O Globo, O País, p. 8-11
18 de Mar de 2007
De olho no futuro, ainda à sombra do passado
Cultura da cana-de-açúcar para fabricação do etanol se expande no país ainda com condições degradantes de trabalho
O verde da cana é também o da esperança brasileira rumo a um lugar de ponta no comércio mundial do etanol - combustível limpo e aposta no combate à emissão de gases poluentes no mundo. Mas fantasmas do passado ainda atormentam o setor. Uma peregrinação de 300 mil migrantes, todos os anos, percorre os caminhos da cana-de-açúcar, à espera de emprego, submetida a uma carga de trabalho muitas vezes desumana. Para sobreviver ao teste de resistência, muitos recorrem às drogas, num caminho sem volta. A degradação leva a doenças e até à morte. E ainda há resíduos de trabalho escravo, apesar do reconhecido avanço nas condições de colheita, atestado pela Organização Internacional do Trabalho.
Atrativa para a venda do combustível, a perspectiva de reduzir a emissão de gases poluentes não é suficiente para tranqüilizar ambientalistas, que temem os efeitos das queimadas e da monocultura. Já a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) nega problemas ambientais, sociais e trabalhistas. "O álcool combustível é o mais benéfico ao meio ambiente", diz a entidade.
Soraya Aggege Enviada especial
Antes mesmo da consolidação do acordo do etanol com os Estados Unidos, o Brasil já ganha uma paisagem em verde-cana.
Dono de 60% dos 6,4 milhões de hectares plantados de cana-deaçúcar no país, o interior de São Paulo começa a trocar a pecuária e parte dos laranjais por um tom monocromático. Coloridos, só os lenços nos rostos de 200 mil migrantes temporários que começam a chegar aos canaviais paulistas neste fim de semana, para se juntar aos 50 mil bóias-frias estabelecidos desde a década de 60 nas cidadesdormitório da cana-de-açúcar, como Guariba, periferia de Ribeirão Preto, a chamada "Califórnia Brasileira".
Chamados "desertos verdes" pelos ambientalistas, os canaviais escondem dramáticas humanidades, como as viúvas e os órfãos da "birola", a morte provocada pelo excesso de esforço no trabalho, ou até a semi-escravidão. As jornadas são longas e duras. Muitos usam o crack para conseguir cortar, no facão, 12, 15, 30 toneladas diárias, bases exigidas em usinas ou pelos "gatos" (aliciadores de mãodeobra). A maioria, segundo estudos da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) e da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), não sobrevive com saúde a sete safras.
- Podemos dizer que só em São Paulo, onde está a maioria dos canaviais, 200 mil migrantes vivem oito meses por ano de maneira degradante. Temos aqui cadeias invisíveis da escravidão - diz uma das principais estudiosas da cana no país, a socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva, da Unesp.
"Falta um Brasil nesses canaviais"
Para ela, o novo ciclo do etanol, ao expandir os canaviais para outras regiões do país, aumentará a miséria, degradará ainda mais o meio ambiente e expulsará os pequenos agricultores para as periferias urbanas.
A pecuária, a soja e outras monoculturas começam a se embrenhar mais pela Amazônia para dar lugar à cana, avalia.
Mecanizados e modernos, os canaviais paulistas quase não têm reservas florestais e, em alguns casos, oferecem trabalho temporário em condições degradantes. Em 2004 e 2005, a Pastoral do Migrante documentou 15 mortes por "birola" e outras quatro por acidentes de trabalho. A maior parte dos casos espera decisão na Justiça.
Mulato forte, o mineiro Antonio Ribeiro Lopes, de 55 anos, era um dos super-homens em Guariba. Cortava até 30 toneladas num dia, por 12, 15 horas, seis, às vezes sete dias por semana. No fim da safra, fazia bicos nas sacarias. Na manhã de 23 de novembro de 2005, já tinha cortado 16 toneladas quando se sentiu mal no canavial.
