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A crise e a carta

O Globo, Economia, p. 26
Autor: LEITÃO, Míriam
26 de Set de 2014

A crise e a carta

Míriam Leitão
COM ALVARO GRIBEL (DE SÃO PAULO) oglobo.com.br/economia/miriamleitao

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) não gosta do que eu escrevo aqui sobre a crise do setor. Entendo. Desta vez, o diretor-geral, Hermes Chipp, enviou uma longa carta cheia de detalhes técnicos. Nenhuma palavra sobre a questão central que tenho escrito: estamos vivendo uma grave crise elétrica que está abalando a saúde financeira das empresas e ameaça cair sobre o consumidor.
Hermes Chipp disse que há "inconsistências" no que escrevi domingo. Contesta a necessidade de ter sido feita uma campanha para reduzir o consumo quando se constatou que a chuva foi pouca e o nível dos reservatórios estava caindo. Ele disse que, se houvesse a redução, o custo da energia seria o mesmo, já que teria que continuar sendo usada a geração térmica. "Visando à recuperação das usinas hidrelétricas buscando maior garantia no atendimento de 2015."
Ora, se temos um problema que pode se estender até o ano que vem, qualquer economia levaria ao aumento da segurança do sistema. Em época de stress hídrico é hora, sim, de economizar.
Ele escreveu em outro parágrafo de sua longa carta, em resposta a uma coluna que citou o ONS lateralmente, o seguinte: "a redução do consumo causa para a sociedade o chamado 'custo do déficit', anualmente publicado pela Aneel e levado em conta nos modelos de despacho pelo ONS. Ressalvamos que o custo de geração térmica é inferior ao do déficit. Logo, seria um contrassenso reduzir o consumo de energia, que tem valor elevado, para promover a redução de geração térmica, que tem menor custo."
Estranho argumento, ou seja, dado que existe esse "custo do déficit" não devemos fazer o que é sensato: reduzir o consumo em tempos de escassez. Quanto ao preço da geração térmica, seu alto custo é uma das razões das inegáveis dificuldades financeiras do setor que serão pagas pelos consumidores.
Na carta, Hermes Chipp diz que: "A atual configuração da matriz energética brasileira, com maior predominância de novas usinas hidrelétricas a fio d'água, requer maior participação das térmicas..." As hidrelétricas a fio d'água são opção recente; não podem ser culpadas pela crise atual. É assim: antes se construíam grandes reservatórios. A maioria das usinas do país tem grandes lagos. Agora, para as novas hidrelétricas da Amazônia, como as do Rio Madeira, foi feita a opção de pequenos reservatórios. Elas não são a maioria do sistema e não podem ser a causa dos problemas atuais. Há boas e más usinas de barragem. A de Itaipu afogou as Sete Quedas num lago de 1.350 km², mas tem alta geração, de 14 mil megawatts. A de Balbina é um crime ambiental porque alagou 2.360 km² de Floresta Amazônica para gerar míseros 250 megawatts, equivalente a um terço de apenas uma das 20 turbinas de Itaipu. Existem barragens que fazem sentido, outras não.
O grande problema sobre o qual já falei aqui, reproduzindo alerta do especialista Mário Veiga, é que os reservatórios estão assoreando de tal forma que o Brasil pode estar com a capacidade de geração hidráulica menor do que registra em suas estatísticas elétricas. Veiga usa a imagem do comprador de um carro que faz 25 km/l e anos depois o veículo já gasto está fazendo apenas 15 km/l. Se o dono continuar teimando que é 25 km/l poderá ficar na estrada. Temos portanto que rever com análise mais acurada a nossa capacidade e recuperar os reservatórios existentes.
Não é a primeira vez que Hermes Chipp reclama por pequenas citações na coluna. Leia a íntegra da carta no blog. Lamento, mas escrevo o que apuro. Nessa última carta ele rebateu o que chamou de "suposto comando do ONS para que as usinas hidrelétricas gerassem além do pico de sua necessidade". Aqui se falou da ordem de gerar no máximo da capacidade, e não "além do pico". E são as hidrelétricas que estão reclamando que não podem gerar tudo o que normalmente gerariam por falta de água e por isso precisam comprar das térmicas a um preço maior do que vão entregar. Isso está arruinando financeiramente as empresas.
Todos os órgãos do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico deveriam deixar de lado os melindres e se juntar para apontar soluções para a mais grave crise que já surgiu desde o apagão. Isso é o que tem que mobilizar os esforços do setor.

O Globo, 26/09/2014, Economia, p. 26

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2014/09/26/a-crise-a-cart…

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