O Globo, Planeta Terra, p. 4-7
23 de Ago de 2011
De volta à casa
Projeto vai remover micos-leões invasores de parque em Niterói
Cesar Baima
cesar.baima@oglobo.com.br
Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) e mico-leão-da-caradourada (Leontopithecus chrysomelas). São duas espécies ameaçadas que até no nome são parecidas, mas, para evitar que a competição acabe por prejudicar a preservação de ambas, os invasores terão que ser removidos, em um projeto inédito no país patrocinado pela Fundação Boticário. Neste caso, são pelo menos 15 grupos com 106 indivíduos de micos-leões-da-cara-dourada encontrados em levantamento realizado em 2009 pela bióloga Maria Cecília Kierulff, professora da Universidade Federal do Espírito Santo e diretora do Instituto Pri-Matas, no Parque Ecológico Darcy Ribeiro, na região oceânica de Niterói.
Naturais da Bahia, ainda não se sabe como os micos-leões-da-cara-dourada chegaram ao Rio, mas sua presença muito próxima de áreas de conservação de Mata Atlântica habitadas pelos micos-leões-dourados acendeu o alerta. Se os animais se encontrassem, a disputa por recursos poderia empurrar uma das espécies mais à frente no caminho da extinção. Estima-se que restem cerca de 1,5 mil micos-leões-dourados no mundo, contra 6 mil micosleões-da-cara-dourada.
- Invasores são sempre um risco para a espécie nativa - justifica Cecília.
A bióloga relembra o caso de duas espécies de saguis - Callitrix jacchus e Callitrix penicillata - que invadiram o Rio no século passado, provenientes do Nordeste e do Cerrado, e que já produziram híbridos, ameaçando ao mesmo tempo a diferenciação genética de parentes locais, como o Callithrix aurita, e a vida de vários tipos de aves e outros animais, atacando seus ninhos e fontes de comida.
- Por isso, esta retirada é urgente, para que não aconteça novamente o que aconteceu com os saguis no Rio de Janeiro inteiro - avalia Cecília
Explosão Populacional é o temor principal
A demora na obtenção dos recursos para a remoção dos micos-leões-da-caradourada, porém, pode deixar o trabalho ainda mais difícil. O principal temor de Cecília é que os animais tenham aproveitado as condições favoráveis e a proximidade dos seres humanos - muitos habitantes da região oceânica de Niterói teriam adotado grupos e indivíduos como animais de estimação, alimentando-os frequentemente - para passar por uma explosão populacional nos últimos dois anos. Por isso, conta a bióloga, o projeto trabalha com uma margem de segurança, além da estimativa atual de que o número de grupos tenha aumentado para 20 e o total de exemplares para cerca de 150.
- Quando começamos o levantamento, em 2009, a princípio pensamos que os micos-leões-da-cara-dourada estavam restritos a um ou dois grupos e, quando vimos, eles já tinham ocupado toda a área do parque - recorda.
Todo o processo de remoção, previsto para começar até o fim deste ano, deverá durar pelo menos um ano e meio. Segundo a bióloga, os animais capturados serão soltos em uma área no Sul da Bahia preservada pela empresa de papel e celulose Veracel com cerca de 3 mil hectares em que não há micos ainda.
- Mas não é só pegar, soltar e pronto - diz Cecília. - Vamos acompanhar os grupos soltos por mais seis meses para ter certeza de que estão bem e se adaptando à volta para casa. Afinal, o mico-leão-dacara-dourada também é uma espécie ameaçada, ao mesmo tempo algoz e vítima neste caso.
Outro grande temor da bióloga é a reação dos moradores que adotaram os bichos como animais de estimação. Por isso, o projeto de remoção também prevê trabalhos de conscientização e educação ambiental da população.
- Realmente é um bicho lindo para se ter no quintal, mas infelizmente eles não são nativos - pondera. - Espero que as pessoas entendam que a remoção é melhor tanto para o mico-leão-da-cara-dourada quanto para o mico-leão-dourado.
Cecília conta ainda que uma das opções discutidas neste sentido é providenciar
um meio para que os moradores possam acompanhar a situação dos micosleões-da-cara-dourada deslocados, seja por imagens ou por notícias do projeto:
- Não vai ter trauma, ninguém quer isso nem para os animais, nem para as pessoas.