- O feitor (fiscal) mandou ele ir descansar no ônibus. Fazia um calor de 40 graus. No fim do dia, mandaram me avisar que o levaram a um hospital, mas parece que ele já chegou morto - conta Maildes Moreira Araújo, que se diz "viúva da cana" e excortadora, também de 55 anos.
Maildes diz que o marido se esforçava para realizar um sonho antigo: reformar a casa onde vivia com ela e os filhos:
- Eu pedia para ele trabalhar menos porque já vi muita gente adoecer e morrer no canavial, mas ele era teimoso.
O médico Nereu Rodolfo Krieger da Costa, da região de Ribeirão Preto, atuou mais de dez anos em usinas e já atendeu vários casos similares:
- Na maioria dos casos, os cortadores morrem em casa.
Nos laudos escrevem parada cardíaca ou algo assim. É difícil comprovar as mortes da cana, mas a Pastoral tem conseguido alguns. Não há pesquisas. Mas geralmente é pelo excesso de trabalho, que é muito duro.
Ele explica ainda que os cortadores de cana geralmente não têm nutrição para carga de trabalho tão grande. Os migrantes já chegam com cardiopatias e não passam por exames.
- Muitos, quando se sentem cansados demais para cumprir a carga mínima, de dez, 12 toneladas por dia, procuram bombas" preparadas em farmácias, outros compram drogas, muitas vezes vendidas pelos "gatos".
Crack para dar energia e maconha depois, para tirar as dores.
Faltam pesquisa médica, legislação, fiscalização, alimentação adequada, exames médicos, bom atendimento, falta um Brasil nesses canaviais - afirma.
Procuradores, delegados e demais responsáveis pela fiscalização do trabalho também são unânimes em afirmar que, embora tenham flagrado poucos casos de trabalho escravo nos últimos dois anos, o trabalho na cana é degradante, principalmente por causa dos locais onde os migrantes temporários ficam alojados e das condições de trabalho.
- Apesar de fazer tanto esforço físico, eles são colocados em depósitos de gente. Lugares para sete, oito pessoas, com 50 são normais. E isso numa região quente, sob 35, 40 graus. Muitos morrem ou adoecem - diz o delegado de Trabalho de São Carlos, Antonio Morillas Júnior.
Situação se agrava em maio
Há casos na Justiça que falam de feitores armados em Piracicaba, dívidas impagáveis para os "gatos" em São Carlos, Bauru, mas a prática vem sendo reduzida em São Paulo. - Há dois anos temos melhorado muito as condições nos canaviais, graças à fiscalização. Mas estamos percebendo o aumento das lavouras de cana, e ficamos preocupados.
Por causa desse aumento, de 20 auditores do Grupo Móvel Rural, já estamos treinando mais 200 para entrar em ação até o fim de 2007 - disse o delegado regional do Trabalho em São Paulo, Márcio Chaves.
A situação se agrava com a chegada dos migrantes em maio, quando começa o corte.
- A maioria fica apinhada em alojamentos nos canaviais, e não se pode entrar sem ordem das usinas - diz irmã Inês Facioli, da Pastoral do Migrante.
O GLOBO percorreu alguns canaviais, mas não conseguiu permissão para ver alojamentos e falar com trabalhadores.
A perspectiva de aumento da produção de etanol pode gerar mais trabalho de corte, e isso assusta os sindicalistas.
- O efeito Bush vai aumentar os problemas. A cana vai gerar mais subempregos. O que conquistamos em algumas usinas paulistas foi com mortes, doenças e greves. Teremos que começar tudo de novo
- afirma o presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Guariba, Wilson Rodrigues da Silva
Setor evolui, mas ainda se morre cortando cana
Depois de uma ação coordenada entre Judiciário, Executivo e Ministério Público, essa situação melhorou'
Maiá Menezes
Na vanguarda da esperança comercial brasileira, a cultura da cana-de-açúcar ainda guarda resquícios de um país escravocrata. Os números da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que 3% das 170 empresas que constam na lista negra do trabalho escravo são usinas de etanol ou fazendas de colheita de cana. O setor evoluiu, diz a coordenadora da OIT para o trabalho escravo, Patrícia Audi. A situação hoje já é melhor que a de dez anos atrás, e o setor diz que a grande maioria dos trabalhadores tem carteira assinada. Mas ainda há notícia de exploração de mão-deobra e resíduos da cultura da escravidão.
