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Cubatão abraça causa pró-fauna e flora

FSP, Negócios, p. 26-27
18 de jul de 2004

Cubatão abraça causa pró-fauna e flora
Até a década de 80, cidade era considerada a mais poluída do país

Tatiana Diniz
Da reportagem local

Foco no ambiente. Depois da badalação em torno da responsabilidade social, engajar-se na proteção à natureza pode ser a próxima febre a contaminar os modelos de gestão empresarial no país.
Cumprir a lei não é mais a única questão. O interessante é ir além e abraçar causas como monitoramento da fauna e da flora da região em que se atua, reflorestamento de áreas devastadas ou educação ambiental da população local, apenas para citar alguns exemplos adotados hoje pelas grandes. As pequenas devem ser as próximas a aderir à tendência.
Exemplo da proposta, Cubatão (58 km a sudoeste de São Paulo) aderiu em massa à estratégia para, literalmente, limpar-se do estigma de cidade mais poluída do país. Até a década de 80, as indústrias da região lançavam no ar, diariamente, quase uma tonelada de poluentes, segundo diz a Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Mangues e rios recebiam outra quantidade sem cálculos oficiais. O ecossistema original foi arruinado; plantas e animais sumiram.
A devastação conduziu a cidade a um estado de emergência generalizado. No episódio mais famoso, todos os moradores da Vila Parisi, apelidada de Vale da Morte em 1983, tiveram de ser removidos devido ao alto risco de intoxicação a que estavam sujeitos.
O Vale da Morte foi a mola que impulsionou a união entre a prefeitura, as indústrias e a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Industrial) para desenvolverem o Projeto Cubatão, com o objetivo de controlar a poluição.
A volta do guará-vermelhoDuas décadas depois, a prefeitura diz que a cidade controlou 98% das fontes poluidoras. Cubatão adotou o guará-vermelho -pássaro freqüentador dos manguezais que havia sumido da paisagem- como símbolo municipal. E quer se converter em um modelo mundial de pólo empresarial ambientalmente responsável.
"A conscientização se multiplicou, e a qualidade do ar já é melhor do que a de São Paulo", diz o secretário de Meio Ambiente, coronel Eduardo Belo. O dado é confirmado por Jesuíno Romano, 56, gerente da divisão da qualidade do ar da Cetesb.
"Cabe na comparação das duas regiões metropolitanas. Mas a área da Vila Parisi, em Cubatão, continua sendo a que tem o pior ar do Estado", lembra Romano.
Vale ressaltar que, entre os motivos da consciência, estão multas altas a devastadores previstas na legislação municipal. "Querer recuperar é positivo, embora o ecossistema jamais volte a ser o que foi. Parar de destruir é obrigação, não bondade", enfatiza Dora Canhos, 50, gerente de projetos da associação sem fins lucrativos Cria (Centro de Referência de Informação Ambiental).
Mangue "recauchutado"Na Cosipa, gigante do setor de aço instalada em Cubatão, uma equipe de 12 pessoas se dedica a ações ambientais. Depois de conquistar a certificação ISO 14000, específica para o cumprimento de normas ambientais, a empresa monitora animais nativos e freqüentadores do mangue.
"Uma pesquisa descobriu cem ninhos de guarás-vermelhos aqui. Antes, a ave estava em risco de extinção", conta a estudante de biologia Beatriz Prol Otero, 22, cujo estágio na empresa é decorrente da guinada no modelo de gestão.
Na Copebrás, que produz ácidos, uma ação interna batizou todas as vias com nomes de animais nativos. A empresa diz já ter plantado 28 mil mudas de árvores num reflorestamento e afirma dar treinamentos a pequenos empresários sobre gestão ambiental.
Já a Carbocloro construiu um minizoológico e um aquário por onde passa a água que será devolvida ao rio Cubatão. A presença de peixes vivos assegura que ela não é poluída.
Pequenas Para o secretário do Meio Ambiente, estimular as pequenas e médias a aderir a causa é a próxima etapa. "Elas já cumprem a lei, mas queremos que também se interessem em ir além", comenta.
Com esse propósito, a cidade realizou, no mês passado, a primeira edição da Eco Week, evento direcionado às empresas menores. A RTA, que tem 12 funcionários e atua no ramo de destinação de resíduos industriais, foi uma das que estiveram presentes.
Consumidor final segue alheio à opção
Preocupação ainda não gera impacto nos negócios das pequenas
Da reportagem local

A idéia de que preocupação com natureza é tarefa para quem tem dinheiro "sobrando" ainda é um considerável empecilho à popularização da responsabilidade ambiental entre micro e pequenos empresários.

