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Desafio ao Japão na cúpula da vida

O Globo, Ciência, p. 32
27 de mai de 2010

Desafio ao Japão na cúpula da vida
Caça de baleias e crise global de diversidade reduzem chance de êxito de conferência

Claudia Sarmento Correspondente

Declarado pela ONU o ano da biodiversidade, 2010 era também o prazo acertado pela convenção internacional sobre o assunto para que o mundo começasse a sentir alguma melhora na proteção de ecossistemas. Mas mais uma meta ambiental global vai ser atropelada: animais e plantas estão desaparecendo num ritmo sem precedentes.

Em outubro, a mais importante conferência ecológica do ano (a COP10) pretende firmar um novo pacto para tentar interromper um processo de degradação que, segundo os cientistas, poderia levar o planeta a ser palco de uma extinção em massa, só comparável à que varreu os dinossauros da Terra, há 65 milhões de anos. Mas há dúvidas sobre o que se poderá alcançar e, desde já, um debate sobre a credibilidade do anfitrião. O encontro da ONU será em Nagoia, no Japão - país que sabe usar a tecnologia para ajudar o meio ambiente, mas é alvo de críticas de todos os lados quando o assunto é a preservação de espécies como baleias, atum e golfinhos.

Na COP10, as Nações Unidas esperam que as 193 nações signatárias da Convenção de Diversidade Biológica (CDB) estabeleçam metas de preservação para os próximos dez anos. A criação de novos santuários de espécies ameaçadas deve ser um dos principais tópicos.

Com sua imagem manchada pela insistência na caça às baleias, pelo massacre de golfinhos em Taiji (mostrado no documentário "The Cove", premiado com um Oscar) e pela recusa em aceitar a proibição do comércio do atum, o Japão está se esforçando para mostrar que merece as credenciais de líder da conferência. Mas a pressão dos ambientalistas vai ser grande.

- O Japão não tem nenhum interesse em preservar a biodiversidade. A caça às baleias é um crime internacional. Por que vamos dar legitimidade a essa política? A conferência de Nagoia vai encorajar o país a mostrar que tem preocupações ecológicas e isso é um insulto - disse ao GLOBO, por telefone, o capitão Paul Watson, fundador do grupo Sea Shepherd, conhecido pela perseguição aos baleeiros japoneses no Ártico.

O Sea Shepherd, que teve um de seus barcos afundados em janeiro após um choque contra um navio japonês, defende um boicote à COP10, mas outras grandes ONGs acreditam que Nagoia oferece uma chance única (mais uma) para que os governos façam algo para interromper a perda de biodiversidade.

- Estamos vendo uma espécie ser extinta a cada vinte minutos.

Nossos sistemas econômicos não valorizam a biodiversidade e os serviços que ecossistemas oferecem para indivíduos e nações. Um exemplo simples é a água limpa - diz Lina Barrera, gerente do Departamento de Política e Relação com Governos da ONG Conservation International. - Esperamos que, em Nagoia, os governos admitam a necessidade de corrigir essas falhas. Precisamos de novas estruturas financeiras e institucionais que reconheçam os benefícios essenciais que a natureza nos dá - afirma.

Um décimo das aves, um quinto dos mamíferos e um terço dos anfíbios estão ameaçados, segundo o último grande estudo sobre o assunto, publicado no final de abril. O aquecimento global, claro, torna mais dramático o quadro que vem se agravando desde 1970.

- Para manter o planeta funcionando de forma sustentável é preciso conter a perda acelerada. Temos que acabar com o desmatamento e criar uma rede global de reservas marinhas que cubra 40% dos oceanos - diz Wakao Hanaoka, do Greenpeace no Japão, que só vê uma possibilidade de o seu país ser visto com seriedade: - O governo precisa interromper seu programa de caça às baleias e proteger espécies como o atum, tão importante para nossa identidade cultural.

Os japoneses consomem 80% do atum azul do Atlântico e não aceitam o controle da pesca. O capitão Watson, que enfrenta uma ordem de prisão internacional decretada pelo Japão, diz não ter ilusões sobre Nagoia: - Nada vai ser resolvido, como não foi resolvido no Rio em 92 ou em Copenhague em 2009.

O Globo, 27/05/2010, Ciência, p. 32

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