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Desafios da gestão socioeconômico-ambiental

CB, Opinião, p. 17
Autor: MATIAS-PEREIRA, José
04 de Jan de 2008

Desafios da gestão socioeconômico-ambiental

José Matias-Pereira
Doutor em ciência política e pós-doutor em administração, é professor de gestão socioambiental e de administração pública comparada do programa de pós-graduação em administração da UnB

A sociedade mundial, especialmente os países ricos, em que pesem os avanços científicos e tecnológicos alcançados no século 20, relegou de maneira deliberada a um plano secundário as questões socioeconômico-ambientais. Os discursos e as decisões dos governantes, políticos e empresários dos países desenvolvidos, em particular a partir da década de 1950, sinalizavam que a economia global estava em perfeita sincronia com o ecossistema da Terra. Isso explica, em parte, por que a inclusão na agenda política mundial da busca de soluções para os problemas socioambientais no planeta ocorreu de forma concreta somente há quatro décadas (relatório da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Humano. Estocolmo, Suécia, junho de 1972).
O processo de desenvolvimento socioeconômico-ambiental no mundo, ao longo do século 20, apoiou-se no uso intensivo de combustíveis fósseis e não-renováveis, como derivados de petróleo, carvão mineral e gás natural. Os esforços de análise e avaliação do impacto desse progresso desenfreado no meio ambiente no mundo, de maneira geral, ficaram restritos aos estudos desenvolvidos por cientistas e especialistas na área, que produziram poucos resultados práticos. Frente às fortes evidências dos efeitos danosos do aquecimento global, como a alteração da temperatura média do planeta, a aceleração do derretimento das geleiras, as tempestades, enchentes e secas arrasadoras, a opinião pública mundial começa a perceber a gravidade do problema, o que está permitindo uma maior mobilização dos indivíduos, comunidades, nações, governos, políticos, imprensa, entidades e empresas, para minimizar as graves mudanças climáticas em curso.
Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2003 adverte que as nações industrializadas verão suas emissões de gases poluentes aumentarem em 10% até o fim de 2010. O aumento está ocorrendo apesar dos esforços internacionais para que as emissões fossem reduzidas - entre eles, o Protocolo de Kyoto (firmado em 1997 e que expira em 2012). Fica cada vez mais evidente que é preciso promover a substituição dos combustíveis fósseis por energias renováveis, especialmente a eólica e a solar, a criação de novos sistemas de transporte, a reciclagem dos produtos e a estabilização populacional do planeta.
O adensamento populacional e a produção de alimentos tornam-se um indicador crítico para a sustentabilidade do planeta, como fatores causadores de uma crescente formação do estoque de gases que provocam o efeito estufa. Isso nos remete para as metas além do Protocolo de Kyoto, e a imposição drástica da redução das emissões de dióxido de carbono para evitar perdas irreparáveis para a humanidade.
O recente relatório final do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (ONU, 2007) deixou evidenciado que as alterações do clima no mundo são um fato cientificamente comprovado e que existem grandes riscos de longo prazo, entre os quais o derretimento das calotas de gelo na Groenlândia e no oeste da Antártida, a enorme perda de biodiversidade e as mudanças no curso da corrente do Golfo, que irão alterar seriamente os padrões climáticos e se constituir um risco para a humanidade como um todo. As possibilidades da redução da pobreza no mundo ficarão comprometidas, visto que os países mais pobres serão os mais prejudicados pelas mudanças climáticas.
A gestão socioeconômico-ambiental do planeta não pode ser mais protelada, como vem sendo feito nas últimas seis décadas, por meio de discursos vagos ou de ações dúbias por parte das lideranças mundiais. O esforço para promover cortes significativos no nível de emissões de gases deve basear-se no instinto de preservação da raça humana, diante do risco iminente de um desastre ecológico sem precedentes.
A conciliação do desenvolvimento humano e a conservação da biodiversidade e dos recursos naturais passam por soluções criativas - com democracia e utilização de técnicas adequadas - que viabilizem o desenvolvimento sustentável, a justiça social, a proteção ambiental e a eficiência econômica. O esforço de construir um planeta mais justo, com acesso à riqueza e às oportunidades é uma responsabilidade de toda a humanidade, em particular dos países mais ricos, que devem liderar esse esforço, apoiando de forma concreta os países mais pobres, com recursos tecnológicos e financeiros.

CB, 04/01/2008, Opinião, p. 17

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