O Globo, Opinião, p. 7
Autor: MOSCATELLI, Mario
29 de Dez de 2008
Degradação
Mario Moscatelli
Diante do quadro de metástase ambiental na qual a região metropolitana do Rio de Janeiro se encontra, precisamos é da implementação emergencial de ações objetivas para reverter ou no mínimo reduzir a espacialidade dos efeitos da degradação. Quando analisada a área compreendida entre os municípios do Rio de Janeiro e Duque de Caxias, que representa uma das áreas mais impactadas da Baía de Guanabara, observa-se que há décadas sua bacia hidrográfica foi convertida oficialmente num conjunto de enormes valões de esgoto. Os canais do Mangue e do Cunha, e os rios Irajá, São João de Meriti, Sarapuí e Iguaçu são cursos "d'água" mortos, visto que a carga de esgoto in natura produz completa ausência de oxigênio em suas "águas".
Destaca-se que a degradação desses corpos d'água se espalha espacialmente por extensas áreas da Baía de Guanabara, seu receptor final.
Suas águas, apenas neste trecho, recebem uma ordem de lançamento diário de um milhão, duzentos e noventa e seis mil toneladas de esgoto in natura. Além disso, os mesmos valões também transportam centenas de toneladas de resíduos domésticos, hospitalares, que se acumulam nos manguezais, onde em uma área de cento e cinqüenta metros quadrados consegue-se recolher um volume superior a quinze toneladas de resíduos. Tenha-se clara que a histórica degradação da Baía de Guanabara é muito semelhante senão por vezes idêntica àquelas encontradas na bacia hidrográfica da Baixada de Jacarepaguá, numa das áreas mais valorizadas da cidade do Rio de Janeiro como também nos pútridos rios PiraquêCabuçu, Flecha e Itá que exportam o esgoto in natura para as águas da Baía de Sepetiba. Diante dos pífios resultados ambientais obtidos por bilionários projetos de saneamento como o caso do PDBG e enquanto as políticas de habitação e transporte continuam uma miragem utópica nas políticas oficiais, o que se pode indicar como um dos possíveis caminhos para reverter esse caos que só faz crescer? A sugestão é baseada nos dados do tratamento das Unidades de Tratamento de Rios (UTRs), que são estações instaladas na calha dos rios transformando esgoto puro em água, com reduções de 99,9% de coliformes fecais e 98% de fosfato, entre outras melhorias excepcionais.
Essas unidades seriam instaladas nos rios, impedindo a chegada do lixo e do esgoto in natura nos corpos d'água receptores finais. Em dois anos teríamos as atuais regiões mais degradadas, senão limpas, menos impactadas do que hoje.
O pacote das seis UTRs da Baía de Guanabara sairia por R$ 270 milhões, correspondendo a pouco mais da metade do que está se torrando na faraônica Cidade da Música. As perguntas básicas são: a sociedade que paga a conta está satisfeita com o estado de degradação? Quanto a sociedade quer gastar e esperar para reverter esse quadro?
Qual o custo na saúde pública, ambiental, socioeconômico e político gerado pela degradação?
Qual a relação custo/benefício que teríamos se adotássemos essas estações como parte da solução visando a não ampliar o passivo ambiental?
Destaca-se que as UTRs não podem ser encaradas como uma solução única e milagrosa para todo o passivo ambiental existente, mas complementar a tudo que ainda falta fazer pelo PDBG, pelas políticas de habitação, transporte e saneamento. Esta solução tem como maior efeito a não-ampliação do passivo ambiental exportado pelas bacias hidrográficas convertidas em valões para as baías, lagoas e praias. A recuperação é factível.
Basta querer.
Mario Moscatelli é biólogo e professor de Gerenciamento de Ecossistemas da UniverCidade
O Globo, 29/12/2008, Opinião, p. 7
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