- Não podemos associar prática de superexploração ao trabalho escravo, mas não podemos dizer que não exista (o trabalho escravo). O fato é que, a partir de 2002, depois de uma ação coordenada entre Judiciário, Executivo e Ministério Público, essa situação melhorou muito - afirma Patrícia Audi.
O procurador Luiz Antônio Camargo, coordenador nacional de Combate ao Trabalho Escravo do Ministério Público do Trabalho, alerta que o excesso de trabalho - apesar de não ser caracterizado pelas normas internacionais como escravidão - em alguns casos pode levar trabalhadores da cana à morte:
- Há trabalhadores morrendo cortando cana. É desumano.
Ele não tem condição de se alimentar. Trabalha no sol, por horas a fio. Essa é uma situação degradante. Temos ainda denúncias de trabalho infantil. É hora de a sociedade se mobilizar, para evitar que o problema se agrave com o incremento produção. Ainda há tempo.
Na avaliação internacional, trabalho escravo é caracterizado pelo cerceamento da liberdade. O procurador do trabalho de Mato Grosso, Gustavo Ricardo Rizzo - hoje responsável pelo processo aberto depois da libertação de 1.003 trabalhadores em condição de semiescravidão, em uma usina da região, em 2005 -, no entanto, não vê distinção:
- O artigo 149 do Código Penal fala que trabalho escravo ou degradante é crime.
Migrantes saem em busca do milagre da cana
Período da safra cria cidades de viúvas temporárias
O fluxo freqüente de 300 mil migrantes da cana produz no Brasil zonas de solidão feminina. As chamadas cidades de "viúvas de marido vivo". Em Porteirinha, no semi-árido de Minas Gerais - uma das fontes de mão-de-obra para o oeste de São Paulo e para Mato Grosso -, cerca de cinco mil homens na faixa de 18 a 35 anos embarcam todos os anos para o período de safra nos canavias. Não há estatística, mas muitos não regressam.
- Há relatos de muitos que ficam abandonados pelas ruas. Em outros casos, se tornam viciados. Durante o trabalho, muitos dormem debaixo de currais. Já recebemos companheiros dentro do caixão - relata Elton Mendes Barbosa, de 42 anos, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porteirinha.
"Para mim, cana nunca mais"
O fluxo também vem do Maranhão. Migrantes como os amigos Nonato dos Santos, Vanderlei Messias dos Santos e Antonio Lima engrossam as fileiras dos canaviais paulistas. Eles ainda têm esperança. Já não é mais o caso de Devanir Cardoso dos Santos, de 27 anos, que desistiu, depois de quinze dias entre usinas do oeste paulista. Ele saiu da cidade no dia 9 de fevereiro e perambulou por alojamentos insalubres. Relata que teve a carteira retida em uma das usinas.
- Se eu continuasse lá, ia parar no hospital. O lugar tinha um forno para 30 pessoas. Um banheiro para todo mundo. Os outros só não voltaram porque não tinham dinheiro. Para mim, cana nunca mais. É melhor sofrer em casa - disse Devanir.
Um documentário feito pela Comissão Pastoral da Terra, em Alagoas, revela drama semelhante na cidade de Joaquim Gomes, a 70 km de Maceió. Lançado em agosto do ano passado, "Tabuleiro de cana, xadrez de cativeiro" revela depoimentos de migrantes. Depois de trabalhar na colheita no Maranhão, eles seguem para Mato Grosso. Exibido no mês passado na Itália, na França e em Portugal, o filme revela a existência de agências de turismo de fachada, que atraem trabalhadores para Mato Grosso e para o Paraná. Elas forjam um pacote de turismo, que acaba em trabalho forçado nas usinas locais. De acordo com a CPT, cerca de três mil dos 20 mil moradores de Joaquim Gomes migram para Mato Grosso para trabalhar na cana.
- Muitos não voltam.
