente extrativas, como a pesca, o manejo florestal e a agronomia. Todos fizeram um esforço muito grande para calcular o seguinte: quanto posso pescar sem comprometer a reprodução de um cardume? Quanto posso retirar de nutrientes da terra sem que ela deixe de produzir?
Esse pessoal das atividades extrativas já falava em desenvolvimento sustentável antes da ONU?
Isso era pesquisado da seguinte forma: qual é o manejo sustentável de um solo? Qual é o manejo sustentável de um cardume? Qual é o manejo sustentável de uma floresta?
Eles faziam isso já pensando no impacto no manejo florestal...
José Eli: A preocupação não era com o impacto. Era uma preocupação, antes de mais nada, produtivista. Como é que o meu sistema produtivo pode permanecer e até onde eu posso extrair sem comprometer a continuidade? Você vê que era uma discussão de grupos de cientistas. E o adjetivo sustentável, e raramente o substantivo sustentabilidade, era usado nesse sentido e era muito restrito. Até que nos debates sobre meio ambiente na ONU alguém falou: "Tudo bem em relação ao desenvolvimento, mas ele tem que ser sustentável". Agora como é que eu raciocino o processo global de desenvolvimento? Uma coisa é discutir com você quantas árvores posso tirar por ano de uma floresta sem comprometer o ecossistema. Ou quanto posso plantar e tirar de elementos nutritivos do solo sem comprometê-lo.
E esse era o raciocínio. Essa palavra foi transferida durante esses debates por alguém que disse: "O processo de desenvolvimento ao qual vocês estão se referindo, seja qual for a concepção que se tenha de desenvolvimento, tem que ser sustentável". Isso foi ganhando muita importância por corresponder a um desejo das pessoas que, na verdade, era o seguinte: solucionar o grande impasse do debate inicial dos ambientalistas dos anos 1970, em que não se podia mais crescer economicamente. Você não se lembra do famoso "crescimento zero"?
Quando foi isso?
José Eli: Foi nos anos 1970, quando todas essas preocupações começaram a crescer. Houve o famoso relatório do Clube de Roma. Um grupo de cientistas americanos tinha feito cálculos a partir de um modelo montado no Haiti. Chegaram à conclusão de que, se tudo continuasse como estava no correr dos anos 1960, nós não chegaríamos aos anos 2000, porque faltariam cobre, água, petróleo etc. Criou-se a idéia de que tudo iria se esgotar. O modelo deles estava errado, porém criou um grande alarme. Foi encomendado um relatório para o Clube de Roma e surgiu essa idéia de crescimento zero. Começou um grande debate mundial a respeito disso, que acabou por separar as pessoas entre aquelas que queriam continuar com o crescimento e aquelas que queriam preservar o meio ambiente.
Alguns ideólogos dizem que o conceito "desenvolvimento sustentável" é uma armadilha inventada pelo capitalismo, o sr. concorda?
José Eli: Não sei o que essas pessoas entendem por conceito. Eu estou me referindo a um conceito científico. Quando eu digo que alguma coisa é um conceito e é científico, dificilmente a gente não se entende sobre ele. Eu posso pensar pela esquerda e você pela direita. E quando nós falarmos essa palavra, nós estamos dizendo a mesma coisa. Por exemplo, eu posso ser marxista e você capitalista, mas quando nós falarmos a palavra "capital", ou "trabalho", ou "recursos naturais", nós estamos falando da mesma coisa. Desenvolvimento sustentável não é assim. Eu nem comecei a falar, mas há pelo menos nove maneiras de se entender o termo.
Qual é a sua maneira de entender o "desenvolvimento sustentável"?
José Eli: Eu insisto que [desenvolvimento sustentável] não é um conceito, e sim uma noção importante e útil e que aponta para uma nova utopia. E aí temos que nos entender sobre o significado de "utopia", que é uma palavra perigosíssima. Eu entendo que utopia seja um conjunto de idéias sobre as quais uma sociedade alicerça suas esperanças. Se alguém conseguir me provar que é possível a gente viver sem esperança, é muito diferente.
São valores que almejamos?
José Eli: Esse é o sentido da expressão desenvolvimento sustentável. Ela não teria surgido se nós não estivéssemos realmente com problemas objetivos muito sérios em termos do tempo que a espécie humana vai continuar no planeta. A questão também é essa, que muita gente não percebe, a espécie humana não é eterna.
Isso é uma certeza científica?
