GM, Rede Gazeta do Brasil, p. B14
08 de Dez de 2004
Dendê vai gerar energia para comunidade no Pará
A utilização do óleo de palma começa a viabilizar projetos sociais para elevar a renda em comunidades isoladas. A produção de óleo de palma começa a viabilizar dois projetos que envolvem pequenas comunidades no interior do Pará. Um deles é a utilização desse óleo vegetal, também conhecido como dendê, para abastecer de energia uma pequena comunidade isolada. O outro projeto envolve uma espécie de reforma agrária, com a distribuição de lotes de dez hectares para cada família produzir o cacho de palma. Os dois projetos estão localizados no município de Moju, onde também começa a ser implantada a primeira fecularia da Amazônia e que vai permitir o incremento da produção de mandioca no município, em consórcio com a produção do óleo de dendê.
A unidade de demonstração de utilização energética de óleo vegetal foi instalada ano passado na comunidade de Vila Soledade, localizada a cerca de 100 quilômetros da sede do município de Moju, completamente isolada, só podendo ser alcançada em pequenas embarcações. A vila tem apenas 120 imóveis e 700 habitantes. O projeto é resultado de uma parceria do Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio), da Universidade de São Paulo, com a Embrapa Amazônia Oriental, Biomass Users Network (Bun), Agropalma e prefeitura do município de Moju.
O projeto utiliza um motor diesel convencional, de fabricação nacional, adaptado para operar com óleo de palma in natura. O motor funciona seis horas por dia, sendo cinco horas movido a óleo de palma e uma hora com diesel. De acordo com os responsáveis pelo projeto, o uso da palma se justifica pelo grande potencial existente na região para esse óleo (o Pará é o maior produtor nacional, com a produção concentrada nessa região dos rios Moju e Acará), pela inclusão social e econômica que esta cultura pode gerar e pela necessidade de diminuir a dependência em relação ao diesel.
Comunidades isoladas
O projeto foi debatido durante o final de semana que passou em Belém, num seminário promovido pelo Cenbio e a Bun, com o apoio da Financiadora de Estudos e Projeto (Finep). Orlando Cristiano da Silva, do Cenbio, ressaltou que a experiência na Vila Soledade utiliza o óleo de palma in natura, e não o biodiesel. "O que se está discutindo aqui é outra forma de utilização do óleo vegetal, porque o biodiesel é algo mais vocacionado para uso em larga escala, em transporte. Aqui estamos vendo como atender as pequenas comunidades isoladas da Amazônia. Para a concessionária de energia, não compensa atender a essas comunidades, porque é um pequeno núcleo, isolado, com pouca renda. É possível atendê-las com óleo vegetal produzido nas próprias comunidades", disse Orlando.
Calcula-se que existem em torno de 25 mil comunidades isoladas em toda a região amazônica. De acordo com o técnico do Cenbio, que coordena o projeto, não existe praticamente diferença em termos de emissão de gases e de desempenho entre o motor convencional e o adaptado para receber o óleo de palma. O consumo é um pouco maior, mas isso é compensando pelo baixo investimento necessário para colocá-lo em operação. Além disso, Cristiano defende a necessidade do governo subsidiar esse tipo de energia para que ela possa ser utilizada por essas comunidades a um custo ainda menor. A experiência da Vila Soledade já está sendo levada a outras comunidades, ainda mais isoladas.
Agricultura familiar
Tanto o projeto de produção de energia de Vila Soledade como o de agricultura familiar contam com o apoio da Agropalma, que é a maior produtora de óleo de palma da América Latina, com uma área de 80 mil hectares no Pará, 35 mil dos quais plantados com palma. Sua produção é de cerca de 100 mil toneladas por ano. Em fevereiro do próximo ano a Agropalma vai inaugurar, em Belém, a primeira unidade de produção de biodiesel a partir do óleo de palma.
De acordo com Gil Muner, gerente geral de agroindústria da empresa, a meta da Agropalma é chegar a 50 mil hectares em produção, inclusive com parcerias como a que está sendo feita com os pequenos agricultores. É uma alternativa à exigência atual da legislação ambiental, de preservação de 80% da área na Amazônia, o que leva a empresa a adquirir grandes áreas para a ampliação de seu plantio. "Isso implica num custo muito elevado, não só na aquisição de terra, mas existe uma responsabilidade em manter uma reserva florestal, preserva-la, evitar invasores. É a mesma coisa que comprar um apartamento de cinco quartos e só poder utilizar um. É necessário o governo federal reavaliar essa política ambiental", disse o gerente da Agropalma.
Ele informou que neste final de ano está sendo realizada a primeira colheita das primeiras 50 famílias instaladas no Moju em 2002, com todo o apoio da Agropalma, do governo do Estado e da prefeitura local. Hoje o projeto já abriga 150 famílias, cada uma com dez hectares plantados. Outras 80 famílias deverão ser atendidas por um programa do governo federal, através do Incra, que abrangerá também o município vizinho de Acará, com o plantio de palma devendo começar em 2006.
O prefeito de Moju, João Martins Cardoso Filho, o Parola, disse que esse projeto ganhou força depois de uma visita que fez em 1999, junto com uma comitiva do governo paraense, à Malásia, onde conheceu experiência semelhante. Naquela ocasião, ele constatou que um produtor rural de seu município ganhava em média cerca de 40% do salário mínimo. "O nosso projeto, quando alcançar sua plenitude, vai possibilitar uma renda por família de oito a dez salários mínimos. Isso vai mudar as condições de vida dessa gente", disse. Isso deverá ocorrer a partir de 2006. O prefeito espera que o projeto envolva 2 mil famílias no Moju e municípios vizinhos. Ele destaca a parceria com a Agropalma, que entra na preparação das áreas, com a produção da muda e com a tecnologia utilizada.
kicker: Meta da Agropalma é chegar a 50 mil hectares em produção
GM, 08/12/2004, Rede Gazeta do Brasil, p. B14
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