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Desacordo climático

O Globo, Economia, p. 28
Autor: VIEIRA, Agostinho
07 de Nov de 2013

Desacordo climático
Na próxima segunda-feira, em Varsóvia, na Polônia, representantes de quase 200 países vão tentar pela décima nona vez seguida realizar uma tarefa simples. Em tese, pelo menos. Até agora, a missão de juntar numa mesma frase as palavras clima e acordo tem se mostrado impossível. Os interesses em jogo são tantos e tão grandes que superam com folga a gigantesca ameaça do aquecimento global.

Agostinho Vieira

Na verdade, a diferença entre a COP-19 e as anteriores talvez esteja exatamente na baixa expectativa em torno do encontro. Ninguém espera que qualquer decisão realmente importante seja tomada. Apenas dois resultados aparecem na lista de possibilidades. Ambos modestos e improváveis. O primeiro seria a criação de um Fundo Climático, bancado pelas nações ricas e que financiaria as ações de adaptação e mitigação dos efeitos climáticos. Promessa antiga. Mas, até agora, ninguém botou a mão no bolso para contribuir com essa vaquinha.
O segundo sonho é a aprovação de uma agenda mínima de tarefas que serviria de preparação para um futuro acordo global a ser assinado em dezembro de 2015, em Paris. Aqui começam as divergências. O Brasil, por exemplo, quer incluir entre os deveres de casa a criação de uma metodologia que permita a cada país calcular a sua responsabilidade histórica sobre o aumento da temperatura global. O trabalho seria feito imediatamente pelos cientistas do IPCC.
A explicação é simples, mas polêmica. O carbono, principal gás de efeito estufa, pode sobreviver mais de duzentos anos na atmosfera. Portanto, efeitos atuais das mudanças climáticas tiveram origem em emissões da Revolução Industrial. O que seria debitado da conta de países como Inglaterra, EUA e Alemanha. Os representantes americanos não querem ouvir falar em responsabilidade histórica. Argumentam que na época ninguém sabia quais seriam as consequências. Além disso, hoje, mais de 50% das emissões vêm das nações em desenvolvimento.
Há dois anos, na conferência de Durban, ficou combinado que dezembro de 2015 seria uma data chave. A menos que tudo dê errado, o que é sempre uma possibilidade, todos os países, sem exceção, deverão sair de Paris com metas claras de redução das emissões de carbono. Todos num mesmo barco. Mas quais seriam os critérios? Compensar emissões históricas é uma coisa, reduzir os lançamentos atuais absolutos é outra. Considerar a relação entre PIB e carbono pode ser uma terceira.
A China, atual campeã mundial de CO2, não duvida de que o cálculo mais justo é o das emissões per capita. Com mais de 1,3 bilhão de habitantes, a posição não poderia ser diferente. Já a Índia, pobre e populosa, apoiará qualquer decisão que permita ao seu povo ter as mesmas oportunidades de consumo e crescimento que europeus e americanos tiveram no passado. O princípio que vem sendo repetido como um mantra, há anos, é o das "responsabilidades comuns, porém diferenciadas"
A União Europeia concorda com ele, mas acha que as responsabilidades dos países em desenvolvimento também são muito grandes. Eles defendem metas ambiciosas para todos e um acordo legalmente vinculante, com força de lei internacional. Esse é outro item que deixa a delegação americana arrepiada. Eles não gostam de ser controlados. Aceitam reduzir as emissões, dizem que vão apresentar metas, mas acham que cada um deve cuidar do seu quintal.
Nessa Babel climática, a boa notícia é que o ritmo de crescimento das emissões vem caindo. Um relatório do Ministério do Meio Ambiente da Holanda mostrou que o volume de carbono só do setor de energia chegou a 34,5 bilhões de toneladas em 2012. Um crescimento de 1,4% em relação ao ano anterior, mas abaixo da média de 2,9% da década passada.
Outro estudo, feito pela consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), revelou que as emissões geradas por unidade de PIB caíram 0,7% no último ano. Um bom número, mas insuficiente. Se o esforço fosse dobrado, chegando a 1,4%, ainda assim a temperatura do planeta subiria 4,3"C. Para que o aquecimento fique abaixo do limite seguro de 2"C seria necessária uma queda de 6%.
De acordo com a ONU, as emissões globais de CO2 giram em torno de 50 bilhões de toneladas. No ritmo atual, chegaremos a 2020 com mais de 60 bilhões. Para evitar que os impactos sejam muito negativos, seria preciso reduzir para 44 bilhões, em 2020, 40 bilhões, em 2025, e 22 bilhões, em 2050. É possível, mas não parece provável. Se adiarmos, ficará mais caro. Se nada for feito, sempre resta a alternativa de rezar.

E-mail: economiaverde@oglobo.com.br

O Globo, 07/11/2013, Economia, p. 28

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