O Globo, Ciência, p. 35
31 de Out de 2008
Culpa do homem
Estudo diz não haver mais dúvidas sobre papel da ação humana nos pólos
Um estudo realizado por pesquisadores de Reino Unido, Japão e Estados Unidos comprovou, pela primeira vez, que a ação do homem - como a queima de combustíveis fósseis e a emissão de gases do efeito estufa por indústrias e queimadas - é, de fato, a responsável pelo aumento das temperaturas no Ártico e na Antártica. Trabalhos anteriores haviam relatado elevações nas temperaturas nessas regiões nas últimas décadas, mas o fenômeno não podia ser atribuído à influência do homem por causa da escassez de observações e pela existência de variações climáticas naturais.
Além disso, recentes relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) concluíram que a Antártica era o único continente onde a influência do homem nas alterações do clima ainda precisava de comprovação.
Impacto no mar e na biodiversidade
O novo estudo, porém, mostra, através de quatro modelos de simulação, além de extensos registros da temperatura na superfície do continente, que essas elevações não são consistentes com as variações climáticas naturais e devem ser atribuídas diretamente à ação humana.
- Pudemos, pela primeira vez, atribuir diretamente o aquecimento tanto no Ártico quanto na Antártica à influência humana - disse Nathan Gillett, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, um dos autores da pesquisa.
Os pesquisadores observaram que apenas os modelos que incluem as atividades humanas -- como a emissão de CO2 e clorofluorcarbonetos - são capazes de reproduzir as mudanças climáticas observadas tanto na Antártica quanto no Ártico.
Os resultados do trabalho mostram que a ação do homem já causou um significativo aquecimento nos pólos, as áreas mais sensíveis às mudanças climáticas, com impactos na biodiversidade, no equilíbrio das plataformas de gelo e no nível do mar.
- Esse é um trabalho de valor muito grande - declarou o pesquisador Alexey Karpechko, da Universidade de East Anglia, que também assina o estudo. - O aquecimento no Ártico já vem sido relatado há algum tempo, embora nunca formalmente atribuído às atividades humanas. No caso da Antártica, tal atribuição vinha sendo evitada pela falta de maiores dados.
Existem cerca de 100 estações de medição de temperatura no Ártico, contra apenas 20 na Antártica. Além do mais, mudanças na circulação atmosférica, causadas pela destruição da camada de ozônio, contrabalançaram o aquecimento na Antártica e tornaram a detecção ainda mais difícil.
De acordo com Karpechko, a iminente recuperação da camada de ozônio sobre a Antártica deve reforçar as conclusões do estudo.
O Ártico sofreu um forte aquecimento nos últimos anos, e sua cobertura de gelo recuou em 2007 em relação à menor extensão já registrada. Já na Antártica a tendência é menos clara.
Os cientistas estimam que o derretimento total do gelo da Antártica e da Groenlândia poderia fazer o nível global do mar subir cerca de sete metros. O IPCC estima uma subida de 18cm no nível do mar neste século, resultado atribuído a um novo padrão que também deve incluir mais secas, inundações, ondas de calor e tempestades.
- Precisamos ficar atentos às calotas polares - afirmou o pesquisador Andrew Monaghan, do Centro Nacional para Pesquisas Atmosféricas dos EUA, ressaltando que as novas descobertas desenham um quadro sombrio, se nada foi feito.
O elo climático com a Antártica
Os pólos são remotos mas influenciam o clima de todo o planeta, afetando as vidas de quem mora a milhares de quilômetros de distância. Eles são elementos essenciais do sistema de troca de calor que rege o clima planetário. O Ártico tem papel crucial na regulação do clima no Hemisfério Norte. A Antártica, na do Hemisfério Sul. Mesmo o tropical Brasil é influenciado pelo que acontece com o clima antártico. É no continente gelado que nascem as grandes massas frias. Aqui, elas chegam como frentes e têm impacto na intensidade e na freqüência das chuvas. Além de alterar a temperatura.
As correntes marinhas que se originam na Antártica influenciam o clima brasileiro, bem como o de toda a América do Sul. Essas correntes também têm papel fundamental na oferta de pescado.
As correntes frias são mais ricas em nutrientes. Da mesma forma, o Brasil pode influenciar a Antártica. Cinzas de queimadas na Amazônia já foram detectadas na Península Antártica por cientistas brasileiros.
O Globo, 31/10/2008, Ciência, p. 35
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