José Eli: Com certeza. Ou vai acabar o sol. E se nós não tivermos mudado da Terra e colonizado outros planetas vamos desaparecer. E antes, bem antes de acabar o sol, qualquer noção que se tenha da teoria da evolução da raça humana basta que sejamos uma espécie como as outras. Não há nenhuma espécie eterna. Estou falando em um prazo de bilhões de anos. Seja a morte térmica, seja uma extinção anterior, temos um prazo de bilhões de anos. O que estamos discutindo é que, dependendo do que fizermos com o planeta, nós vamos abreviar esse tempo.
O sr. achou o resultado do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, divulgado em Paris, exagerado?
José Eli: Aparentemente, o relatório que eles acabaram de divulgar confirma o anterior. O terceiro foi publicado em 2001, e o quinto vai ser produzido em 2012. Tudo para se ter idéia do tempo que é necessário para fazer todos esses cálculos, e a complicação que são esses modelos.
Quantos cientistas participaram do que foi produzido agora?
José Eli: Dois mil, se você contar também quem lida indiretamente com esse assunto, quem revisa os textos, quem dá liga. O núcleo dos grandes climatologistas que estão no centro do relatório conta com cerca de 200 pessoas.
Há brasileiros entre eles?
José Eli: Há o Carlos Nobre, que é do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], há uma pessoa que quase não fala com a imprensa, uma climatologista. Esses estão no núcleo que chegou a se reunir para divulgar o relatório. Mas durante o processo, quando rodam um modelo e fazem determinadas previsões, isso circula entre eles. Mais pessoas lêem para ver se encontram erros de cálculo ou no modelo. Para ver se as hipóteses estão corretas. A rigor, são 2 mil pessoas envolvidas no mundo todo, pois é uma coisa da ONU. Foi confirmada boa parte das previsões de 2001, e o relatório precisou algumas coisas. Por exemplo, quando dizemos que provavelmente a elevação será de 3 graus no decorrer do século, dizemos com mais certeza do que antes.
Mas tem um problema aí, e eu sou contra a corrente, pois as pessoas preferem não falar.
Qual é o problema?
José Eli: O problema é o seguinte: nós temos certeza absoluta que o aquecimento está ocorrendo. Isso é unanimidade.
E que o homem é a causa desse aquecimento...
José Eli: Isso não é uma certeza. Existe um grupo de cientistas, principalmente russos, que insiste que as causas naturais são cinco vezes mais importantes que a contribuição humana. Por exemplo: o ciclo solar e fenômenos solares que aquecem o planeta e erupções vulcânicas e submarinas, para citar dois dos fatores naturais.
Mas isso não é muito falado na mídia.
José Eli: Não é nem um pouco falado porque eles são uma minoria da minoria. Você tem 2 mil que se juntam na ONU para dizer uma coisa. Aí você tem 10 cientistas russos dizendo o contrário.
O sr. é filiado a essa corrente russa?
José Eli: Não. Eu simplesmente leio publicações científicas e tenho essa informação. Eles acabaram de publicar um artigo em uma revista muito boa que se chama "Environmental Geology", revista de geologia ambiental. E continuam insistindo nessa tese. Eu não tenho preparo em geologia, física ou climatologia para saber se eles têm razão ou não. Só que eu aprendi uma coisa: em ciência não é a maioria que faz. Há essa dúvida e isso explica em grande parte toda a discussão que houve em Paris para se dizer o grau de certeza de que nós somos os principais responsáveis. Eles iriam dizer que "provavelmente" ou "muito provavelmente". Provavelmente significa que nós temos de 60% a 90% de chance. Muito provavelmente significa que a nossa certeza é de mais de 90%. E eu fico com 10% de dúvida.
E qual foi a conclusão do IPCC? De que "provavelmente" ou "muito provavelmente" o homem é responsável pelo aquecimento global?
José Eli: Eles acabaram colocando muito provavelmente.
E o que deve ser feito para diminuir os efeitos do aquecimento global?
José Eli: Aí eu entro direto na área do direito, que engloba essa idéia do princípio de precaução. Se você está diante de uma incerteza científica, tem de se pautar pela pior hipótese. Outro dia eu vi um exemplo bem dado. Eu vou para uma região que tem malária, mas eu tenho certeza de que vou pegar malária? Não. Mas eu vou para lá sem tomar vacina? O raciocínio é o mesmo, mas em menor complexidade.
Tomar ou não tomar um remédio é uma coisa diferente...
No caso do aquecimento global é uma decisão global.
