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De olho no clima

O Globo, Economia, p. 19
Autor: SALATI, Enéas
07 de Abr de 2007

De olho no clima
Empresas como Petrobras e CPFL consultam meteorologistas para traçar estratégias

Liana Melo

Antes que a deterioração do meio ambiente, confirmada no mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) divulgado, ontem, em Bruxelas, torne-se um entrave para a expansão dos negócios, indústria e varejo vêm recorrendo à ajuda dos meteorologistas. Na tentativa de evitar que o aquecimento global encolha os lucros, as empresas vêm contratando cada vez mais serviços de diagnósticos climáticos para definir suas estratégias. A receita vale tanto para grandes companhias como a Petrobras e a CPFL quanto para construtoras e redes de varejo.

A Petrobras, por exemplo, está preocupada com a disponibilidade de recursos hídricos nas suas refinarias, grandes consumidoras de energia elétrica. Para responder à pergunta sobre a disponibilidade de água nos reservatórios brasileiros a curto (cinco anos), médio (dez anos) e longo (20 anos) prazos, a empresa contratou a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS). O objetivo é evitar que uma eventual falta de água comprometa os negócios.

- Se a disponibilidade de água for afetada, poderemos ter problemas com a matriz energética brasileira - admite Cristiano Pires de Campos, gerente de Avaliação e Monitoramento Ambiental da Petrobras.

De acordo com os cientistas, Um grau Celsius a mais na temperatura pode transformar a floresta em cerrado e este, por sua vez, em semi-árido .

Construtora deu férias coletivas
A CPFL, dona de 13% do mercado de distribuição de energia elétrica no país, quer avaliar a evolução das chuvas e, para isso, precisa acompanhar o nível das bacias hidrográficas. Outra dúvida é quanto ao impacto do aumento de temperatura no consumo de energia pelas famílias. Até agora, o aumento da demanda vinha sendo explicado pela recuperação da renda do brasileiro.

O diretor de Planejamento e Comercialização de Energia da CPFL, Marco Antonio de Oliveira, no entanto, não descarta a possibilidade de parte dessa recuperação ser também um reflexo do aumento da temperatura, com uso maior de eletrodomésticos, como ventiladores, aparelhos de ar-condicionado, refrigeradores.

A Aterpa Construtora, de São Paulo, já faz uso desse tipo de consultoria de clima desde 2005. E sabe que informações são valiosas no seu negócio. Se o clima estiver úmido demais, por exemplo, compactar cimento e brita leva muito mais tempo, o que é sinônimo de prejuízo. Como todos os diagnósticos de clima indicavam que o fenômeno El Nino seria predominante a partir de novembro passado, a empresa decidiu dar férias coletivas até março último. Os canteiros de obras só foram reabertos este mês.

- Usamos o diagnóstico de mudança do clima como ferramenta para tomar a decisão estratégica de suspender as obras na Região Sudeste - disse Rafael Salazar, gerente de Contratos da empresa.

Planejamento para fabricante de sorvete
Quem também está preocupada com a mudança do clima é a Coenergy, de São Paulo, que é responsável pela distribuição de 150 megawatts mensais de energia.

Seus clientes são principalmente grandes empresas. Apesar de não chover há dois meses, os reservatórios das principais usinas hidrelétricas continuam abarrotados de água, o que vem permitindo certa tranqüilidade aos distribuidores. Ainda assim, a Coenergy vem usando a consultoria do grupo Climatempo para tomar suas decisões estratégicas.

- Apesar da aparente tranqüilidade, estamos preocupados com o futuro - admite Alexandre Brandstatter, diretor da Coenergy.

O Climatempo está fazendo simulações de longo prazo para detectar eventuais impactos provenientes da mudança climática nos reservatórios das empresas geradoras de energia.

- Com a instabilidade do clima, os serviços de meteorologia passaram a ser um insumo valioso para as empresas - comenta Carlos Magno, sócio do Climatempo, que dobrou o seu faturamento em 2006, principalmente graças a relatórios fornecidos para planejamento estratégico de indústrias.

Longos períodos de estiagem intercalados com chuvas intensas é o cenário que a Oggi Sorvete está usando para planejar sua estratégia de vendas até setembro. Como no verão deste ano choveu muito, as vendas despencaram. Escaldado com o que ocorreu na última estação, Rodrigo Mauad, diretor da empresa, está redimensionando sua produção para não haver encalhe na linha de montagem este ano.

'A natureza está cobrando sua dívida'

Corpo a Corpo Enéas Salati

Aos poucos, a gestão dos impactos ambientais está sendo incorporada aos modelos de negócios. A Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), do qual o engenheiro agrônomo Enéas Salati é diretor técnico, vem ajudando nessa mudança de postura.

O Globo: O senhor acha que o meio empresarial está convencido de que a mudança do clima é irreversível?

Enéas Salati: Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) vêm obrigando o empresariado nacional a criar mecanismos para se defender dos ataques da natureza.

É que a natureza está cobrando sua dívida. Hoje, não é mais possível desconsiderar a realidade apontada pelos cientistas: a de que há 90% de chances de as mudanças climáticas terem sido provocadas pelos homens.

Está virando moda nas empresas trabalhar com diagnóstico de mudança do clima?

Salati: É verdade. Muitas empresas estão preocupadas com a disponibilidade de recursos hídricos e com a variação da temperatura. Nós estamos fazendo diagnósticos para várias empresas, que estão preocupadas com a gestão dos impactos ambientais.

Quer dizer, então, que esses diagnósticos devem ser usados com mais parcimônia?

Salati: Exatamente isso. A única certeza absoluta que temos hoje é que o uso de combustíveis fósseis e carvão mineral está aumentando a concentração de gases do efeito estufa. Os diagnósticos são feitos a partir de uma média. Não dá para exigir que os empresários tomem decisões com base única e exclusivamente nesses diagnósticos. Eles são apenas mais uma ferramenta e devem ser incorporados à gestão dos negócios.
(Liana Melo)

O Globo, 07/04/2007, Economia, p. 19

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