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Cuidado, é o tsunami trash!

OESP, Aliás, p. J6
Autor: FERGUSON, Niall
13 de ago de 2006

Cuidado, é o tsunami trash!
Historiador britânico analisa a praga das garrafas plásticas que se espalha nas águas do Tietê e nos oceanos do mundo

Niall Ferguson

Existe um poema maravilhosamente sinistro de Edgar Allan Poe, A Cidade no Mar, que descreve uma metrópole como Atlantis, perdida no fundo das "águas melancólicas" de um "mar sombrio." O mar nos tira de nossas cidades para suas praias nesta época do ano. De Cowes a Cancún, brincamos em suas ondas. Mas, neste verão europeu, não posso deixar de pensar nos versos de Poe como uma espécie de profecia:

"Olhai! A Morte edificou seu trono numa estranha cidade solitária por entre as sombras do longínquo Oeste Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores Foram todos buscar repouso eterno."

Por que me impressiona tanto a imagem de uma cidade submersa? Talvez porque ela simbolize a vingança iminente do mar sobre a humanidade, por quase um século de maus-tratos. Faz exatamente 90 anos que Leo Hendrik Baekeland inventou o material resultante de um polímero sintético - a baquelite - e assim inaugurou a era do plástico. Daquele momento em diante, uma nova forma de poluente entrou no mar.

Os resultados de um século de poluição pelo plástico estão claramente visíveis na costa de South Wales, o retiro de minha família no mês de agosto. Em certos trechos da praia, perto de Porthcawl, não se pode andar sem topar com uma garrafa "pet". Com freqüência, enquanto estou nadando, encontro embalagens plásticas vazias, prateadas como uma cavala, mas quadradas e mortas. Sacos flutuam como água-vivas espectrais. Ou, soprados para terra, espetam-se odiosamente no capim das dunas .

Com alguns voluntários locais, tento limpar esses refugos marítimos vivamente coloridos. Amaldiçôo no meu íntimo os responsáveis, enquanto trabalho. Moradores grosseiros. Turistas odiosos. Marinheiros insensatos. Não era assim na bela Ilha de Coll, onde passávamos as férias.

O problema da poluição costeira é onipresente. Praticamente toda a costa britânica está afetada, como atestou um documentário da BBC, Seawatch, na semana passada. Segundo a recente pesquisa da Marine Conservation Society, que monitora mais de 160 quilômetros do litoral britânico, houve um aumento de 90% na densidade de detritos em relação à década passada. Mais de um terço do lixo encontrado na última pesquisa consiste de fragmentos de plástico, embalagens de comida, tampas de garrafas e cotonetes.

E não é somente na Grã-Bretanha. A praga do plástico virou epidemia global. Segundo o Programa Ambiental das Nações Unidas, existem aproximadamente 46 mil peças de plástico flutuando em cada milha quadrada (cerca de 3,4 quilômetros quadrados) dos oceanos do mundo.

O problema é mais do que estético. Na semana passada, o jornal Los Angeles Times publicou uma reportagem chocante sobre o Atol Midway, que é o lugar mais isolado que o mundo tem a oferecer, situado a 4.500 quilômetros a oeste da Califórnia e 3.500 quilômetros a leste do Japão. Não vive quase ninguém ali, por isso o número de embalagens de comida jogadas no mar não poderia ser grande. No entanto, a devastação animal em Midway acontece porque os albatrozes inadvertidamente alimentam seus filhotes com fragmentos letais de plástico, recolhidos no que é conhecido como o Eastern Garbage Patch - uma ilha virtual de lixo, formada pelas correntes do Pacífico Norte. Quer dizer, um depósito de lixo no mar.