Acompanhei o caso de um que se tornou pedinte até conseguir dinheiro para voltar - disse Carlos Lima, um dos produtores do filme (Maiá Menezes).
Situação no Rio melhora, mas ainda preocupa
Nos outros estados, fiscais ainda flagram irregularidades no setor
A realidade do Norte Fluminense mostra o avanço da luta do Brasil contra o passado escravocrata da cultura da canadeaçúcar. A Delegacia Regional do Trabalho, que, em 2003, encontrou, em uma das ações, 491 trabalhadores em situação "análoga à escravidão" (em alojamentos precários e com carteiras de trabalho retidas pelos empregadores) em uma das 15 usinas da região, hoje atribui ao rigor da fiscalização a mudança de comportamento da maior parte dos usineiros.
- Não podemos relaxar. A fiscalização tem que ser permanente. Mas é fato que a realidade hoje é diferente da que encontramos em 2003 - afirma Márcio Guerra, coordenador de fiscalização do estado.
O quadro, no entanto, ainda preocupa: de 2003 até o ano passado, foram encontrados 10.300 trabalhadores sem carteira assinada nas fiscalizações feitas pela DRT fluminense no Norte do estado.
A coordenadora do Comitê de Combate ao Trabalho Escravo e Degradante do Norte e Noroeste Fluminense, Carolina Abreu, estima que haja três mil migrantes na região, no período de safra. Ao todo, 12 mil trabalhadores participam do corte, no período de alta safra.
- O maior problema que temos é o de migrantes. Depois que acaba a safra, eles ficam nas favelas. Temos um índice alto de alcoolismo entre os cortadores - disse Carolina.
O procurador do Trabalho Gustavo Ricardo Rizzo concorda com o efeito pedagógico das fiscalizações. Ele afirma que o comportamento dos usineiros mudou depois das punições:
- A nossa intenção não é quebrar as empresas. É educar e fazer com que não sejam reincidentes - afirma o procurador, que pediu à Justiça multa de R$ 5 milhões à usina que foi flagrada com os 1.003 trabalhadores em situação degradante, em 2005.
Fiscais ainda encontram situações degradantes
Em Goiás, o fantasma do passado ainda incomoda: no dia 15 de fevereiro, 49 trabalhadores foram encontrados vivendo em situação degradante, no município de São Luís do Norte, a 246 quilômetros de Goiânia, em uma fazenda de colheita de cana-de-açucar. Os fiscais da DRT de Goiás encontraram trabalhadores dormindo no chão, em local sujo e mal-cheiroso.
Uma das maiores apreensões do país, em agosto de 2005, fiscais e agentes da Polícia Federal encontraram 2.400 trabalhadores em situação semelhante, em uma usina, no Espírito Santo. Ainda em grau de recurso, foi aplicado R$ 1 milhão em multas.
Em Pernambuco, o fim dos moradores de engenho
Sem emprego e sem estudo, lavradores migram para periferia da capital
Letícia Lins Enviada especial
Ernande Aleixo da Silva, 43 anos, 34 de enxada, é de uma espécie em extinção: a de morador de engenho. Nascido e criado no engenho Laranjeiras, onde mantém com dificuldade um pequeno sítio que ajuda na sobrevivência da família, ele é o último residente da propriedade, na qual lembrase de ter tido mais de 150 vizinhos.
O caso do lavrador de Cortês, a 112 quilômetros da capital, mostra bem o que vem ocorrendo na Zona da Mata, onde se concentra a agroindústria açucareira do estado: com a expansão dos plantios de cana, é cada vez maior o número de canavieiros residindo na periferia das cidades do interior, as chamadas "pontas de rua".
A grande maioria desses lavradores expulsos é analfabeta e encontra dificuldade de relocação no mercado de trabalho. Resta-lhes viver em situação de indigência. Cícero José da Silva, 55 anos, cortador de cana desde os 12, foi morador de engenho, chegou a ter carteira assinada por três vezes, mas desde a última safra nada conseguiu nos municípios vizinhos a Cortês. Atualmente reside em uma favela em Ribeirão, a 135 quilômetros da capital.
