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Descaso e despreparo

CB, Opinião, p. 21
Autor: BERNARDO, Maristela
29 de Out de 2006

Descaso e despreparo

Maristela Bernardo
Jornalista e socióloga

Encerrado o período eleitoral de 2006 -o ano que nunca esqueceremos- , ganhos e perdas vão além do resultado da disputa presidencial. Os impropriamente chamados debates foram um martírio de mentiras, meias-verdades, dados maquiados, obsessões temáticas, jogos e performances midiáticas. Para candidatos e partidos, interessa saber quem será o dono do poder e como será a coreografia em torno do poder nos próximos quatro anos.
Nada dessas bobagens de projetos para o país, nem a discussão dessa chatice de 'programa de governo', uma formalidade que só cria problemas e cobranças, pois o que importa é ter um bom marqueteiro para vender bem o presidente da marca (ou partido, que seja) contratante.

Alguns setores tentaram debater seus temas, mas, numa campanha como esta, logo viram tratar-se de ilusão participativa aguda. Os ambientalistas, que tradicionalmente discutem e apresentam plataformas mínimas para candidatos à Presidência da República, fizeram mais uma vez sua parte. Cerca de 50 entidades representativas das diversas correntes do campo socioambiental propuseram aos candidatos um momento de diálogo. Seriam cerca de duas horas com cada um deles, abordando questões estratégicas relacionadas a desenvolvimento e meio ambiente, a exemplo de: como enfrentar a expansão desordenada das cidades, inclusive na sua relação com tragédias associadas a fenômenos naturais. Como inserir a privilegiada biodiversidade brasileira nos planos de crescimento econômico? Se todos os candidatos, de alguma maneira anunciam uma era desenvolvimentista, como ela será equacionada do ponto de vista ambiental?

Ou seja, o que pretendem fazer para aumentar exponencialmente a infra-estrutura logística e energética, criar empregos e atrair investimentos sem entregar, na bandeja dos interesses de curto prazo, o equilíbrio ambiental que, necessariamente, se nutre de precaução e de planejamento estratégico de longo prazo?Mas longo prazo é um lugar que fica bem depois da próxima eleição, o que o torna bem desinteressante. Meio ambiente também é um tema impregnado de dois defeitos, do ponto de vista da política tradicional: costuma contrariar os grandes doadores de campanha e não é moeda forte na caça insana ao voto.

Ninguém aceitou o convite ao diálogo, exceção feita a José Maria Eymael, talvez por motivos auto-explicáveis. Certamente pesou na decisão dos candidatos o risco da exposição a tantos 'incômodos', reveladores das fragilidades dos discursos, de ignorância pura e simples ou, pior ainda, da falta de convicção da importância real do assunto.

Os ambientalistas entenderam a desculpa padrão de agenda lotada como descaso e falta de visão estratégica. É mais: é despreparo para lidar com as exigências atuais do conceito de desenvolvimento, para comprometer-se de fato com uma visão avançada de organização da sociedade e do mercado, na qual o componente ambiental representa mais do que um problema a ser acomodado ao lado da demanda por crescimento. Impõe, em primeiro lugar, abandonar o modelo mental da política conservadora e assumir que, para chegar à famosa sustentabilidade, é preciso rever a noção vigente de poder, reinventar o método de escolha de prioridades, renunciar ao protagonismo atrasado e coronelístico que se denuncia na centralidade doentia da figura dos candidatos.

Não existe desenvolvimento sustentável sem política sustentável - aberta, plural, ética, integrada, com utopia, coragem, estatura civilizatória - e esse é o grande nó no horizonte, visível nos espaços globais onde bushs perambulam e aprontam como figuras de pesadelo e, aqui, na triste, limitada, desinformadora, patética campanha política brasileira.

No limiar de um novo mandato de Lula, a grande incógnita é até que ponto as corretas formulações constantes do seu programa setorial de meio ambiente terão espaço para crescer em um governo voltado para uma agenda desenvolvimentista. No setorial, fala-se em mudanças em processos de produção e consumo como o caminho para a sustentabilidade na economia. Mas, como diria Garrincha: e isso está combinado com o governador BlairoMaggi,como agronegócio e outros aliados habituados a reclamar de controles ambientais e aos quais Lula está jurando companheirismo eterno e espaços generosos no governo?E a ministra Dilma Roussef acha também que a sustentabilidade ambiental e o princípio da precaução devem orientar as decisões estratégicas de governo? E o que os formuladores do programa quiseram dizer com o objetivo de "simplificar a legislação ambiental"?

Lula tem um patrimônio para começar seu provável segundo mandato (escrevo dois dias antes do segundo turno): a concepção socioambiental trazida para o governo por Marina Silva, que explicitou a política ambiental como componente intrínseco da política de desenvolvimento e foi à luta para, mesmo correndo riscos, criar condições de materializar a unidade proteção ambiental/atividade econômica. Talvez o principal exemplo disso seja o novo sistema de exploração de florestas na Amazônia, cujo calcanhar de aquiles é justamente a capacidade de o Estado-e não o setor público ambiental em sentido estrito-garantir as regras e o controle previstos ao longo do tempo.

Essa e outras ações que aproximaram a produção da conservação ambiental têm na sociedade e no setor produtivo o seu correspondente avanço. O grande problema é que as amarrações para que tudo isso consolide um novo paradigma de desenvolvimento ainda estão muito frouxas, em grande parte porque esse paradigma não está de fato no coração do núcleo duro do poder. Se Marina permanecer no Executivo, ela certamente continuará sua guerrilha de conquista de espaços de transversalidade dentro e fora do governo. No momento, essa é a única certeza que se pode ter para o futuro próximo. Para o longínquo, está muito, muito difícil fazer previsões.

CB, 29/10/2006, Opinião, p. 21

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