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Desastres colocam em xeque modelo de mineração no Brasil

O Globo, País, p. 10
03 de fev de 2019

Rompimentos das barragens de Mariana e de Brumadinho colocam em xeque modelo de mineração no Brasil
Órgão fiscalizador tem apenas 34 agentes para dar conta de 717 barragens em todo o país. Em Minas Gerais, são só cinco

BRASÍLIA - O rompimento das barragens de Mariana e de Brumadinho , em Minas Gerais, com o colapso das estruturas de rejeitos úmidos de minério de ferro, trouxe à tona a discussão sobre a forma como o material é armazenado no Brasil e a necessidade de encontrar alternativas para a atividade da mineração no país. Especialistas são unânimes em condenar o método de construção por alteamento a montante, utilizado nos dois reservatórios que foram ao chão.

O desastre também chamou atenção para a fiscalização federal de barragens de mineração praticamente inexistente no país. A Agência Nacional de Mineração (ANM) tem apenas 34 fiscais para dar conta de 717 barragens em todo o país. Em Minas Gerais, estado que concentra o maior número de estruturas no país, são apenas cinco. Para fiscais do órgão ouvidos pelo GLOBO, seriam necessários, no mínimo, dois mil profissionais para conseguir acompanhar presencialmente todo o sistema de barragens de mineração no Brasil.

A última vez que a barragem rompida em Brumadinho foi visitada pelos técnicos do órgão responsável pelo monitoramento foi em 2016. A fiscalização da agência ocorre de duas formas. Uma delas é documental. A agência recebe as declarações de estabilidade das próprias empresas, com relatórios de inspeções quinzenais e com declarações de estabilidade duas vezes por ano. A barragem da Vale teve declaração de estabilidade entregue pela mineradora em nome de consultorias como a Tüv Süd pelo menos três vezes em 2018.

A segunda forma de fiscalização pela ANM é presencial. Técnicos afirmam reservadamente, no entanto, que o monitoramento in loco é raro e, em alguns empreendimentos, nunca ocorreu. Não há braço suficiente para dar conta de mais de 700 barragens espalhadas por 20 estados.

Diante da crise, a agência tentará contratar funcionários temporários para a função de fiscal até conseguir fazer um concurso público. Para um diretor do órgão, no entanto, a chave de tudo isso é investimento em tecnologia para monitoramento on-line e em tempo real de cada uma das estruturas.

Preocupação
O que mais preocupa o governo são as 88 barragens espalhadas pelo país e construídas seguindo a técnica de alteamento a montante. Nesse modelo, a barragem vai crescendo em forma de degraus para dentro do reservatório, utilizando o próprio rejeito do processo de beneficiamento do minério sobre o dique inicial. Este tipo de barragem já é proibido no Chile, por exemplo, e tem sido menos usado nos Estados Unidos e na Europa. Os outros tipos de construção, considerados mais seguros, são alteamento a jusante, linha de centro e etapa única.

A ANM estuda mandar eliminar todas as estruturas a montante, assim como a Vale anunciou que fará com seus dez reservatórios desse tipo. Desde 2016, após o desastre de Mariana, o governo não autoriza mais a construção de barragens desse tipo. O problema é o passado. Das 88 estruturas, 43 são classificadas como de alto dano potencial associado.

Roberto Galery, professor e pesquisador da faculdade de Engenharia de Minas da UFMG, alerta que qualquer barragem de mineração precisa ter um sistema de drenagem eficiente, monitorado e controlado para a estrutura não encharcar e desabar.

- O nível de água da barragem tem que ser mantido o mais baixo possível. A grande questão é drenar para fora da barragem a água e isso independente do modelo de construção - afirma.

Carlos Barreira Martinez, pesquisador da UFMG e especialista em engenharia hidráulica, critica o setor mineral por, segundo ele, usar técnicas ultrapassadas, e cita monitoramentos com sensores a laser, de vibração e sonoros que devem ser usadas para monitorar barragens.

- Existe uma lei de segurança de barragem. Ela tem que ser seguida - afirmou.

O processamento de minério a seco vem sendo defendido por especialistas como alternativa para as barragens de todos os tipos. Em geral, o minério para ser comercializado, precisa passar por equipamentos até ser reduzido e classificado por tamanho das rochas. No beneficiamento a úmido, essa classificação utiliza a água para retirar as impurezas que prejudicam a qualidade final do produto.

Já no processo a seco, a água é dispensada. Caminhões então carregam o material desaguado para um aterro, com grãos sólidos compactados para diminuir o volume.

- O processo a seco é muito mais recente e eficiente. Eu vou ter uma montanha de um resíduo, não uma barragem, que pode se romper. E os resíduos ainda podem ser usados para outros fins, como ser transformado em peças de cerâmica - disse Paulo Lanzarotto, professor de engenharia da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

O Globo, 03/02/2019, País, p. 10.

https://oglobo.globo.com/brasil/rompimentos-das-barragens-de-mariana-de…

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