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Crise no Alto Tietê faz bairros voltarem a ter água do Cantareira

OESP, Metrópole, p. A12
22 de jan de 2015

Crise no Alto Tietê faz bairros voltarem a ter água do Cantareira
Com o fim da transferência, moradores de Cangaíba, Penha e Tatuapé, na zona leste, retornaram para a zona de abrangência do maior manancial paulista, ficando mais expostos a falhas o fornecimento e às manobras de redução da pressão

Fabio Leite

O agravamento da seca no Sistema Alto Tietê obrigou a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) a suspender o "socorro" prestado a regiões da capital que eram abastecidas pelo Cantareira antes da crise. O objetivo é evitar o colapso do segundo maior manancial paulista, que na quarta-feira, 21, caiu a 10% da capacidade. Com o fim da transferência de água, moradores de bairros como Cangaíba, Penha e Tatuapé, na zona leste, voltam para a zona de abrangência do Cantareira, ficando mais expostos a falhas no abastecimento, por causa da redução da pressão, que é mais drástica para quem depende do principal sistema.
"A crise da falta de chuva não atinge só o Cantareira, mas também outros mananciais. Nós estamos reduzindo, praticamente zerando, a transferência do Alto Tietê para o Cantareira. Estamos aguardando a chegada da estação chuvosa, que deveria ter começado em outubro. O que está permitindo, de fato, uma maior redução (do Cantareira) é a nossa gestão de pressão, que antes era noturna e nós tivemos de avançar no período diurno", afirma o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato. Segundo ele, "o aperto maior" ocorre na região atendida pelo Cantareira.
"Há três dias a medida de contingenciamento de consumo da Sabesp em nosso prédio tem tido início às 13 horas e a água tem retornado por volta das 7 horas do dia seguinte. Até então, esta redução se dava sempre por volta das 17 horas, o que já era ruim mas, ainda assim, permitia a normalização da caixa d'água", reclamou ontem a administradora Priscila de Lucca Lutfi, de 40 anos, moradora de Pinheiros, atendida pelo Cantareira.
Em 2014, o Alto Tietê chegou a suprir 1 milhão de pessoas que recebiam água do Cantareira. Por meio de um sistema de distribuição interligado, a Sabesp transferiu mais de 2 mil litros por segundo para atender a região que vai do Aricanduva até o Tatuapé, na zona leste da capital. A medida permitiu uma redução de retirada do Cantareira, mas acentuou a crise nas represas do Alto Tietê, que abastecem ainda hoje cerca de 3,5 milhões de pessoas. Em janeiro, quando a transferência foi iniciada, o manancial tinha 44% da capacidade, sem contar com o volume morto que está sendo utilizado atualmente.

Rodízio. Juntamente com o programa de bônus na conta para quem reduzir o consumo, a transferência de água do Alto Tietê e do Guarapiranga foram as duas alternativas lançadas pela Sabesp no início da crise para não adotar o racionamento oficial na região do Cantareira. Conforme o Estado revelou em agosto, o primeiro plano da companhia, apresentado em janeiro ao Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), chamava-se "Rodízio do Sistema Cantareira 2014". Segundo o documento, "todas as estratégias" foram adotadas à época para "evitar" cortes, mas "o rodízio deve ser planejado em face da situação crítica de armazenamento". O plano, contudo, foi vetado pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), que o classificou como "tecnicamente inadequado".
O cálculo da Sabesp era que o Alto Tietê suportaria a estratégia até o início da temporada de chuvas, em outubro. Mas a seca agravou-se e o sistema está próximo do colapso. Com o recuo da transferência, o Cantareira voltou a atender cerca de 1 milhão de pessoas a mais, produzindo 40% menos água do que em fevereiro do ano passado.
Segundo Massato, a Sabesp pretende compensar a redução do Alto Tietê aumentando a transferência do Guarapiranga para o Cantareira. Hoje, a represa da capital atende cerca de 1,5 milhão de pessoas a mais.

