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Curso de ecologia amazônica reúne em Anavilhanas pesquisadores do Brasil e do exterior

ICMBio - www.icmbio.gov.br
Autor: Carla Lisboa
10 de ago de 2009

Estação Ecológica desde 1981, o arquipélago de Anavilhanas, no Amazonas, mudou de categoria no ano passado. Virou parque nacional. Mas nem por isso perdeu o status de laboratório a céu aberto. No dia 14, a unidade gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) recebe estudantes de pós-graduação de todo o País e do exterior que participam do curso de Ecologia da Floresta Amazônica (EFA), promovido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pelo Smithsonian Tropical Research Institute (STRI), dos Estados Unidos.

Este é o 18o ano consecutivo em que esse tipo de evento ocorre na unidade, confirmando a sua vocação para a pesquisa científica na área da biodiversidade. Participam do curso 20 estudantes de pós-graduação de 18 estados da federação e de 35 instituições de ensino superior, além de professores convidados de várias universidades. Eles já se encontram na região desde terça-feira (4), quando as aulas começaram, mas só desembarcam em Anavilhanas no dia 14. As aulas em campo, que terminam no dia 3 de setembro, vão permitir aos pesquisadores a coleta de dados, a elaboração de miniprojetos de pesquisa diários e, no final, a publicação de seus trabalhos e o acúmulo de novas informações sobre a unidade.

O coordenador do curso e professor do Inpa, José Luiz Camargo, disse que todos os anos, durante esse curso, há uma produção de, no mínimo, 12 trabalhos em grupo e mais 20 individuais. Assim, a cada ano há uma produção de 32 trabalhos com estudos de ecologia desenvolvidos em terras inundáveis e em terras firmes da amazônia. Todo esse material está disponível na página eletrônica do Inpa (www.inpa.gov.br).

PECULIARIDADE - Local ideal para o desenvolvimento de estudos sobre biodiversidade em áreas de terras inundáveis, Anavilhanas é a única área perto de Manaus preservada e em condições de oferecer aos estudantes o treinamento de que precisam. Contudo, o principal motivo que torna o arquipélago um espaço modelo para o desenvolvimento de pesquisas é o fato de ele reunir em um único trecho as principais características de dois sistemas hídricos que caracterizam toda a Amazônia.

O lugar é peculiar. De um lado do rio, Anavilhanas sofre os efeitos do rio Branco que vem de Roraima e desemboca no rio Negro, justamente nas proximidades do arquipélago, com suas águas barrentas, transportando sedimentos oriundos dos Andes - que está sob frequente erosão. Do outro lado, as ilhas recebem influência apenas das águas pretas, provenientes de igapós, consideradas mais pobres em nutrientes.

O curioso é que, em apenas um trecho da Amazônia e durante um período do ano, o rio Branco tinge o rio Negro com suas águas barrentas e proporciona a reunião dos atributos dos dois diferentes sistemas que constituem toda a Bacia Amazônica e determinam as características da fauna e da flora da região. Trata-se dos distintos, complexos e diversos sistemas de águas brancas e de águas pretas. É nesse ambiente único - considerado um laboratório a céu aberto - que os pesquisadores têm a possibilidade de conferir e estudar as singularidades de um conjunto de elementos que se mesclam para compor uma das regiões mais cobiçadas do mundo.

José Luiz Camargo afirma que as diferenças entre um lado e outro de Anavilhanas são notáveis. Nas comparações realizadas por meio dos estudos desenvolvidos durante o curso, evidenciaram-se características que demonstram ao mesmo tempo a força e a fragilidade da floresta. "O lado que recebe os sedimentos (rio Branco) é mais fértil, recebe mais nutrientes, e apresenta uma biodiversidade riquíssima. Esse ambiente realça a fragilidade do outro lado, que recebe influência somente das águas pretas. Isso faz com que a fauna e a flora se comportem diferentemente", explica o professor Camargo.

Anavilhanas é um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo e parte das 400 ilhas que formam os 350.018 hectares do Parna de Anavilhanas passa um período do ano inundada. As regiões inundáveis, são chamadas áreas de várzeas, banhadas pelas águas brancas, e de igapós, por águas pretas. Os estudos nas várzeas são também realizados na Ilha de Marchantaria.

COMITÊ CIENTÍFICO - Camargo faz parte do Comitê Científico de Anavilhanas e, segundo ele, o arquipélago deve servir para outras pesquisas e outros cursos podem ser ministrados na região. Para isso, basta que o interessando busque o contato com a equipe do Instituto Chico Mendes que administra a unidade.

O analista ambiental do ICMBio no Parna, Bruno Marchena, garante que o EFA traz muitas vantagens para a unidade e para os analistas que atuam no parque. "O que mais ajuda é, em primeiro lugar, a aproximação da comunidade científica da unidade de conservação. Em segundo, é que os alunos coletam dados e acumulam informações sobre o parque. Isso vai-nos dando várias ideias e análises interessantes para a gestão", disse.

Dividido em dois módulos, aquático e terrestre, o curso é ministrado também na Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) do Projeto Dinâmicas Biológicas de Fragmentos Florestais (PDBFF). Trata-se de uma unidade de conservação situada em área de terra firme (locais que não são inundados) a cerca de 80 quilômetros a norte de Manaus. O Inpa executa esse curso na Arie há 30 anos.

EXTINÇÃO - De acordo com Camargo, os estudos na Arie revelaram o fenômeno da fragmentação da floresta provocada pelo desmatamento. Além do colapso da biomassa, as pesquisas e os monitoramentos executados durante o curso constataram que a fragmentação levou 600 espécies de aves e 1.300 de árvores à extinção.

A Arie é uma das menores unidades de conservação da Amazônia e uma das conhecidas cientificamente. Camargo diz que a modificação provocada pela fragmentação da floresta não é uma imagem notória. "Sabemos disso por causa dos monitoramentos que fazemos nos sistemas de árvores, aves de sub-bosque, com mamíferos, macacos, borboletas, em seus vários subgrupos. A evidente modificação da estrutura da floresta faz com que ela perca a sua estrutura original e isso provoca a extinção dos bichos", afirma.

Segundo ele, por meio das pesquisas desenvolvidas ou até mesmo iniciadas no EFA já se tem um banco de dados e um quadro real do processo de mudança climática, da perda da biomassa, da situação dos fragmentos remanescentes, dentre outros aspectos. "Nesses fragmentos de floresta há modificações no ambiente por causa do desflorestamento. Uma coisa que acontece no interior do fragmento de floresta que permaneceu intacto é que as árvores grandes morrem e a floresta secundária passa a subsistir. As árvores pequenas ficam como pioneiras, que não têm diversidade e provoca o colapso da biomassa", explica o professor.

A Amazônia abrange nove estados brasileiros e nove países da América do Sul e é uma das poucas áreas do planeta permanecem inundadas de 7 a 15 metros acima do nível do mar da região durante cerca de seis meses por ano. Esse fenômeno só acontece no sudoeste da Ásia, no oeste da África e ao longo dos rios da Amazônia. De acordo com estudos, a amplitude das inundações nas áreas inundáveis da Amazônia varia de 10 a 15 m acima do nível do mar e permanece de 50 a 270 dias todos os anos. A área total da planície inundável da Amazônia é de 1,350.000 km².

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