OESP, Vida, p.A6
01 de Dez de 2005
Deputados de MS enterram projeto de usinas no Pantanal
Por 17 votos contra e apenas 5 a favor, idéia do governador do Estado, Zeca do PT, é engavetada
João Naves de Oliveira Especial para o Estado CAMPO GRANDE
Com muitas palmas e gritos de vitória, os ambientalistas de Mato Grosso do Sul comemoraram ontem a derrota do governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, na Assembléia Legislativa.
Os parlamentares rejeitaram o projeto de lei de autoria do governador que permitiria a instalação de usinas de álcool e açúcar na Bacia do Alto Paraguai, na beirada da zona pantaneira do Estado.
Dos 24 deputados que compõem o legislativo, 17 decidiram pelo arquivamento, dois faltaram, um não votou e quatro apoiaram o governador.
Durante a comemoração, a viúva do ambientalista Francisco Anselmo de Barros, Iracema Sampaio, perdeu a voz e chorou muito. Refeita, disse que não foi em vão a luta do marido. "Foi uma vitória da humanidade". Francelmo, como era conhecido, ateou fogo no próprio corpo durante manifestação pública contra a iniciativa de Zeca do PT (leia texto ao lado).
POSIÇÕES
Votaram a favor da proposta Loester Nunes (PDT), Paulo Corrêa (PL), Sérgio Assis (PSB) e Luizinho Tenório (PL). Há uma semana, o caso foi analisado pela Comissão de Constituição de Justiça e Redação da AL, e considerado inconstitucional. A sessão de ontem aconteceu para aprovar ou não o parecer da comissão, acatado pelos deputados estaduais Maurício Picarelli (PTB), Raul Freixes (PTB), Pedro Kemp (PT), Pedro Teruel (PT), Ary Rigo (PDT), Onevan de Matos (PDT), Roberto Orro (PDT), Humberto Teixeira (PDT), Bela Barros (PDT), Ari Artuzi (PMDB), Jerson Domingos (PMDB), Pastor Barbosa (PMDB) e Akira Otsubo (PMDB), Waldir Neves (PSDB), Antônio Carlos Arroyo (PL), Valdenir Machado (PRTB) e José Teixeira (PFL). O presidente da casa, Londres Machado (PL), somente votaria em caso de empate.
O êxodo crescente devido a baixa fertilidade das terras agricultáveis foi um dos principais motivos apresentados ao governador pelos prefeitos dos municípios situados na Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai. Para eles, a monocultura canavieira é viável na região e juntamente com ela a implantação das usinas. Zeca do PT defendeu os prefeitos tentando cancelar a lei estadual de 1982, que proíbe esse tipo de indústria no planalto que margeia e influencia os ecossistemas pantaneiros.
Técnicos e ambientalistas explicam que a planície alagada, protegida por lei e considerada patrimônio mundial pela Unesco, seria contaminada pela prática agrícola envolvida na cultura da cana. O vinhoto, um subproduto altamente tóxico, e agrotóxicos poderiam contaminar rios que compõem a bacia, uma das fontes de água do Pantanal.
Havia também o risco de o material químico chegar ao Aqüífero Guarani, a maior reserva subterrânea de água doce do mundo, que é alimentada por rachaduras encontradas no Mato Grosso do Sul.
Ambientalista se matou para evitar aprovação
ATIVISMO: No dia 12 de novembro, após uma manifestação contra a instalação de usinas de álcool na região do Pantanal, o jornalista e ambientalista Francisco Anselmo de Barros, de 65 anos, o Francelmo, despejou álcool em todo o corpo e em dois colchões, jogando-os no chão e deitando-se sobre eles enquanto pegavam fogo na esquina mais movimentada de Campo Grande. Ele foi levado para o hospital, mas morreu no dia seguinte. A imolação foi explicada em dez cartas que deixou para a família e amigos. "Faça o velório na capela 13, dá mais repercussão", disse na carta dirigida ao amigo Jorge Gonda, que, a seu pedido, preside a organização não-governamental fundada e presidida por ele, a Fundação para Conservação da Natureza de Mato Grosso do Sul.
OESP, 01/12/2005, p. A26
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