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Descendentes de escravos recebem área de 1,4 mil ha

Correio do Estado
28 de Set de 2007

Descendentes de escravos recebem área de 1,4 mil ha

Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007 16:00

Decreto publicado na edição de ontem do Diário Oficial da União oficializa como área quilombola 1.413 hectares de Furnas de Boa Sorte, localizado no município de Corguinho, a 110 quilômetros de Campo Grande. Este é o primeiro passo para a desapropriação de terras e resultado de uma luta iniciada em 1998, quando a Fundação Palmares reconheceu a área como remanescente de quilombo. A publicação coincidiu com um momento de instabilidade percebido na região, entre a comunidade e um dos proprietários, Urandir Fernandes de Oliveira. Este clima hostil levou servidores do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), acompanhados por agentes da Polícia Federal, a tentar a conciliação entre as partes, que ainda não aconteceu.

O convívio entre os descendentes de escravos e os vizinhos sempre foi pacífico, contam os moradores. No entanto, desentendimento quanto à propriedade de cerca de 30 reses resultou no registro de um boletim de ocorrência e, na última semana, o gado teria sido confinado em uma área, contra a vontade dos quilombolas. Conforme explicou o advogado de Urandir, Lincoln Hottum, "houve sucessivas invasões de gado" na área de seu cliente e os animais teriam destruído uma plantação de milho.

De acordo com os quilombolas, no entanto, não foi isso o que aconteceu. O plantio teria sido feito em área onde o gado costuma pastar, sem ter cercas. Após audiência de conciliação, feita por um juiz leigo — que não teve resultado — Urandir teria reunido as reses e as deixado em área muito pequena e sem água, dizem os quilombolas. Além disso, a estrada de servidão fora bloqueada, com a vigilância constante de peões.

"Ele fez uma denúncia mentirosa, dizendo que invadimos as terras deles. Mas temos a titularidade da terra desde 2000, com registro em cartório. Ele (Urandir) ignora o trabalho da União", alegou Agostinho Rodrigues Alves, um dos moradores de Boa Sorte. Lincoln Hottum disse que o gado será devolvido mediante assinatura por um responsável, comprometendo-se a ressarcir os prejuízos causados e cuidar dos animais.

Reunião

Ontem pela manhã, servidores do Incra, acompanhados de policiais federais para garantir-lhes a integridade física, foram até o local para conversar com os envolvidos. Não houve acordo. Uma reunião deve ser realizada hoje, no Ministério Público Federal, com a participação do superintendente do Incra, Luiz Carlos Bonelli, e de representantes da Polícia Federal e da Pastoral Rural.

Correio do Estado

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