Some-se a isso o fato de que, enquanto para as grandes manter um sistema de gestão ambiental otimizado é fator determinante para negociações internacionais, o cliente final brasileiro ainda é pouco sensível ao assunto.

Na prática, produtos ambientalmente responsáveis ainda não se revelam mais atrativos aos olhos do comprador. "O pequeno empresário embarca nessa mais por consciência do que por qualquer outra coisa", analisa Estevão Braga, 28, coordenador de desenvolvimento de mercado e responsabilidade corporativa da Imaflora.

A empresa certifica marcas que utilizam madeira reflorestada e que comercializam produtos agrícolas cultivados sem agredir o ambiente. "Ao mesmo tempo que ainda não conseguem lucrar mais com o conceito, os empresários de menor porte desempenham o papel de formadores de opinião", completa Braga.

O designer André Marx, proprietário da marca homônima de móveis produzidos exclusivamente com madeira oriunda de manejo sustentável, escolheu a opção "ambientalmente correta" nos anos 90.

Em 1996, a movelaria foi a primeira microempresa a adquirir o selo da Imaflora no país, segundo ele conta. "Até hoje só atendi uma cliente que me procurou porque fazia questão de um móvel certificado, e era uma japonesa", afirma Marx. "O mercado brasileiro ainda não se importa com isso."

O designer desenvolveu, há alguns anos, um curso de manejo florestal sustentável aplicado à marcenaria. Para sua surpresa, o programa é solicitado por universidades, não por empresários. "Ainda não é uma prática do setor empresarial. A academia é quem mais se interessa", explica ele.

Mas é justamente a academia quem pode transferir conhecimentos para o mercado e mudar essa situação. Pelo menos na opinião de Rosana Filomena Vazoller, 40, professora de microbiologia ambiental da USP que dirige a OAK Educação Ambiental.

"Usamos a ciência para alavancar projetos socioambientais sob encomenda para empresas públicas e privadas", define ela. A maior procura? "Continua sendo das grandes", confirma.

Parcerias
Vazoller recomenda a microempresários parcerias com universidades para ter amparo técnico na hora de abraçar a responsabilidade ambiental.

"Diferentemente das causas sociais, em que o amor acaba ditando caminhos, projetos ambientais pedem um norte tecnológico. Um estudante de biologia levado como estagiário a uma empresa, por exemplo, pode dar colaborações valiosas", ensina a especialista.

Ela enfatiza que ações interessantes podem ser emplacadas sem gastos exorbitantes. Uma delas, bastante simples, é descobrir o conteúdo da Agenda 21 juntamente com os funcionários.

Iniciativas de preservação rendem prêmios

Da reportagem local

O lançamento de prêmios para gestão ambiental é um termômetro que aponta o quanto a temática está em alta no país.
No ano passado, foi criado o Benchmarking Ambiental Brasileiro, organizado pela empresa Mais Projetos e criado para premiar iniciativas corporativas de preservação e redução de impactos na natureza.
Em 2003, 15 marcas brasileiras entraram no ranking dos melhores projetos corporativos de gestão ambiental. Em 2004, o número subiu para 20, o que deve se repetir em 2005.
A premiação é anual, e empresas de qualquer porte podem inscrever seus projetos entre os meses de março e junho de cada ano, no site www.maisprojetos.com.br.
Os troféus da edição 2004 serão entregues no dia 17 de agosto, homenageando iniciativas como a da Faber-Castell, que usa madeira oriunda de manejo sustentável na fabricação de lápis, entre outras.
Já a Petrobras emplacou um concurso para projetos de proteção ambiental. O Programa Petrobras Ambiental adotou, em 2004, o tema Água - Corpos de Água Doce e Mar, Incluindo sua Biodiversidade.
De um total de 1.681 projetos inscritos 30 foram selecionados neste ano. A empresa destinará R$ 40 mil em investimentos para as propostas escolhidas. A previsão é que o concurso se repita a cada dois anos, com inscrições pelo site www.petrobras.com.br.
Na região de Cubatão, a Copebrás lançou, neste ano, um prêmio regional que foca nas iniciativas locais de proteção à natureza. Podem ser homenageadas empresas e personalidades com atuação relevante.
Os destaques são apontados por uma comissão da empresa, e não há processo de inscrição.
"Nossa meta é tornar a premiação anual e fazer com que ela sirva de estímulo para as pequenas empresas também", comenta o presidente, Nelson Pereira dos Reis, 62.

FSP, 18/07/2004, Negócios, p. 26-27

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