OESP, Economia, p. B10
04 de Jun de 2008
'Críticos do etanol têm dedos sujos de óleo'
Lula diz que petróleo e subsídios agrícolas causam alta dos alimentos
Lisandra Paraguassú,
"Vejo, com indignação, que muitos dos dedos apontados contra a energia limpa dos biocombustíveis estão sujos de óleo e carvão." Com essa frase, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou ontem, na abertura da Cúpula do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o "lobby poderoso" dos produtores de petróleo pela campanha mundial que ataca o etanol e responsabiliza os biocombustíveis pelo aumento dos preços dos alimentos. Lula chamou a campanha de "burla" e de "cortina de fumaça".
Muito aplaudido no final do discurso, o presidente também considerou "sem pé nem cabeça" a acusação de que "os canaviais estão invadindo a Amazônia". Depois de lembrar que toda a Região Norte tem apenas 21 mil hectares de cana, o equivalente a 0,3% da área total dos canaviais brasileiros, Lula disse que essas plantações estão a pelo menos 2 mil quilômetros de distância da Amazônia. E arrematou, com ironia: "A distância entre nossos canaviais e a Amazônia é a mesma que existe entre o Vaticano e o Kremlin".
Ao falar do preço dos alimentos, Lula fez um prólogo dramático sobre os "flagelos da desnutrição", propagandeou o fracassado Fome Zero do início do seu governo e disse que "a inflação dos alimentos não tem uma única explicação". Apontou seis causas para o problema: alta do preço do petróleo, mudanças cambiais, baixa nos estoques reguladores, mais pessoas comendo e - enfatizou - o "intolerável protecionismo" dos países ricos, o que mantém "práticas desleais na produção agrícola". Disse que "os subsídios criam dependência, desmantelam estruturas produtivas inteiras, geram fome e pobreza onde poderia haver prosperidade".
Lula chegou a fazer profissão de fé no "mercado livre" como instrumento para melhorar a produção agrícola dos países em desenvolvimento. Disse que, se esse "mercado livre" fosse dominante nos países mais pobres, "talvez não estivéssemos vivendo essa crise de alimentos hoje".
O presidente aproveitou a conferência da FAO para abrir claramente a sua diferença com o etanol americano, de milho - tratou-o como o colesterol ruim. "É evidente que o etanol do milho só consegue competir com o etanol de cana quando é anabolizado por subsídios e protegido por barreiras tarifárias", disse. "O etanol da cana gera 8,3 vezes mais energia renovável do que a energia fóssil empregada na sua produção. Já o etanol do milho gera apenas uma vez e meia a energia que consome. É por isso que há quem diga que o etanol é como o colesterol. Há o bom etanol e o mau etanol. O bom etanol ajuda a despoluir o planeta e é competitivo. O mau etanol depende das gorduras dos subsídios."
São os Estados Unidos que investem na produção do etanol de milho, desviando boa parte da produção alimentar para o combustível, aumentando o preço do grão. Até hoje, o governo americano tem evitado críticas a programas de biocombustíveis porque investe na área na esperança de reduzir a sua dependência do petróleo. Mas, ao mesmo tempo, o governo norte-americano recusa-se a comprar etanol brasileiro e mantém um programa apontado como bastante problemático.
Lula insistiu no potencial dos biocombustíveis para ajudar o desenvolvimento de países com problemas econômicos sérios. Afirmou que o etanol pode ser uma "revolução verde" para os países em desenvolvimento que têm "terra, sol e tecnologia de ponta".
Se não conseguiu apoio absoluto para as suas teses - os demais líderes que falaram na plenária se restringiram a pedir um debate menos apaixonado e mais estudos -, o programa brasileiro teve uma vitória: o documento da FAO a ser distribuído para os chefes de Estado afirma que só o etanol brasileiro tem se mostrado competitivo quando comparado com outras fontes de energia.
"O aumento do preço do petróleo e do gás tem tornado a bioenergia mais competitiva para todas as aplicações - energia, calor e transporte. No entanto, de todos os biocombustíveis líquidos, só o etanol brasileiro à base de cana-de-açúcar tem sido consistentemente competitivo nos últimos anos, sem necessidade de subsídios contínuos", diz o documento, lembrando que os incentivos fiscais são hoje a principal arma dos países que investem nesses tecnologias, com exceção do Brasil, para tentar torná-las competitivas, o que distorce o mercado.
Também houve apoio do Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, e do diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, às críticas brasileiras aos subsídios agrícolas. "Precisamos agir para uma resistência de longo prazo e contribuir para a segurança alimentar global. Isso significa eliminar taxas de comércio que distorcem os mercados", afirmou Moon.
Diouf foi mais enfático: "Ninguém pode entender como, primeiro, os Países da OCDE criaram uma distorção tal no mercado mundial, com US$ 372 bilhões de gastos em 2006 para apoiar a sua agricultura; depois, que o desperdício de comida em um único país pode chegar a U$ 100 milhões por ano; finalmente, que em 2006 o mundo tenha gasto U$ 1,2 trilhão em compras de armas", disse ele.
OESP, 04/06/2008, Economia, p. B10
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.