VOLTAR

Derretimento da Antártica está duas vezes mais rápido

O Globo, Sociedade, p. 23
20 de Mai de 2014

Derretimento da antártica está duas vezes mais rápido
Colapso das geleiras aumentaria nível do mar em até 0,43mm por ano

Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br

O derretimento das camadas de gelo da Antártica está superando todas as previsões. Um estudo divulgado ontem pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) mostra que o continente está perdendo cerca de 169 bilhões de toneladas de gelo anualmente -duas vezes mais do que foi constatado em 2010. Isso equivale a cerca de dois centímetros a menos, a cada ano, na cobertura do continente mais frio do planeta. Se este ritmo foi mantido, o aumento anual no nível dos oceanos pode chegar a 0,43 milímetro.

O colapso foi registrado pelo satélite CryoSat, da ESA, que conta com um radar altimétrico para medir a altura da superfície do gelo e sua espessura. O equipamento é capaz de mapear 96% do continente antártico.

Segundo as medições, a Antártica Ocidental é a área mais sensível às mudanças climáticas. O derretimento não é mais compensado pela formação de novas camadas de gelo. Levantamentos anteriores concluíram que o degelo na região pode ter chegado a um ponto irreversível.
-O satélite mostra como o afinamento das geleiras na Antártica Ocidental avança em uma marcha preocupante -alertou, em entrevista à BBC, Andrew Shepherd, pesquisador da Universidade de Leeds (Reino Unido) e autor de um estudo sobre o avanço do degelo, publicado esta semana na revista "Geophysical Research Letters". -Temos provas concretas das mudanças dramáticas nesta parte do planeta.

Coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jefferson Cardia Simões assegura que as medições do Cryosat são "o mais Research Letters". -Temos provas concretas das mudanças dramáticas nesta parte do planeta.

Coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jefferson Cardia Simões assegura que as medições do Cryosat são "o mais fiel" retrato do degelo caótico do continente antártico.

-Até dez anos atrás, não tínhamos equipamentos dedicados exclusivamente ao monitoramento da Antártica, então não sabíamos o quanto ela pode contribuir para o aumento do nível do mar -lembra. -Agora, temos uma tecnologia preparada para este campo e reparamos que o continente ainda é muito frio, mas que armazena 90% do gelo do mundo. Então, sua preservação é crucial.

Duas pesquisas publicadas na semana passada também diagnosticaram o derretimento da Antártica.
Cientistas da Nasa e da Universidade da Califórnia acompanharam, entre 1992 e 2011, o movimento de seis geleiras na porção ocidental do continente. De acordo com as medições de satélite, o degelo dessa região aumentaria o nível do mar em até 1,2 metro.

Uma das geleiras, Thwaites, ganhou uma análise particular, conduzida pela Universidade de Washington (EUA). E o resultado foi ainda mais catastrófico. Considerada crucial para o equilíbrio daquele ecossistema, a geleira, caso desaparecesse, culminaria em um aumento do nível do mar de até quatro metros num período de 200 a mil anos.

Mapas topográficos detalhados, radares aéreos e modelos de computador traçaram o efeito das mudanças climáticas em Thwaites. A geleira foi escolhida para a avaliação porque atua como uma barragem para o restante das massas congeladas. Seu desaparecimento precipitaria um degelo suficiente para elevar o nível os oceanos em pelo menos três metros.

Embora a geleira seja atingida pelo aumento da temperatura global, ainda é difícil prever quando ela chegaria ao fim. Para os cientistas, seu colapso ocorreria provavelmente daqui a 200 a 500 anos.

-A base das geleiras está assentada sobre rochas localizadas abaixo do nível do mar -explica Simões. - Com o aquecimento da água, percebido principalmente na Antártica Ocidental, o gelo começa a encolher em direção ao continente. Perde-se o contato com a rocha, daí vemos os icebergs. Este cenário tem ocorrido de uma forma tão acelerada que surpreende até os climatologistas.
A movimentação dos icebergs exige um monitoramento constante. Um deles, que se desprendeu no mês passado de geleiras na Antártica, mede 660 quilômetros quadrados, o equivalente à metade do tamanho da cidade do Rio.

De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o desaparecimento das grandes geleiras da Groenlândia e da Antártica elevaria o nível do mar em até 82 centímetros até o fim do século.
Agora, no entanto, a estimativa é considerada conservadora e deve ser revisada em conferências internacionais.
A temperatura da Antártica aumentou 1,6 grau em 600 anos, segundo medições realizadas em uma região na cidade do Rio.
De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o desaparecimento das grandes geleiras da Groenlândia e da Antártica elevaria o nível do mar em até 82 centímetros até o fim do século. Agora, no entanto, a estimativa é considerada conservadora e deve ser revisada em conferências internacionais.
A temperatura da Antártica aumentou 1,6 grau em 600 anos, segundo medições realizadas em uma região na península do continente, onde vários blocos de gelo se desintegraram nos últimos 20 anos. O ritmo do aquecimento não foi uniforme. Os termômetros se elevaram com velocidade dez vezes maior na segunda metade do século XX.

O Globo, 20/05/2014, Sociedade, p. 23

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/derretimento-da-antartica-est…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.