O Globo, Economia, p. 34
14 de Dez de 2008
De olho na crise, Cepal põe Caribe e Colômbia em destaque
Feira de Inovação Social já avaliou 4.400 projetos desde a primeira edição. Brasil é o país mais bem-sucedido
Luiz Antônio Novaes*
MEDELLÍN e BOGOTÁ. Foi com medo da crise e do corte de verbas que a Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal) realizou a sua Feira de Inovação Social, há duas semanas, no campus da Universidade de Antioquia, em Medellín, na Colômbia. Em quarta edição, o evento, financiado pela Fundação norte-americana W. K. Kellogg, é uma das mais importantes vitrines para que uma organização não-governamental (ONG) se torne visível e se qualifique no universo hiperpovoado de entidades voltadas para o trabalho social no continente.
O aval da Cepal, organismo da ONU que congrega 33 países, criado há 60 anos no ambiente de reconstrução econômica do pós-guerra, é um fator que praticamente assegura a uma ONG a transformação de seu projeto em política pública pelos governos da região. Desde a sua primeira versão, em 2005, já passaram pelo crivo dos organizadores da Feira de Inovação Social 4.400 projetos (60% deles provenientes de ONGs), dos quais 70 se tornaram finalistas. Desses, só um, idealizado na Argentina, sucumbiu.
O Brasil, através do BNDES, tem a maior participação governamental - em especial nos projetos destinados à área da saúde. Isso contribuiu para que se tornasse, isoladamente, o país mais bem-sucedido na história da feira. Em Medellín, entre os 12 finalistas, o Brasil classificou três projetos (de 880 inscritos): um site para índios (BA), um programa de capacitação tecnológica de jovens em situação de risco (PE) e um sistema de produção de acessórios com sobras de couro implantado por uma indústria de Novo Hamburgo (RS).
Nenhuma dessas inovações, no entanto, conseguiu chegar ao pódio: o ano de 2008 foi do Caribe, logo em sua primeira participação. Belize venceu com um projeto de conscientização ambiental, organizado em torno de um campeonato de futebol; e Santa Lúcia obteve menção honrosa por uma iniciativa que promove a inserção social de deficientes visuais, prática, no dizer da Cepal, típica de países desenvolvidos.
Da campanha presidencial do ainda mais desenvolvido país do mundo, os EUA, veio outro sinal que deixou consultores apreensivos. O alerta foi dado pela Fundação Kellogg, que, da sua sede em Batlle Creek (Michigan), anunciou que vai reduzir os investimentos no Brasil e incentivar mais os projetos ligados a questões raciais do que os tradicionais programas contra a miséria. A era Obama, com seu viés multirracial, parece pedir licença para fazer sua entrada no território das ONGs.
Colômbia nos tempos de conciliação
O local de realização das Feiras de Inovação Social diz muito das diferentes fases do debate social na América Latina. A Cepal, fundada sob inspiração do desenvolvimentismo keynesiano, fez o primeiro encontro em 2005, em sua sede, no Chile - país-laboratório de experiências neoliberais no continente após o golpe que matou Salvador Allende.
Naquele ano, o vencedor foi um projeto haitiano, até hoje citado como um dos mais significativos. Adotado como política governamental, ele permitia a conservação do leite por processos químicos inovadores, no momento em que o Haiti, enfrentava freqüentes e longos cortes de energia elétrica e corria o risco de mergulhar na fome pela deterioração da comida. Em 2006, quando o Brasil conquistou o primeiro lugar, a reunião foi no México; a terceira rodada realizou-se em Porto Alegre, meca da esquerda mundial que se reunia em fóruns sociais para se contrapor ao encontro que os países ricos faziam - e continuam fazendo - em Davos, na Suíça.
A escolha da Colômbia, em 2008, marca o reconhecimento, pela Cepal, de programas sociais desenvolvidos pelo principal aliado dos EUA na região. No país em que a guerrilha, desgastada e isolada na selva amazônica, ainda seqüestra e se financia com o dinheiro do narcotráfico, o exemplo de boa política social vem de organismos do poder, do outro lado do espectro político. Na 4ª Feira de Inovação Social, a Cepal concedeu o segundo prêmio aos colombianos, por um projeto da Câmara de Comércio de Bogotá que treina jovens para atuar como conciliadores sociais em escolas públicas. Mas ainda é graças ao teleférico implantado na favela de Santo Domingo, em Medellín, que o país continua sendo uma referência mundial no combate à violência e à miséria urbana. De área conflagrada e dominada até 1993 pelo impiedoso (e popular) narcotraficante Pablo Escobar, que ali recrutava jovens pistoleiros (sicários) para exterminar policiais, Santo Domingo é hoje local de peregrinação de turistas.
De digital em punho, é possível percorrer as ruelas aparentemente apaziguadas pelo serviço social que chegou junto com o inovador meio de transporte. Deixando para trás um tempo em que o nome Colômbia era sinônimo exclusivo de perigo, e a chamada "colombianização" era temida como o que de pior poderia acontecer a qualquer um dos países vizinhos, o Brasil de Lula e o Rio de Sérgio Cabral já prometeram importar o modelo de Medellín, para adotá-lo no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
(*) O jornalista viajou a convite da Cepal
Cidade de Escobar, Uribe, Botero...
Do pintor ao presidente, filhos ilustres deixaram Medellín
No quase impermeável mundo das elites colombianas, a Medellín de Pablo Emílio Escobar Gaviria é também a cidade de Álvaro Uribe Vélez, o presidente que mais colheu os resultados da luta contra o narcotráfico e, por isso, um de seus mandatários mais ameaçados e protegidos. Outro filho de Medellín, ou melhor, do seu submundo, é o quase performático romancista Fernando Vallejo - autor de "A virgem dos sicários", uma narrativa cruel dos anos de ódio em sua cidade natal.
Também nascido e criado em Medellín é o pintor e escultor Fernando Botero. Seu quadro da cena de Pablo Escobar - gordinho, é claro - morrendo crivado de balas está escondido no fundo de uma das mais escuras salas do terceiro andar do Museu Nacional de Antioquia, onde é exposta toda a sua doação à cidade.
À exceção de Escobar, enterrado há 15 anos em Medellín, os demais deixaram a cidade e vivem fora até hoje: Uribe, no palácio presidencial, numa Bogotá que revista com detectores de metais até quem caminha por seu centro histórico; Botero, entre Paris, Nova York e Bogotá, como o artista plástico contemporâneo mais valorizado no mercado; e Vallejo, na Cidade do México, na trilha do maior de todos os colombianos universais, o escritor Gabriel García Márquez, criador do coronel Aureliano Buendía, de "Cem anos de solidão".
Ironicamente, esse personagem foi inspirado num caudilho liberal de uma das freqüentes guerras civis que, entre uma tentativa e outra de conciliação, o país enfrenta há quase 200 anos: o general Rafael Uribe Uribe (sic). (Luiz Antônio Novaes, enviado especial)
O Globo, 14/12/2008, Economia, p. 34
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