Órgãos definem limite de perdas do manancial

A dez dias do fim de janeiro, os órgãos gestores do Sistema Cantareira definiram nesta quarta-feira, 21, o volume máximo que pode ser retirado do manancial neste mês para abastecer cerca de 12 milhões de pessoas na Grande São Paulo e na região de Campinas e ainda cobraram da Sabesp "planos de ações e intervenções para o enfrentamento da continuidade da crise", que já dura um ano.
Em comunicado, a Agência Nacional de Águas (ANA), do governo federal, e o Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE) definiram que o déficit do Cantareira em janeiro não pode ser superior a 22,9 bilhões de litros. Isso significa que o manancial só pode perder mais 7,8 bilhões de litros até o fim do mês, ou 0,8 ponto porcentual da capacidade.
Na prática, a meta imposta já reproduz o cenário atual do sistema com as retiradas feitas pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Assim, o manancial deve fechar janeiro com 4,7% da capacidade, incluindo as duas cotas do volume morto. Para o interior, a retirada está limitada a 2,5 mil litros por segundo. A média atual é de 1,9 mil litros.

Sabesp vai tirar mais água da Billings para socorrer sistema
Empresa deve ampliar a transferência que já é feita para a Guarapiranga e construir um braço da represa para o Alto Tietê

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), disse nesta quarta-feira, 21, que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) estuda retirar mais água da Represa Billings para suprir a crise hídrica na Grande São Paulo. Segundo o tucano, a empresa deve ampliar a transferência que já é feita para a Represa do Guarapiranga e ainda construir um braço do reservatório na região do ABC paulista para transferir água para o Sistema Alto Tietê, que está próximo do colapso.
Desde o ano passado, a Billings aumentou o volume de água transferido para o Sistema Guarapiranga, na zona sul de São Paulo, através do braço chamado Taquacetuba. Com esse braço, segundo Alckmin, cresceu a vazão do Guarapiranga em 4 mil litros por segundo, de 11 mil para 15 mil litros por segundo, o que possibilitou a transferência de água dessa represa para mais de 1 milhão de pessoas que eram atendidas pelo Cantareira antes da crise.
Alckmin explicou que está sendo estudado ampliar em mais mil litros por segundo a vazão para o Guarapiranga e citou a construção de um braço que permita à Billings atender também regiões abastecidas pelo Sistema Alto Tietê, o segundo mais afetado pela estiagem. Trata-se do fechamento do braço Rio Pequeno, que prevê a transferência de 2,2 mil litros por segundo para o Sistema Rio Grande, que atende parte do ABC. A obra consta do pacote de projetos de R$3,5 bilhões encaminhados por Alckmin ao governo federal para obter recursos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O prazo de conclusão, contudo, é 2016.
Caixa d'água. Na semana passada, o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, disse que a Billings "é uma grande caixa d'água" que pode ser usada em uma emergência. Segundo ele, a represa tem, atualmente, cerca de 600 bilhões de litros armazenados, volume dez vezes maior do que a reserva atual do Cantareira.
"O problema apontado ali é a qualidade da água. Mas grande parte da água potável que se bebe já é de reúso. Não tem dificuldade de tecnologia de transformar a água da Billings, que não tem uma boa qualidade, em água perfeitamente potável. A dificuldade maior seria levar essa água até onde é necessário e no prazo que precisamos", disse Kelman.
Em nota, a Sabesp informou ontem que a Billings já fornece 7,7 mil litros por segundo de água para abastecimento humano. "Há muitos anos, a tecnologia permite a transformação de água poluída em água potável por meio de tratamento. Por essa razão, há quase 60 anos a Sabesp utiliza água da Represa Billings por meio do rio Grande e do Taquacetuba, dois dos seus braços", afirma a empresa. Esse volume é suficiente para atender cerca de 2,3 milhões de pessoas, equivalendo amais de um terço do Cantareira ou metade do Sistema Alto Tietê.
De acordo com a companhia, a Billings também contribui com o Rio Cubatão, cujas águas são utilizadas para o abastecimento de 250 mil pessoas do litoral sul paulista. A Sabesp confirmou que a obra citada por Alckmin é a interligação do braço Rio Pequeno com o Sistema Rio Grande. "É importante salientar que isso aumentará a contribuição do Rio Grande, que através da interligação de sistemas já tem ajudado a diminuir a demanda do Cantareira", completa. / COM F.L.

OESP, 22/01/2015, Metrópole, p. A12

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