José Eli: Exatamente. E muito complexa. A decisão que foi tomada em 1995 foi fazer de tudo para reduzir as emissões e para reduzir as emissões os países estabelecem uma meta.
Em 1995?
José Eli: Refiro-me ao Protocolo de Kyoto, que saiu um pouquinho depois, em 1997. Mas em 1995 já havia sido definido em reuniões internacionais que a linha tinha que ser estabelecer metas.
Tudo isso foi logo depois da ECO 92.
José Eli: Na ECO 92 saiu a Convenção do Clima. Essa Convenção tem que ter reuniões etc. Numa dessas reuniões internacionais pós-Convenção do Clima tomou-se essa linha de que os países tinham que ter metas. Principalmente os que mais tinham contribuído historicamente para a concentração de CO2 na atmosfera. É muito complicado de coordenar as ações para conseguir isso. Basta um país como os Estados Unidos não querer... Outra coisa que não se informa às pessoas é por que os Estados Unidos não concordam.
A discordância é anterior ao governo Bush?
José Eli: Os presidentes anteriores, basicamente o Clinton, evitavam falar disso porque a questão tinha que ser mandada para o Congresso, que tinha que referendar. O Clinton, sabendo que não teria maioria no Congresso, não mandou. E o Bush, em vez de ficar enrolando, preferiu dizer com todas as letras que não iria por aí. E então virou o bichopapão. E a verdade é que os Estados Unidos nunca tiveram maioria no Congresso para aprovar o Protocolo de Kyoto por uma série de razões. Uma delas é que quase todos os estudos que foram feitos pelas assessorias mostraram que a economia americana sai ganhando com o aquecimento.
O aquecimento movimenta a economia?
José Eli: Nos cálculos você se pergunta: qual é um dos principais impactos do aquecimento? É que as áreas em que você poderia produzir determinadas coisas, por exemplo, produtos agrícolas, vão se movimentando. Então você tem que calcular o seguinte: o aquecimento global pioraria a produtividade da agricultura de qual país? Não sendo países como Bangladesh, Holanda ou um monte de ilhas que irão desaparecer com a elevação do nível do mar, as tragédias anunciadas, pelo menos no que se refere aos EUA, não impressionam muito eles.
Já que estamos falando sobre aquecimento global, eu gostaria que o sr. falasse sobre matriz energética. O que devemos fazer em termos de matriz energética no Brasil?
José Eli: Antes de entrar nisso, particularmente no caso do Brasil, é preciso entender que essa discussão de diminuir as emissões pode ser feita por meio de aumento de impostos. Nos EUA, uma das formas de conter a emissão é aumentar o imposto da gasolina.
Não é uma medida popular.
José Eli: Nem um pouco. Tanto que ninguém quer pensar nisso. Não só impopular como uma medida contra a competitividade do país. Ou se faz uma coisa coordenada por todo o mundo, em que todos aceitam fazer esse sacrifício, ou é impossível. Particularmente, eu não acredito nessa linha de que seja possível coordenar não sei quantos países do mundo para ter metas.
Não acredita?
José Eli: Não. As pessoas que imaginaram isso pensam que é possível ter um programa mundial. Seria mais fácil eleger um governo mundial do que coordenar todas essas ações necessárias para conseguir, por exemplo, que todos os países reduzissem suas emissões.
O que o sr. acha do investimento brasileiro no biodiesel?
José Eli: Se fôssemos pela linha do biodiesel, do eólico, nós nunca conseguiríamos mudar a matriz energética porque o impacto é muito pequeno.
Quer dizer que nós não temos saída?
José Eli: Temos. Nós ainda nem chegamos nas coisas importantes que podem mudar o mundo. O biocombustível, mesmo que ele viesse a resolver todo o problema do combustível, a energia que nós usamos não vem só do combustível. Também é preciso e mais importante a eletricidade. Não adianta nada você me dar o biodiesel se não transformar isso em eletricidade. Mas você vai querer queimar biodiesel para produzir eletricidade? Esse é o problema.
Temos uma série de tecnologias prometidas. Por exemplo: uma que está para entrar no mercado é o aproveitamento da energia proveniente das ondas e das marés. Outra que também está praticamente entrando é a proveniente do hidrogênio. O problema do hidrogênio é que para produzi-lo ainda é preciso usar eletricidade. O processo de produção do hidrogênio é por eletrólise. Mas aí você vai falar: "A energia para obter o hidrogênio está sendo obtida de forma limpa?" Não, porque grande parte da eletricidade produzida hoje usa carvão, petróleo e gás.