Semi-analfabeto, vive agora de catar lixo.
Sobrevive de meio salário-mínimo mensal, que consegue vendendo material para reciclagem, como garrafas e latinhas.
A Zona da Mata chegou a ter 250 mil pessoas trabalhando no corte de cana nos períodos de safra, quando Pernambuco tinha 43 indústrias de moagem, entre usinas e destilarias. Hoje elas não passam de 25. De acordo com a Federação dos Trabalhadores de Agricultura de Pernambuco (Fetape), o número de lavradores no corte de cana hoje soma 120 mil, durante a safra. Passado o período da moagem, os safristas são despedidos. Restam 30 mil homens no campo, normalmente aqueles com vínculo permanente com engenhos ou usinas.
Gente como José Caetano da Silva, de 40 anos, que começou a "cambitar" (juntar cana para colocar no caminhão) aos 9 e hoje chega a cortar oito toneladas da planta por dia. Com carteira assinada, ele é morador do engenho Riachão, em Cortês, e a cada dia vê sua vizinhança minguar. Segundo o secretário do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cortês, José Américo da Silva, as famílias residentes somavam cerca de 80 há alguns anos. Agora são apenas oito.
Para quem ficou, a situação não está fácil. Morando em casa de taipa quase caindo, sem luz nem água encanada, Ernande reluta em sair do campo. Mora no alto de um morro com a mulher e quatro filhos. A cana cerca o terreno, mas ele tem um roçado ao lado da casa, onde fruteiras para o consumo doméstico e banana para vender. Também cultivou cana, mas está em litígio com a usina, que, segundo ele, vem lhe oferecendo indenizações pequenas para que ele deixe a área. Ernande não quer sair. Prefere garantir ali o alimento dos filhos. Ele diz precisar de complementos para alimentar a família.
Especialistas temem seqüelas ambientais
Etanol é um combustível limpo, mas o possível aumento de queimadas e da monocultura preocupa estudiosos
Soraya Aggege e Maiá Menezes
Considerado um combustível limpo, o etanol ainda enfrenta restrições de ambientalistas quanto a seu processo de produção.
Estudos internacionais, como da WWF (Word Wildlife Fund), revelam os impactos ambientais dos canaviais, em especial com as queimadas, na época da colheita da cana.
O professor de engenharia e pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Francisco Alves avalia que o ciclo do etanol criará um cenário assustador entre 2007, 2013 e 2025, no mesmo ritmo dos novos investimentos.
- Será uma expansão grande da monocultura. Os canaviais aumentarão nas regiões onde já estão, como São Paulo, Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso do Sul. No segundo momento, para consolidar a previsão de produzirem 104,5 bilhões de litros de álcool, a cana ocupará as áreas onde está a soja, o Cerrado e a Amazônia, em 17 milhões de hectares. A soja, por sua vez, expulsará o gado, que invadirá as áreas de florestas. Sai a madeira, entra o gado, e depois vem a agricultura. No Brasil, é a forma como a terra é barateada e como as áreas de florestas vão se extinguindo - afirma Alves.
Um dos estudos de Alves mostra aspectos negativos da cana. Os principais são: o fim da diversidade de espécies, a alta taxa de resíduos como o vinhoto, cujos efeitos são lesivos para os rios, o fim das reservas legais de matas e mananciais e os efeitos da queima para a saúde humana, além da fuligem no ar, que suja as cidades.
- Para cada litro de álcool produzido são gerados 12 litros de vinhoto, muito rico em material orgânico e que acaba sendo destinado à fertilização da planta. Mas o fato é que esse vinhoto é excessivo e já tem destruído lençol freático e aqüíferos. Faltam pesquisas que mostrem a quantidade suportável de lançamento do vinhoto - afirma.
Coordenador de Direito à Alimentação da ActionAid no Brasil, Celso Marcatto ressalta a importância no incremento de produção de um combustível que emita menos gases poluentes na atmosfera - principal atrativo do etanol no mercado internacional, de acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Mas afirma que é preciso evitar que o país se transforme numa concentração de monoculturas (soja, eucalipto e cana-deaçúcar), chamadas de desertos verdes. Ele se preocupa com a tendência de que a produção de etanol acabe removendo agriculturas tradicionais do país.
