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Deputados ruralistas moderados tiveram mais sucesso eleitoral

Valor Econômico, Política, p. A8
27 de Dez de 2018

Deputados ruralistas moderados tiveram mais sucesso eleitoral
Parlamentares da frente do agronegócio mais atuantes tiveram menor taxa de reeleição

Ricardo Mendonça

Apesar da onda conservadora e do avanço de políticos tidos como radicais nas eleições de 2018, os deputados federais da bancada ruralista que estiveram na linha de frente da defesa do agronegócio tiveram menos sucesso eleitoral do que aqueles que permaneceram na retaguarda.Segundo levantamento de uma ONG ambientalista, a Repórter Brasil.

Conforme o levantamento consolidado pelo Valor, 166 deputados federais da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) tentaram a reeleição neste ano. No grupo dos que podem ser classificados como mais agressivos da bancada, 54% foram reeleitos. Na outra turma, a dos mais contidos, a taxa de sucesso eleitoral foi maior, 68%.

De acordo com a Sociedade Rural Brasileira (SRB) ficou abaixo da metade . Segundo a SRB, só 46% dos nomes do chamado "núcleo duro" da bancada, composto por 83 deputados, se reelegeram. A conta considera os que disputaram outros cargos, como de senador e governador, e os que saíram da política.

No caso do levantamento feito pela ONG, os autores analisaram o comportamento dos deputados da bancada em 14 votações, como a medida provisória que aumentou a área desprotegida da Floresta Nacional do Jamanxim (PA) e o projeto que acaba com a exigência do símbolo de alimentos transgênicos em rótulos. Considerou-se ainda se o deputado já foi multado pelo Ibama, se recebeu financiamento eleitoral de desmatadores ou de firmas condenadas por trabalho escravo.

O índice final é mostrado em graus Celsius, expresso na forma de um termômetro corporal. Vai de 36oC a 42oC. Quanto mais contrária à pauta defendida pelos ambientalistas foi a atuação do parlamentar para o meio ambiente, mais "febril" esse político aparece no ranking.

O modelo foi desenvolvido com colaboração do Instituto Socioambiental, Conselho Indigenista Missionário, Greenpeace e Fundação Abrinq, entre outras.

Um caso que simboliza esse resultado é o do deputado Valdir Colatto (MDB-SC), um dos líderes da bancada ruralista, autor de sete projetos classificados como "desfavoráveis ao meio ambiente" pelas entidades.

Com 41,5oC de "febre rural", não foi reeleito. Apesar da visibilidade do mandato, sua votação caiu de 115.431 mil votos em 2014 (10o mais votado do Estado) para 71.473 neste ano (19o). Colatto é membro do "núcleo duro" da SRB.

Ruralistas com temperatura alta que disputaram reeleição são maioria na bancada, 125. Outros nomes conhecidos desse grupo derrotados em 2018 são Beto Mansur (MDB-SP), Carlos Melles (DEM-MG), Jovair Arantes (PTB-GO), Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), Nelson Marquezelli (PTB-SP), Osmar Serraglio (PPPR) e Raquel Muniz (PSD-MG).

O ex-presidente da FPA, Nilson Leitão (PSDB-MT), campeão do índice com 42oC, não entra na conta da ONG porque disputou outro cargo. Tentou o Senado, mas não venceu.

Já os 41 ruralistas com menor temperatura são aqueles cujo índice na medição das ONGs ficou igual ou inferior à média dos deputados que não fazem parte da FPA. Exemplos de políticos desse grupo que foram reeleitos: Fausto Pinato (PP-SP), João Bacelar (PR-BA), Júlio Delgado (PSB-MG), Luciano Ducci (PSB-PR), Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Osmar Terra (MDB-RS) e Weliton Prado (ProsMG). Onyx e Terra foram escolhidos pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, para comandar a Casa Civil e o ministério da Cidadania, respectivamente. Eles vão se licenciar do mandato.

"Uma pena perder alguns dos bons [deputados da FPA]", disse o presidente da SRB, Marcelo Vieira ao Valor. "Isso nos deixa preocupados. Mas já temos boas discussões em andamento com os novos nomes [eleitos que assumirão pela primeira vez em 2019]". Vieira estima que, com novas adesões, a Frente deverá manter seu tamanho na próxima legislatura.

Diretor da SRB, João Adrien fez interpretação parecida em artigo sobre os resultados das urnas. Depois de dizer que mudanças provocadas na FPA "podem assustar", afirmou: "Percebemos um crescimento expressivo de políticos eleitos com uma visão pró-mercado, vindos de partidos de centro-direita e direita, inicialmente alinhados com reinvindicações e anseios do setor agropecuário".

Para o cientista político Marco Antônio Teixeira, da FGV de São Paulo, os resultados sugerem que "há um centro ainda majoritário [no eleitorado] que gosta de candidaturas com chance maior de diálogo, de fazer pontes. Um perfil que evita ou repudia extremismos", disse.

Valor Econômico, 27/12/2018, Política, p. A8

https://www.valor.com.br/politica/6039601/deputados-ruralistas-moderado…

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