A remoção e realocação dos micos vai demandar recursos da ordem de R$ 500 mil. A maior parte do dinheiro será usada na captura e transporte dos animais, além da manutenção de duas equipes de especialistas, no Rio e na Bahia, para acompanhar todo o processo de adaptação, já que a maior parte dos profissionais envolvidos atuará de forma voluntária.
- Este é apenas o segundo programa de longo prazo que apoiamos - diz Emerson Oliveira, coordenador de Ciência e Informação da Fundação Boticário, principal patrocinadora do projeto, que conta ainda com parcerias com o Instituto Chico Mendes para Biodiversidade, a Conservation International, a Associação Mico-leão-dourado, o Instituto Estadual do Ambiente do Rio, o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo e o Instituto de Estudos Socioambientais do Sul da Bahia.
Atuando em projetos relacionados ao meio ambiente desde 1991, desde então a Fundação Boticário já investiu US$ 10,5 milhões em 1.266 iniciativas. Todos os anos, ela lança dois editais, em março e agosto, para a escolha dos projetos, abertos a propostas de instituições sem fins lucrativos, como organizações não-governamentais e acadêmicas. As propostas são avaliadas por mais de cem consultores voluntários, que repassam suas análises para um comitê multidisciplinar interno da fundação. Este, por sua vez, estabelece um ranking dos melhores projetos para serem aprovados pelo conselho curador da instituição dentro do orçamento disponível, que, segundo Oliveira, deve alcançar R$ 1,9 milhão este ano.
- Muitos destes projetos culminaram na criação de novas unidades de conservação nos âmbitos municipal, estadual e federal, além de terem permitido a descoberta de novas espécies ou a redescoberta de outras que estavam desaparecidas - comemora Oliveira.
Entre as espécies descobertas estão quatro que até receberam o nome Boticário, em homenagem à instituição: o peixe anual Aphyolebias boticario, encontrado no Rio Purus, no Acre; a rã Megaelosia boticariana, encontrada no Parque Estadual de Itapetinga, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo; o peixe Listrura boticario, encontrado na Reserva Natural Salto Morato, no litoral Norte do Paraná; e a planta Gymnanthes boticario, da família Euphorbiaceae e que habita áreas de caatingas arenosas ou pedregosas com altitude de 400 a 900 metros, encontrada em 2006 na cidade de Mirandiba (PE).
Visitantes Indesejados e perigosos
Como um hóspede que nunca vai embora, as espécies invasoras são visitantes indesejados que trazem muitas perturbações, com o agravante de também representarem um perigo para seus "anfitriões". Os saguis-estrelas que invadiram as matas do Rio, por exemplo, atacam os ninhos do formigueiro-do-litoral (Formicivora littoralis), uma das aves mais ameaçadas de extinção do planeta, cujo restrito habitat-as regiões de restinga litorânea em torno da Lagoa de Araruama-está sendo destruído pela especulação imobiliária.
Em geral, as espécies invasoras são introduzidas nos novos ambientes por mãos humanas. E, instaladas e adaptadas neles, começam os problemas. Longe de seus predadores naturais e eventuais parasitas e doenças características de seus ambientes, as populações dos invasores crescem sem controle, concorrendo por espaço e recursos, como alimentos e água, com as espécies nativas, que ainda têm que enfrentar seus inimigos naturais.
Segundo relatório do Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (CBD), as espécies invasoras já provocaram, desde o ano 1600, 39% de todas as extinções de animais cujas causas são conhecidas. Ainda de acordo com a instituição, apenas em seis países-EUA, Reino Unido, Austrália, Índia, África do Sul e Brasil-mais de 120 mil espécies exóticas de plantas, animais e microrganismos foram introduzidas, causando prejuízos da ordem de centenas de bilhões de dolares. Com base nestes dados, o Secretariado da CBD estimou em cerca de 480 mil as espécies invasoras nos mais diversos ecossistemas da Terra, provocando perdas econômicas superiores a US$ 1,4 trilhão anuais, ou aproximadamente 5% do Produto Interno Bruto mundial.
O Globo, 23/08/2011, Planeta Terra, p. 4-7
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.