- A monocultura, por si só, já é destrutiva. A tendência é que o crescimento se dê no que eles (usineiros) chamam de pastagem degradada. Para os ambientalistas, no entanto, essa é uma área de regeneração de floresta. O etanol, que é limpo em sua emissão, precisa ser limpo também em sua produção - disse Marcatto.
Queimadas põem em risco saúde de moradores
Pesquisa mostra incidência de doenças respiratórias
As queimadas são as principais reclamações dos moradores urbanos próximos aos canaviais, por causa da fuligem dos efeitos pulmonares. Com mecanização, o problema minimizado, mas os pesquisadores afirmam que a situação está muito distante da ideal temem um retrocesso maior com o "ciclo do etanol".
Uma pesquisa do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP, publicada em 2005, mostra que o aumento das concentrações de gases tóxicos na atmosfera afetará o meio ambiente tornará mais dramática a saúde da população que vive no entorno das regiões produtoras.
O pesquisador Fábio Silva Lopes comprovou uma incidência maior de doenças respiratórias em regiões de queimadas em culturas canavieiras.
De janeiro de 2000 a dezembro de 2004, a pesquisa verificou, em 645 municípios do estado, que foram realizadas mais de 22 mil internações ao ano por problemas respiratórios. Ao mesmo tempo foram detectados mais de três mil focos de queimadas ao ano no período. Os dados referem-se a 645 municípios do Estado.
Queimadas esterilizam o solo, diz especialista
O presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, Eneas Salati, explica que a queimada destrói matéria orgânica sob solo, alternando a estrutura química da terra.
- Na parte superficial, o solo praticamente se esteriliza. O problema se torna ainda mais sério quando o fogo escapa do canavial e pega áreas de floresta. Em São Paulo, elas não existem mais. E quando acaba a floresta, aniquila-se também mamíferos e insetos que vivem ali - disse Eneas Salati, que vê ainda outro efeito destrutivo nas queimadas:
- Está se jogando energia fora. Existem pesquisas avançadas que mostram que a celulose da cana pode ser transformada em etanol.
Uma das fundadoras do Fórum Social Mundial e autora de cadernos de formação sobre Organização Mundial do Comércio (OMC), Maria Luisa Mendonça lembra que, entre julho e agosto de 2005, foi decretado estado de alerta nas regiões dos canaviais paulistas porque as queimadas reduziram a umidade relativa do (13% e 15%). Foram 287 focos de queimada. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) defendeu uma "moratória da queima". Mas a situação não foi contornada, afirma. Para 2007 o impacto pode ser maior, em São Paulo entre julho agosto principalmente, por causa do aumento da produção. As usinas alegam que não podem fazer reduções radicais nas queimadas porque teriam que mecanizar mais a lavoura cortar mão-de-obra.(Soraya Aggege e Maiá Menezes)
Unica destaca benefícios para meio ambiente
Usineiros negam problemas ambientais, sociais e trabalhistas e dizem que setor tem 92% de contratação formal
Soraya Aggege
A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) refuta as informações sobre possíveis danos ambientais, sociais e trabalhistas do aumento da produção de etanol no país e considera as críticas normais, em função do aumento de sua produção.
Segundo a entidade, os problemas relativos à expansão do etanol são equivalentes aos de qualquer cultura em expansão.
"No caso do álcool combustível, é o mais benéfico ao meio ambiente em todos os pontos de vista, principalmente em relação às demais fontes de energia da atual matriz energética brasileira, que tem como fonte principal o petróleo, combustível fóssil e altamente poluente", afirmou a Unica, por escrito, por meio de sua assessoria.
Para a entidade, do ponto de vista agronômico, a cana no Brasil é uma cultura que apresenta um dos mais baixos índices de erosão de solo, contaminação de água e de uso de agrotóxicos.