Essas fontes são mais satisfatórias do que, por exemplo, o biodiesel?
José Eli: O biodiesel já é uma tecnologia conhecida, está sendo produzido numa situação econômica. E você adiciona o biodiesel ao diesel, são muito poucos os motores que funcionam apenas com o biodiesel. Então ele não resolve nem o problema do combustível, como o álcool também não resolveu.
E as outras tecnologias?
José Eli: As tecnologias que poderão substituir o petróleo, o carvão e o gás ainda não estão nem na condição do hidrogênio. Há uma série de tecnologias que talvez surjam durante o século. No dia em que uma realmente surgir levará a uma revolução semelhante a que ocorreu quando o petróleo surgiu. A fusão nucelar, por exemplo, que não tem nada a ver com o que as pessoas falam de mal da energia nuclear atual, que é obtida por fissão e por isso tem o problema do lixo atômico, o problema bélico etc.
A fusão nuclear não tem nenhum impacto?
José Eli: Não. O dia em que for possível ter a fusão nuclear, por enquanto temos só o projeto e nem é o que promete ser, vai demorar muito para se conseguir - você poderá fazer baterias espaciais solares, tem gente trabalhando nisso; você pode conseguir energia por meio da manipulação de micróbios, tem gente trabalhando nisso; tem pelo menos uma dúzia de pesquisas em andamento que ninguém sabe precisamente quando vai acontecer.
Vamos falar um pouco sobre a agricultura e o uso do solo, porque eu acho que, tanto quanto a matriz energética, esse é um tema muito importante para o desenvolvimento sustentável - principalmente para um país continental como o Brasil. Tem várias coisas que eu gostaria de perguntar para o sr., desde reforma agrária...
José Eli: O problema mais sério da agricultura não é o solo. É a água. A questão específica do solo, especificamente no Brasil, não é um dos problemas ambientais mais importantes. Ele existe na medida em que se usa muito fertilizante e agrotóxico, evidentemente no solo. A conseqüência principal é nas águas.
Os aqüíferos estão contaminados?
José Eli: Aí você começa a fazer perguntas técnicas de onde está contaminado, o quanto está contaminado e isso é tudo incerteza. Algumas pessoas vão dizer que já está tudo dominado, que nós estamos perdidos e outras que dirão que tem um pouquinho de poluição, mas que ainda não atingiu o lençol freático. E você está falando com a pessoa errada. Eu não sou especialista nesse assunto.
O sr. falou, num de seus livros, da dificuldade de valoração do meio ambiente. O sr. cita o mangue como exemplo.
José Eli: Isso é outra coisa. É uma discussão se... No caso eu usei o exemplo do mangue, na verdade o manguezal, é porque existe uma tendência de achar que tudo será resolvido se conseguirmos dar preços para as coisas. Muitos economistas falam:
"Não tem problema, vamos ter que encontrar uma maneira de dar preço para tudo". Eu sou contra essa idéia de achar que dando preço para tudo resolveremos o problema. A maior parte dos economistas pensa assim, que na hora em que conseguirmos precificar tudo nós resolveremos o problema. E esse exemplo estava sendo dado para mostrar o quanto é difícil, mesmo para eles, chegar a uma conclusão coerente do que é. O preço, quando sai de um mercado, é o confronto entre a oferta e a procura. E a coisa funciona como uma tesoura: quando você corta uma folha de papel com uma tesoura, você nunca vai ser capaz de dizer qual a lâmina que é mais importante, a de cima ou a de baixo. No mercado, a oferta e a procura se cruzam da mesma maneira e formam o preço. A coisa que não tem preço, como o ar que respiramos agora, e eu quero dar um preço para ele e invento um monte de técnicas... Só que eu não vou criar um mercado para o ar.
Alguns jornalistas criticaram muito o Programa de Aceleração do Desenvolvimento, o PAC, por ter ignorado questões ambientais.
José Eli: Eu não creio que a questão seja saber se dentro do PAC tem a questão ambiental ou não tem. O que eu percebi é que o pessoal do meio ambiente, que vinha sendo acusado por essa turma dos "destravadores" do crescimento, fez balanço positivo no sentido de que todos os programas anunciados [no PAC] passarão pelo crivo do respeito à legislação ambiental. Se isso ocorrer, fico feliz.
MPD Dialógico, no. 12 , mar 2007, p. 10-15
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.