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Debate sobre sustentabilidade é incontornável

O Globo, Negócios & cia, p. 28
Autor: LOPES, Carlos; OLIVEIRA, Flávia
23 de Jun de 2012

Debate sobre sustentabilidade é incontornável

Entrevista -Carlos Lopes , Diretor-executivo da Unitar

Diretor-executivo da Unitar, a agência da ONU para treinamento e pesquisa, Carlos Lopes está há um ano e meio envolvido com a Rio+20. Passou a semana na cidade, em eventos oficiais e paralelos à conferência. Diz que o Brasil, como anfitrião, intermediou o "acordo possível". E compara: há dez anos, em Johanesburgo, as Metas de Desenvolvimento do Milênio ocuparam não mais que dois parágrafos de texto. "Hoje, todos falam disso como algo normal", completa. O debate sobre sustentabilidade, diz, é incontornável. Mas a Rio+20 foi refém da crise mundial. Lopes chefiou o Pnud-Brasil na década passada. Em setembro, assume a Comissão Econômica para a África. Na entrevista à coluna, ele trata também da Europa: "A crise ainda não bateu no fundo".

A seguir, os principais trechos:

BRASIL NA RIO+20
O que se espera de uma conferência é um acordo. Não se pode pôr na conta do Brasil a falta de ambição do documento. O papel do anfitrião é fazer com que saia o consenso; que não cheguemos a uma situação, como aconteceu nos últimos anos, em que há o caos, caso de Copenhague na discussão sobre mudanças climáticas. Como chegamos a um consenso, pode-se dizer que houve sucesso da diplomacia brasileira.

FALTOU AMBIÇÃO
O documento não é ambicioso, embora seja um avanço sobre a Rio 92. Não é Riomenos20. O debate sobre sustentabilidade é hoje incontornável. Independentemente do texto, todos os países estão a fazer esforços pela sustentabilidade. Alguns fazem esforços gigantescos, mas não querem assinar, como China e EUA. Ver a situação só pelo prisma do que diz o texto é muito redutor.

ACORDO POSSÍVEL
Foi o acordo possível. Mas em termos de linguagem, houve avanços. Quando se fala em reforçar o Pnuma, pode parecer frágil, mas a menção abre uma janela para se discutir a questão. Quando se diz que é preciso criar objetivos para o desenvolvimento sustentável, abre-se outra janela. Hoje em dia, todos falam em Objetivos de Desenvolvimento do Milênio como algo normal. Quando isso foi escrito em Johanesburgo, era um texto de dois parágrafos. É um exemplo de algo que era genérico e se transformou num acordo aceito por todo o mundo.

ECONOMIA VERDE
Até agora, atacamos o problema em camadas. Primeiro, trata da economia. Depois, se a economia der certo, do social. E se o social estiver a funcionar, a gente se preocupa com o meio ambiente. Essa receita, dos três pilares do desenvolvimento sustentável, está presente em todas as discussões. Mas ela não pode mais ser feita desse jeito. A economia tem de ser modificada para ser mais ecológica e mais humanitária. É isso que chamamos de economia verde.

ACORDO DE PREFEITOS C-40
É o exemplo que vale a pena citar nesta semana. Não será possível que só os Estados controlem as discussões. Haverá outros atores a participar das negociações.

REFÉM DA CRISE
A Rio+20 foi refém da crise econômica dos países da OCDE. Evito dizer países ricos, porque o conceito de riqueza já é relativo. Aparece uma crise e se corta no social e no meio ambiente. É a economia primeiro. É uma lástima, mas é a realidade do mundo.

SITUAÇÃO NA EUROPA
A crise ainda não bateu no fundo. Pelos jornais, parece que bateu. Visitando os países, vemos que não. O caráter resiliente do Estado de providência ainda está presente.

PODER DOS MERCADOS
O mercado financeiro, em 2008-2009, entrou em sua própria crise. Só que ainda tem força para se aguentar. Começou o movimento para a regulação muito mais forte. É uma questão de meses.

CENÁRIO PARA O BRASIL
É um país com muitas coisas a favor. Como exportador de commodities e negociador internacional, conseguiu desenvolver relação especial com países com grande demanda, caso da China. O país tem pontos de inovação importantes. É o caso das adaptações agropecuárias da Embrapa, do etanol e de como a Embraer tenta introduzir energias novas nos motores de avião. O Brasil também provou que sua engenharia social dá resultado. Mas sofre um excesso de autoconfiança, depende demais das commodities e está criando bloqueios em áreas como infraestrutura, simplificação do aparelho fiscal e gerenciamento do dinheiro público.

O Globo, 23/06/2012, Negócios & cia, p. 28

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