"Além disso, a cana é uma atividade significativa no uso de mão-de-obra para os padrões brasileiros na área agrícola: os dados do PNAD - Pesquisa Nacional por amostragem de domicílios (IBGE) - indicam que salários pagos pelo setor são os mais altos entre todas as outras culturas, à exceção da soja. No país, menos de 46% de todos os empregos são formais (carteira assinada e amparo da lei). Já o setor canavieiro paulista tem um índice de contratação formal de mais de 92% em todos os níveis da cadeia", diz a Unica.
Sobre o vinhoto, a entidade afirma que o resíduo é usado há anos na fertirrigação, tornandose fertilizante da cana, sem falar dos efeitos no lençol freático. A entidade argumenta ainda que a monocultura se caracteriza por grandes extensões de território e não é causadora específica de aquecimento global. "Aliás, o próprio conceito de monocultura nos dias de hoje é utilizado de maneira equivocada. O Brasil possui grandes propriedades agrícolas de diversas atividades, como cana, soja, milho, flores, frutas, etc, em todas as regiões do país, o que não caracteriza a monocultura".
Fim de queimadas causaria desemprego, diz entidade
A União reconhece os efeitos negativos das queimadas, mas argumenta que não pode eliminar a prática de forma abrupta porque grande contingente de trabalhadores rurais é empregado no corte manual (em 2006, cerca de 70% do corte de cana no Brasil foi manual), e uma migração muito rápida para o corte mecanizado criaria desemprego.
Sobre as más condições dos trabalhadores, a Unica alega que, pela livre negociação, diversos benefícios foram assegurados aos trabalhadores nas últimas décadas, dentre os quais se destacam: assistência médica, odontológica, ótica e farmacêutica, seguro de vida, refeição, cestas básicas, vales para refeições e transporte.
BNDES exige zelo ambiental para emprestar
'Como o setor é de ponta, responsabilidade é maior ainda'
Os número do BNDES refletem o crescimento do setor: o valor em financiamentos feitos pelo banco dobrou no ano passado em relação a 2005 (de R$ 1,1 bilhão para R$ 2 bilhões). E, no que depender do financiador, só recebem sinal verde para a injeção de recursos as usinas comprometidas com cuidados ambientais e sociais. É essa a demanda dos investidores internacionais do etanol, diz o chefe do Departamento de Meio Ambiente do banco, Eduardo Bandeira de Mello.
- A preocupação internacional é em substituir fontes fósseis e reduzir emissões.
Eles estão querendo resolver um problema. Criar outro não vale a pena. - afirma ele.
Os critérios de respeito ao meio ambiente, cruciais para a concessão dos empréstimos, são comuns a todos os setores, explica Bandeira de Mello:
- Mas como o setor sucro-alcooleiro é de ponta, nossa responsabilidade é maior ainda.
Entre as exigências estão as licenças ambientais e a manutenção das áreas de reserva próximas às usinas.
Atualmente há 64 carteiras de investimento no setor em análise pelo banco. Elas devem geram R$ 12,2 bilhões em investimentos e R$ 7,7 milhões em financiamentos. No Brasil, com ou sem recursos do BNDES, estão sendo construídas cem novas usinas.
Eduardo Bandeira de Mello afirma, ainda, que a degradação ambiental causada pela colheita da cana tende a diminuir com a mecanização.
O presidente da Federação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, Eneas Salati, concorda. Mas ressalta que isso causará demissões em massa para os trabalhadores do setor, hoje submetidos ao método de pagamento por tonelada de cana cortada.
(M.M. e S.A.)
Embaixador nega trabalho escravo
O jornal inglês "The Guardian" publicou ontem carta do embaixador brasileiro em Londres, José Maurício Bustani, em resposta à reportagem com denúncias de trabalho escravo na produção de etanol no Brasil. Bustani afirma que os cortadores de cana são livres e podem ser sindicalizados, e que o governo está tomando medidas para protegê-los.
Segundo o embaixador, em São Paulo, 90% dos 400 mil trabalhadores do setor estão integrados à economia formal. Ele diz ainda que as usinas de cana mantêm escolas, creches e postos médicos.
O Globo, 18/03/2007, O País, p. 8-11
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