CB, Opinião, p. 11
Autor: CORRÊA, Maurício
18 de Fev de 2007
De olho no relógio do fim do mundo
Maurício Correa
Advogado
Cientistas que participaram do Projeto Manhattan, responsáveis pela construção da bomba atômica, criaram nos EUA, em 1947, o Boletim de Ciências Atômicas da Universidade de Chicago. Em um dos campi, sob o patrocínio daquela entidade, foi instalado instrumento figurativo que passou a ser conhecido como relógio do juízo final. Seu objetivo é registrar, simbolicamente, os freqüentes riscos por que têm passado a Terra em conseqüência da ação do homem. A iniciativa resultou do pânico causado pela tragédia de Hiroshima e Nagasaki, cujos efeitos apavoraram o mundo.
Quanto mais o ponteiro se aproxima de 0h, mais iminente se torna o perigo a desabar sobre nós. Seria, assim, o começo do Armagedon. No dia da inauguração, o relógio marcava exatas 23h53m. O sinal de alerta originou-se do temor que tomou conta da comunidade científica após o terrível saldo deixado pelas bombas lançadas sobre o Japão, bem como da competitividade que o invento instigou em outros países. Sobretudo na ex-União Soviética, fazendo Stalin tremer de raiva e inveja.
Vários acontecimentos no planeta têm feito oscilar o ponteiro desse marco que sinaliza a gravidade dos riscos permanentes que nos cercam. Os testes com a bomba de hidrogênio, em 1952; em seguida, a corrida de testes termonucleares pelos EUA e a então União Soviética; a guerra fria, cuja longa duração quase nos conduziu ao fim do mundo; a disputa nuclear entre Índia e Paquistão; o terrorismo internacional, que teve como ápice, em 2001, o ataque ao World Trade Center e, mais recentemente, a ascensão da Coréia do Norte e Irã ao círculo atômico, fizeram com que os ponteiros que apontam os riscos sob os quais vivemos girassem para bem perto de uma tragédia escatológica.
No início da segunda quinzena do mês passado, em função das tensões provocadas por essas últimas ocorrências, os ponteiros chegaram à marca de 23h55m, portanto, apenas a cinco minutos de 0h, que é o início do disparo da luz vermelha do apocalipse. O ingrediente agregado a essa última aferição levou em conta um novo fenômeno. Além da ameaça nuclear, os cientistas pautaram o desastre ecológico como fator de avaliação. Se até há pouco tempo as preocupações com o meio ambiente se limitavam a advertências generalizadas, nem sempre ouvidas pelas grandes potências, agora o fato começa a constar da agenda de prioridade da consciência mundial.
Somos beneficiários das conquistas da inteligência humana. Mas, também, somos vítimas delas. É necessário que os homens dividam entre si a responsabilidade pela conservação do meio em que vivemos. Do contrário, antes que se imagina, estaremos diante da catástrofe acerca da qual nos advertem os cientistas do relógio do juízo final. Pela primeira vez, o presidente dos EUA dá sinais de que algo precisa ser feito em termos de conservação do meio ambiente. É bom que isso aconteça, já que preside o país que mais contribui com o desastre ecológico da terra.
Com o desenvolvimento acelerado dos países asiáticos, apontando as chaminés de suas indústrias para o céu, com aumento progressivo de emissão de gás carbônico na atmosfera e da busca de crescimento de outros países, se providências não forem tomadas, sem dúvida que nos avizinhamos do pior. Felizmente, algumas notícias promissoras despontam nesse horizonte melancólico. Com a perspectiva da redução de 20% da frota americana de veículos movidos com produtos de petróleo, ainda que modesto o percentual, é sinal de que a questão se coloca na ordem do dia com certa prioridade.
Grandes multinacionais controladoras de indústrias emissoras de CO2, independentemente de iniciativa governamental, já estão providenciando a substituição do petróleo ou carvão por energia alternativa não poluente. Esse esforço tem que ser ampliado para que todos possam fazer o mesmo. Mais do que isso. Cada um de nós tem que dar a sua contribuição para que mantenhamos a Terra livre da degradação pela qual somos responsáveis.
As revelações que têm sido feitas ultimamente acerca do aquecimento global são dramaticamente preocupantes. A desproteção da camada de ozônio, o degelo das capotas polares, o aumento dos níveis dos oceanos, as alterações climáticas, a desertificação resultante das áreas florestais devastadas, a desenfreada poluição dos rios e mares, são partes do pesadelo que nos assaltam.
Os governantes e, individualmente, cada um de nós vivemos sob duas afiadas espadas. Uma, da imprevisibilidade do que pode advir do descontrole do uso irresponsável da energia atômica; a outra, do avanço avassalador da poluição do meio ambiente em todas as suas vertentes. Se não nos dermos conta de que somos os únicos causadores de tudo isso, e de que somos também os únicos capazes de reverter o quadro, por certo será uma herança dramática que legaremos às gerações de amanhã.
Temos que estar atentos ao relógio do juízo final, e tudo fazer para evitar que cheguemos à escuridão da meia-noite. Aí pode ser o nosso fim.
CB, 18/02/2007, Opinião, p. 11
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