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Delegado diz que problema social leva à prisão dez 'mulas' por mês em Tabatinga

Agência Brasil
Autor: Vladimir Platonow
23 de Mar de 2008

Todos os meses, pelo menos 10 pessoas, em geral jovens, são presas pela Polícia Federal (PF) em Tabatinga (AM) levando pequenas cargas de cocaína pelo Rio Solimões. Com a droga dentro de bagagens, no interior de objetos ou amarradas com fita adesiva junto ao corpo, os "mulas" buscam a sorte no varejo do tráfico, tentando passar a salvo das barreiras policiais ao longo do caminho até Manaus e outras capitais.

Se forem bem sucedidos, podem ganhar de R$ 1,5 mil a R$ 3 mil, dependendo da quantidade levada e do destino final. Mas quando são pegos, seguem para a delegacia da PF, onde são ouvidos, e depois vão para o presídio de Tabatinga, local de moradia pelos próximos três anos ou mais, onde 213 pessoas cumprem pena - 90% por tráfico.

No sábado (21), dois mulas foram presos pelos policiais federais da Operação Cobra, na Base Anzol, o último e mais temido posto da PF no Solimões, onde todas as embarcações são obrigadas a parar e são revistadas. Uma mulher que havia saído de São Luís (MA) e chegado a Tabatinga de avião levava três quilos de cocaína atadas ao corpo.

Aos 28 anos de idade, bonita e bem vestida, ela poderia não despertar a suspeita dos policiais, mas começou a passar mal, devido ao excesso de aperto da droga junto ao peito, e acabou presa. Na delegacia, disse que era sua primeira viagem e ficou aos prantos, quando deu a notícia por telefone à família.

"Se eu pensasse que isso poderia ter acontecido na minha vida, jamais teria entrado nessa. Só entrei pelo dinheiro e porque pensei que seria fácil. Eu precisava terminar a minha casa" desabafou ela, que é casada e tem uma filha de quatro anos. Pelo serviço, ganharia R$ 3 mil para levar a droga até São Luís.

No mesmo barco, foi pego outro "mula". Morador de Tabatinga, 21 anos de idade, estudou até a quarta série e trabalhava como mototaxista na cidade. É sua primeira prisão. Levava 1,125 kg de cocaína atado nas pernas e nas coxas. Moreno, estatura média, conta que é descendente de índios kokama e que não tinha nenhum plano específico sobre o que fazer com os R$ 1,5 mil que ganharia para transportar a cocaína até Manaus.

"A situação não estava boa. O trabalho está difícil. Então resolvi fazer esse negócio", disse ele, na delegacia, enquanto esperava algemado para ser ouvido. "Na hora vale a pena, mas agora vejo que não vale. Estou arrependido, não quero esta vida mais não", afirmou ele, irmão mais velho de um total de seis.

A família mora em uma casa simples, onde só se chega depois de passar por ruas esburacadas e cobertas de lama. Ao saber da prisão, a mãe não demonstrou surpresa. "Já me falaram que tinha uns colegas dele chamando para viajar, para levar bagagem. Ele me perguntou e eu disse não. Mas ele não quer ouvir, prefere o conselho dos amigos. Então é isso o que acontece."

A mulher contou que recebia o auxílio do Bolsa Família referente a três dos filhos que freqüentam a escola, mas que o benefício foi suspenso, sem nenhuma explicação. Atualmente, sobrevive da venda de curitis (picolés caseiros) de frutas. "Agora, com o filho preso, complica ainda mais para mim."

Ela culpou a falta de trabalho em Tabatinga pelo grande número de jovens envolvidos com as drogas. "Eles não têm emprego. Aí aparece uma ocasião dessas e, quem é meio bobo, vai. Muitas vezes dá certo. Muitas vezes não."

E mesmo para os "mulas" que não são presos, o ganho com o tráfico acaba não valendo a pena. O mototaxista que levou nossa reportagem até a casa do garoto contou, com naturalidade, que também já havia feito o transporte de oito quilos de cocaína para Belém (PA), há cerca de quatro anos, mas que praticamente nada sobrou dos R$ 3 mil que ganhou.

"Com o dinheiro, eu comprei roupas, um aparelho de som e fiz uma casinha de quatro por cinco, mas como não tinha emprego, vendi e fui morar em outro lugar. O meu dinheiro acabou em nada."

Para o delegado federal em Tabatinga Giovanni Vicente Fontes Lopes, os "mulas" são apenas a parte aparente de um grande esquema criminoso. "O mula pode ser classificado como a pessoa que é a ponta do iceberg. Ele se forma dependendo da situação social do país, e na cidade de Tabatinga, especificamente, por falta de opção. Talvez seja necessário que se dê mais atenção a esse tipo de ocorrência que vem acontecendo aqui freqüentemente. É um problema social."

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