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De vendedor de enciclopédia no Caribe a etnógrafo indígena

O Globo- http://oglobo.globo.com
Autor: Natasha Mazzacaro
21 de ago de 2016

Serge Guiraud nunca morou no Brasil, mas seria capaz de dizer "yawalapiti" ou "enawene nawe" sete vezes seguidas, com sono ou com um punhado de farofa na boca - e ainda assim ganharia medalha de honra pela pronúncia caprichada. Em sua casa em Toulouse - sua cidade natal, localizada a 700 quilômetros de Paris -, ele explica o paradoxo, enquanto belisca nacos de queijo minas com goiabada, durante um "apéro" pré-jantar não tão francês. Se fosse seguir a carreira escolhida na adolescência, seria representante comercial, mas, no meio de seu caminho, no começo da década de 1980, tinha uma tribo. Ou melhor, várias tribos de 60 etnias diferentes. E ele se encantou. Virou pesquisador e antropólogo visual, especializado em etnografia indígena; encheu os acervos do Museu de Toulouse e da Funai com material de pesquisa; fez projetos com as comunidades para resgatar a identidade local; escreveu um livro, o "Les gardiens de la forêt des ombres".

Sentado numa poltrona, numa sala de estar cheia de plantas tropicais e artesanato, ele relembra um anúncio de jornal, que convocava franceses para vender enciclopédias em Guadalupe, no Caribe. Decidiu aventurar-se e, de lá para Belém, "a porta da Amazônia", foi um pulo.

O maior choque cultural aconteceu logo na primeira tribo que visitou, no nordeste do Pará: os zo'és, palavra que significa "nós" em tupi-guarani. Também chamados de poturus, por causa do toco de madeira que flecha os seus queixos (como prova a maior foto que decora seu apartamento), eles não falavam português. Pas grave, já que, naquela época, Serge também não havia aprendido o idioma. Devagarinho, por mímicas e sorrisos largos, o contato foi travado.

- Abriram a minha calça para saber se eu era homem ou mulher. Um grupo americano de missionários protestantes tinha acabado de ser expulso pela Funai. Os índios tinham ficado doentes e estavam caindo que nem moscas. Morreram 40! Pensei: "Que loucura! Quinhentos anos depois de Cabral, a mesma coisa continua acontecendo." Voltei para Toulouse e disse para o meu chefe que precisava de mais três meses de férias, porque ainda tinha trabalho para fazer no Brasil. Ele sempre me dava - diz, achando graça.

Por causa dessas e de outras experiências, Serge teve que aprender a sambar. E ele ficou tão desprendido nas matas tropicais que chegou a passar 33 dias sozinho, a bordo de uma canoa. Foram mil quilômetros remando de Parintins até o Rio Jaú. No balanço das águas da Amazônia, perdeu 20 quilos, mas ganhou a companhia inesquecível dos botos cor-de-rosa. E, vez ou outra, o estranhamento dos ribeirinhos.

- Achavam estranho ver um senhor de cabelos brancos, com um sotaque engraçado, remando numa canoa. Mas, nessa região, ninguém questiona nada. Só duas vezes perguntaram se eu era bandido e se iria matá-los - lembra, com bom humor. - Poucos lugares no mundo têm uma natureza tão pura. O que mais me atrai é o sentimento de liberdade que você tem quando está numa tribo. O silêncio da noite, o cachorro latindo, a conversa no centro da aldeia...

Foram inúmeras viagens de avião, voadeira, ônibus. Graças a essas longas jornadas, Serge é dono de um conhecimento que poucos brasileiros podem dizer que têm. Ele sabe, por exemplo, que no Xingu existe muita pajelança, que os caiapós são guerreiros e por isso riem pouco ("a postura é ereta e você tem que ficar mais sério") e que os enawenes nawes só bebem água com mel porque "os animais tomam água pura e os índios não são animais".

Uma de suas histórias preferidas é a dos vestidos das mulheres caiapós. Em 1989, três índias foram internadas num hospital do Amazonas. Chegaram nuas, obviamente, e assim ficariam, não fosse a caridade de uma senhorinha que estava na mesma casa de saúde. A boa samaritana apiedou-se daquelas mulheres mostrando suas vergonhas e decidiu costurar umas roupas. A história fica cômica quando as caiapós voltam para a tribo e lançam moda. Foi uma febre. Até hoje, a ala feminina da aldeia usa os vestidos, com diferentes versões de estampa.

- Cheguei a comprar um para a Marie Noëlle, mas ela achou horrível - conta, às gargalhadas, sobre a mulher, que prefere as areias de Copacabana.

Serge conta que por onde passa é questionado sobre índios que usam camiseta de futebol, chinelo e peças não tradicionais das tribos. Seu raciocínio é lógico: "Não somos japoneses porque comemos sushi, americanos por ouvirmos rock ou argentinos porque dançamos tango."

- As pessoas gostariam que os índios ficassem pelados. É um imaginário de um ser puro que mora na floresta, que eu mesmo demorei dez anos para me desfazer. O índio é igual a qualquer outra pessoa. Tem um movimento da antropologia que diz que a cultura não pode ficar parada. E isso funciona também com os índios, que são híbridos, como nós. Quando os portugueses chegaram, as tribos do litoral migraram para o interior do Brasil. Tem lenda indígena lá da Amazônia que fala do mar. Como isso é possível?

Para Serge, o mais importante é que eles mantenham sua percepção única do mundo. Certa vez, no Xingu, o chefe de uma tribo disse que via os espíritos dos peixes que estavam sendo cozidos na panela. Em sua visão, objetos da modernidade e o sacro coexistem e "isso é ser índio".

Há algum tempo, o pesquisador comprou uma briga com um canal francês, que fez um documentário dizendo que os yawalapitis não tinham contato com o restante dos brasileiros. Uma besteira, já que um deles, chamado Pirakuman, já tinha ido até conhecer a França - Serge coordenou um projeto para a recuperação da língua nativa entre os jovens. Um dia, numa autopista entre Paris e Toulouse, um cantor francês muito conhecido começa a cantar na rádio. Serge diz ao índio: "Este é um cara muito famoso aqui." E é respondido: "Eu sei. É o Charles Aznavour. Ouvia muito na tribo."

A explicação para tamanho conhecimento musical é que no grupo dos irmãos Villas-Bôas havia um pesquisador francês, cujo melhor amigo era um macaco batizado de Charles de Gaulle.

A agenda de Serge é apertada. Na semana desta entrevista, por exemplo, ele iria para Lyon (negociar uma visita dos tapirapés, do Mato Grosso, ao Museu de História), para Genebra (visitar uma exposição de artesanato indígena) e para a Provence (queria ver uns cocares apreendidos pela alfândega, que seriam doados a um museu).

E nessa rotina sempre há espaço para voltar ao Brasil, onde está agora. O plano é passar setembro com os caiapós, no Pará. Mas, antes, vai ver o kuarup, a festa dos mortos do Xingu. Os índios vão homenagear Pirakuman (o que era fã de Aznavour), que morreu de infarto ano passado. A família sai do luto, os índios lutam, podem fazer sexo (o jejum é de dois meses) e vão pescar num ritual singular, que consiste em bater um cipó venenoso na água. Por fim, a alma de Pirakuman pode subir para o céu, onde, quem sabe, irá encontrar os Villas-Bôas e o cantor francês, que só conheceu pelo toca-discos.

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