Os albatrozes não são as únicas vítimas. Tartarugas marinhas sofrem mortes lentas e dolorosas depois de engolir sacos plásticos. Um número incontável de peixes e mamíferos marinhos são mortos a cada ano por redes de pesca descartadas. Há custos humanos também. A cada ano, desde 1969, o consumo de peixe cresce 8%, mas (segundo a FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) cerca de 16% dos principais estoques de peixe do planeta têm sido dizimados, pois estes animais são fisgados num ritmo muito superior ao da sua capacidade de reprodução. E o que dizer da proliferação das algas tóxicas que têm assolado a costa italiana? Isso tem relação direta com os fertilizantes químicos que correm dos rios para o mar.

Ambientalistas costumam se preocupar mais com a terra e o ar. E menos com o mar. Denunciam a redução das florestas tropicais e o aquecimento da atmosfera, mas 70% da superfície planetária é feita de água, não de terra! O fato de estarmos substituindo bacalhau por garrafas de Coca-Cola merece mais atenção.

O que fazer? Em termos econômicos, a poluição dos oceanos é a tragédia final das pastagens comuns, segundo ecologistas como Garrett Hardin. E essa tragédia será tanto maior se os benefícios da exploração couberem a alguns indivíduos, enquanto os custos de exploração (o que os economistas gostam de chamar de "externalidades negativas") serão divididos por todos. Quando as pessoas jogam lixo no mar agem como o criador medieval que explorava em excesso a pastagem comum. O lixo é jogado sem nenhum custo adicional para o poluidor, da mesma forma que o gado do agricultor se alimentava de graça. Mas todos perdem se o mar virar uma cloaca. Ou se as pastagens comuns virarem um deserto.

Há duas soluções clássicas para esse tipo de problema. A primeira é a regulamentação por autoridade superior. No caso dos oceanos, esta solução já existe na forma da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, de 1994. O problema aqui, como em tantos outros documentos da ONU, é a falta de aplicação efetiva.

Que tal uma solução alternativa, a privatização? Na Inglaterra do início da era moderna, as terras comuns foram progressivamente "cercadas" - reclamadas e cercadas por proprietários rurais individuais. Em teoria, claro, algumas partes do mar já foram cercadas, no sentido de que países preservam direitos sobre águas territoriais e zonas de pesca. As águas costeiras britânicas se estendem até 12 milhas náuticas (cerca de 22 quilômetros) da praia; a zona de pesca exclusiva que reclamamos é de 200 milhas náuticas (cerca de 370 quilômetros). Se todas essas demandas fossem universalmente respeitadas, vastas áreas dos oceanos do mundo permaneceriam uma "água de ninguém". De qualquer modo, não está claro se governos nacionais são curadores eficazes de suas próprias águas, onde, em geral, ocorre a maior poluição marítima. E, é bom lembrar, são os governos nacionais que subsidiam a pesca predatória.

No futuro, um historiador poderá escrever algo assim: "Os homens da era dos hidrocarbonetos se ocupavam de extrair petróleo da terra e do fundo do mar. Boa parte do petróleo eles queimavam para aquecer suas casas, acionar seus veículos e eletrificar suas fábricas. Mas parte dele usavam para fazer plástico, uma substância que valorizavam pela sua incrível durabilidade. Lamentavelmente, os homens da era dos hidrocarbonetos empregavam esse produto derivado do petróleo, algo quase indestrutível, para fins efêmeros. Embalavam obsessivamente tudo que comiam e bebiam. O resultado foi que a cada refeição humana se gerava uma quantidade substancial de lixo na forma de recipientes sujos. Parte dos recipientes era queimada. Parte, enterrada em buracos imensos. Porém, uma quantidade considerável acabava no mar.

"Como em geral os plásticos flutuam, eles gradualmente foram cobrindo praias de todo o mundo. Enquanto as principais vítimas da poluição plástica eram aves, peixes e mamíferos marinhos, os homens da era dos hidrocarbonetos deram pouca atenção ao fenômeno. E foram poucos, muito poucos os que se lembraram dos versos sombrios de Edgar Allan Poe.

Niall Ferguson é escritor e professor de História na Universidade de Harvard

OESP, 13/08/2006, Aliás, p. J6

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