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As crises planetárias e a falta de respostas

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
25 de ago de 2006

As crises planetárias e a falta de respostas

Washington Novaes

Ainda há poucas semanas os jornais traziam informações sobre texto da revista Nature em que biólogos de 13 países propõem a criação de uma força-tarefa global capaz de sugerir caminhos para enfrentar a "crise de extinção da biodiversidade, sem paralelo na História". Uma força-tarefa que possa criar "uma ponte sobre a brecha de hoje entre ciência e políticas". Ou seja, uma força que nos leve a romper o impasse atual - em que abundam informações sobre a insustentabilidade dos nossos modos de viver, simultânea à paralisia nas políticas públicas diante dessa realidade. O presidente da França, Jacques Chirac, já manifestou seu apoio a essa força-tarefa. Vamos ver no que dá.

Tem-se dito e repetido que as transformações terão de ser em escala planetária - já que tudo está interligado. Mas não há instituições nem regras capazes de impor transformações nesse âmbito. As reuniões de convenções da ONU têm mostrado nos últimos anos um claro impasse, pois qualquer decisão ali depende de um consenso inalcançável, diante dos interesses contraditórios - e por isso só se votam paliativos ou decisões protelatórias. No âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), interesses financeiros imediatos bloqueiam qualquer tentativa de transformação real. No próprio Mercosul, agora ampliado, nem mesmo a tentativa de formar um bloco que defenda preços melhores para produtos primários exportados por seus membros sequer se aproxima da discussão de custos ambientais.

Quando se passa ao front interno, a questão não é menos grave - basta ver a situação crítica em cada bioma, da Amazônia ao pampa, da caatinga ao Pantanal, da mata atlântica ao cerrado - e com os custos das chamadas questões ambientais ocupando um lugar a cada dia mais importante nas equações. Ainda assim, não se consegue chegar à chamada "transversalidade" que as inclua em todas as políticas setoriais. Ainda há poucas semanas, numa reunião da OMC, a ministra do Meio Ambiente criticou o Ministério da Agricultura por não apresentar proposta, de que estava encarregado havia mais de ano, que permita a discussão desses problemas de forma conjunta. E tudo isso sem falar em que o País continua carente de uma estratégia que parta dessas realidades concretas.

Nem se pode dizer que se trata de questões novas. Clima, biodiversidade, insustentabilidade dos padrões mundiais de produção e consumo são temas do dia-a-dia pelo menos desde a década de 1980, quando se esboçaram as respectivas convenções da ONU. No final dessa década, a chamada Comissão Sul, que se debruçou sobre os dramas desse Hemisfério, onde vive a maior parte da humanidade - e da qual fizeram parte, entre outros, Celso Furtado, dom Paulo Evaristo Arns, Enrique Iglesias, Julius Nyerere (seu presidente) -, já deixou registrado que "as estratégias de desenvolvimento do Sul têm de ter explicitamente em conta o caráter finito dos recursos naturais existentes no mundo (...) A degradação da terra e da água e o desflorestamento constituem uma ameaça muito séria à sustentabilidade do processo de desenvolvimento em muitos países em vias de desenvolvimento".

Em seu O Mito do Desenvolvimento Econômico (Paz e Terra, 1974), Celso Furtado já lembrava que grande parte das hipóteses globais de que partem economistas são "equivocadas", porque "formuladas a partir da observação do comportamento dos agentes que controlam os centros principais do poder; não interessa saber se aqueles que o exercem derivam sua autoridade do consenso, das maiorias ou da simples repressão; se o consenso ou maioria resultam da manipulação da informação ou da interação de forças sociais que se controlam mutuamente (...) Os que mandam falam em nome da coletividade (...) e por isso as decisões podem ser equivocadas, inadequadas ou em desacordo com os interesses sociais".

A partir desses pressupostos, examina ele os critérios sobre investimentos, ou de avaliação do produto interno bruto (PIB), que não levam em consideração recursos e serviços naturais: "Como ignorar", pergunta ele, "o custo da destruição dos recursos naturais não-renováveis, do solo, das florestas, da poluição das águas?" Quando o livro foi publicado, já lhe faziam eco as ironias de José Lutzenberger, que dizia não haver nada melhor para o crescimento do PIB que um terremoto, que não leva em conta a destruição e contabiliza toda a reconstrução.

Tudo isso, entretanto, continua, nas políticas públicas, praticamente na estaca zero. E cabe perguntar: aonde iremos parar?

Terreno difícil. Num livro em que se tentou reunir o pensamento das sumidades do nosso tempo sobre como será o século 21 (Previsões: 30 grandes pensadores investigam o futuro, Editora Record, 2001), o avanço foi praticamente nenhum. Noam Chomsky, uma das vozes mais respeitadas, acha que "qualquer previsão sobre questões sérias provavelmente será errada, exceto por acidente". E, mordaz, acrescenta: "Uma questão que pode ser respondida é se o ser humano é uma espécie de mutação letal", já que "obteve a capacidade de se destruir a si mesma (e muitas outras) por meios que vão de armas de destruição em massa a catástrofes ambientais." De qualquer forma, achava difícil ser otimista.

Para o futurólogo Arthur C. Clarke, "invenções ou acontecimentos totalmente inesperados podem tornar qualquer previsão absurda em poucos anos". Só o economista J. K. Galbraith arriscou: "Nos anos à frente, deve haver um procedimento pelo qual uma ONU fortalecida suspenda a soberania de países cujos governos estejam destruindo seus povos."

Parece improvável. E pouco eficaz do ponto de vista global. Retorna-se, então, ao ponto zero. Mas a falta de respostas não pode levar ao esquecimento do tema. Ao contrário, só reforça a necessidade de pô-lo em evidência imediata.

P. S.: Em viagem, estarei ausente deste espaço nas próximas semanas.

Washington Novaes é jornalista E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

OESP, 25/08/2006, Espaço Aberto, p. A2

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