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Darwin nao reconheceria

Veja, Ambiente, p.83
20 de Out de 2004

Darwin não reconheceria
O ecossistema de Galápagos está sendo prejudicado pelo hábito chinês de comer barbatanas de tubarão
A China é o maior consumidor mundial de ingredientes provenientes de espécies selvagens. O consumo de ossos de tigre, pó de chifre de rinoceronte e bexiga de urso ajudou a dizimar as populações desses animais nas matas do Sudeste Asiático. Agora, os hábitos alimentares dos chineses estão ameaçando um dos maiores paraísos naturais do mundo, o Arquipélago de Galápagos, no Equador. Os pescadores desse conjunto de ilhas do Oceano Pacífico – onde Charles Darwin coletou as evidências para desenvolver a teoria da evolução, no século XIX – vendem ao mercado chinês barbatanas de tubarão por 60 dólares o quilo. A sopa feita com o produto é considerada um poderoso afrodisíaco e é servida em casamentos tradicionais na China. Uma porção individual da especialidade chega a custar 100 dólares em restaurantes da Ásia. O crescimento econômico da China nos últimos anos fez a demanda de barbatana aumentar em 5% ao ano. Em Galápagos, um dos poucos lugares do mundo que concentram grandes cardumes de doze espécies do predador marinho, a pesca ilegal de tubarão cresceu exponencialmente. Em 1996, foram apreendidas 2.600 barbatanas. No ano passado, esse número subiu para 5.000. E só em janeiro deste ano foram confiscadas 2.200 peças. Os instrutores locais que levam turistas para mergulhar entre tubarões-baleia e tubarões-martelo já perceberam uma redução no tamanho dos cardumes desses animais.
Calcula-se que sejam mortos por ano 100 milhões de tubarões no mundo, a maior parte para atender aos mercados chinês e japonês de barbatanas. Pelo porto de Hong Kong passam 20.000 toneladas anuais do produto. Na semana passada, a ONU incluiu o grande tubarão-branco na lista de espécies que podem entrar em extinção caso seu comércio não seja controlado. Não há evidências científicas de que nadadeiras de tubarão influenciem o problema de potência sexual. Essa é uma crença difundida pela medicina tradicional da China, que atribui a comidas exóticas a cura de doenças tão variadas quanto câncer, asma e artrite. Mais de 1.500 espécies de animais são consideradas farmácias ambulantes. E são inúmeras as especialidades que supostamente têm efeito afrodisíaco. Os chineses pagam caro pelo que acreditam ser viagras naturais, como chifre de búfalo selvagem, sangue fresco de cobra, patas de tartaruga marinha, pênis de tigre, olhos de primata e carne de gato selvagem. A demanda por afrodisíacos faz com que 20 milhões de cavalos-marinhos secos sejam consumidos anualmente na China. Galápagos é a nova vítima da esquisitice gastronômica. Além dos tubarões, os asiáticos compram, por ano, 4 milhões de pepinos-do-mar retirados do arquipélago. Sim, eles também são ótimos contra a impotência, diz a crença chinesa.

Veja, 20/10/2004, p. 83

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