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Crise diplomática: Brasil quer explicação da França

Correio Braziliense-Brasília-DF
22 de Jul de 2003

Governo brasileiro convoca embaixador Alain Rouquié para explicar presença ilegal de delegação francesa na Amazônia. Ministros da Justiça, Defesa e Relações Exteriores reúnem-se esta semana para discutir o incidente

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil protestou formalmente ontem contra a Operação 14 de Julho. Segundo a revista Carta Capital, franceses estiveram em território brasileiro para negociar com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) a libertação da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, prisioneira da guerrilha. Além de colombiana, Ingrid tem cidadania francesa.

O embaixador da França no Brasil, Alain Rouquié, foi convocado à sede do MRE, onde teve uma reunião às 11h a portas fechadas com o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães.

Visivelmente irritado, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse ontem ao Correio Braziliense que está tomando as medidas necessárias pelo uso do território brasileiro sem autorização do governo. ''O embaixador da França foi chamado ao Itamaraty para manifestarmos o nosso desconforto em relação a essa situação'', explicou.

Na avaliação dos Ministérios da Justiça, da Defesa e das Relações Exteriores, o assunto é grave. O melhor exemplo disso é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está sendo informado de todos os detalhes da história. Os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, da Defesa, José Viegas, e Amorim se reúnem esta semana para tratar do incidente. Lula deve participar do encontro.

Flagrante

O jornalista Bob Fernandes, da Carta Capital, flagrou um avião militar francês Hércules C-130 em um terminal comercial do aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. O avião trouxe uma equipe de 11 diplomatas e militares da França para negociar com as Farc a libertação de Betancourt, de 41 anos, seqüestrada pela guerrilha há um ano e meio.

Entre os dias 9 e 11 de julho, os franceses - comandados pelo diretor do Departamento da América Latina da Chancelaria da França, Pierre-Henri Guignard -, não permitiram que autoridades brasileiras inspecionassem o avião, exibindo passaportes diplomáticos, e se recusaram a depor à Polícia Federal (PF). Eles disseram que aterrissaram em Manaus para abastecer e seguiriam vôo para Caiena, na Guiana Francesa.

Rouquié reagiu à denúncia no sábado, dia 19, dizendo que a reportagem da revista era um ''amontoado de asneiras''. Depois de várias versões do episódio, a embaixada francesa admitiu ontem que uma equipe esteve na Amazônia a bordo de um avião militar em ''missão humanitária''.

Segundo o porta-voz da embaixada da França no Brasil, David Izzo, o avião pousou legalmente em Manaus, com autorização do Departamento de Aviação Civil (DAC). ''Foi uma operação humanitária para recuperar reféns na fronteira'', disse Izzo ao Correio. ''Soubemos que as Farc estariam prestes a libertar um grupo de reféns, entre os quais a francesa Ingrid Betancourt. Por isso, enviamos uma missão à fronteira'', explicou.

Desinformação

A versão do Brasil é outra. Os ministros Thomaz Bastos, Viegas e Amorim foram informados do que estava acontecendo só na manhã do sábado, dia 12, quatro dias depois da chegada dos franceses ao país. Amorim estava em Londres, acompanhando Lula, quando soube da crise. ''Eu tomei conhecimento de forma um pouco tardia e incompleta do que estava se passando'', revelou o chanceler.

No mesmo sábado, os franceses foram ''convidados'' - jargão diplomático para amenizar a expulsão - a deixar a Amazônia. ''Assim que pude esclarecer a situação, o que nós fizemos foi pedir que o avião fosse embora. Isso aconteceu no dia seguinte (domingo)'', declarou Amorim.

O chanceler preferiu não dar mais detalhes sobre o incidente. ''Algumas coisas ainda são confusas para nós'', reconheceu. Segundo o ministro, ele mantém contatos com os governos colombiano e francês. No entanto, o embaixador da Colômbia no Brasil, Jorge Enrique Garavito, disse que seu governo não fora informado sobre a operação.

Pedido

O porta-voz David Izzo observou que, embora a França tenha interesse em libertar os reféns, não negociaria com a guerrilha - definida por ele como uma organização terrorista. Segundo a Chancelaria francesa, a delegação viajou atendendo ao pedido da família de Betancourt.

Astrid Betancourt, irmã de Ingrid, afirmou que as Farc entraram em contato com a família, no começo deste mês, para manifestar sua intenção de libertar a ex-senadora. Em entrevista à emissora W Radio, ela disse que, respondendo ao pedido de um informante da guerrilha, viajou no dia 4 de julho à cidade colombiana de Letícia (1.100 quilômetros ao sul de Bogotá).

Astrid contou o fato ao governo da França, que, por sua vez, enviou um avião com equipamento médico à cidade brasileira mais próxima, Manaus. A família pensou que Ingrid seria libertada por motivos de saúde, o que explica a presença em Manaus de um avião francês com equipamento médico. Agora, ela considera que a operação foi abortada pela ação da PF.

Os passos da Missão Francesa no Brasil

Contradições

No sábado, logo após a publicação da reportagem de Bob Fernandes, o embaixador da França no Brasil, Alain Rouquié, negou tudo à agência de notícias AFP. O diplomata disse que a reportagem da Carta Capital não passava de um ''amontoado de asneiras''. Ontem, Paris finalmente reconheceu que uma equipe francesa esteve na Amazônia a bordo de um avião militar.

A embaixada francesa em Brasília alegou, primeiramente, que se tratava de uma ''missão humanitária''. Garantiu que o Hércules C-130 francês havia pousado em território brasileiro ''legalmente''. E que Brasília sabia dos motivos da missão. Poucos minutos depois, a representação diplomática qualificou a aterrissagem em Manaus como uma ''escala técnica'', para reabastecimento do aparelho.

A embaixada francesa em Brasília disse que a ''missão humanitária'' foi lançada depois que os serviços de inteligência tinham recebido informações de que as Farc estariam prestes a libertar reféns. Em Paris, o Ministério de Relações Exteriores da França alegou que a equipe foi enviada à fronteira a pedido da família Betancourt

Análise da Notícia:
Uma história muito estranha

Graciela Urquiza Mendes

Eram poucas as chances de dar errado. Mas deu. Um avião militar da França pousou em território brasileiro no último dia 9. Permaneceu por cinco dias estacionado num aeroporto civil. Sua tripulação - parte militar, parte de diplomatas - se hospedou num dos mais famosos hotéis de Manaus, o Tropical. Um grupo partiu para a fronteira colombiana num avião fretado por US$ 5 mil. Outro continuou na capital do Amazonas, sem deixar que a Polícia Federal examinasse o avião.

Nem mesmo a truculência ou o mau-humor de policiais brasileiros poderia atrapalhar a aventura. Afinal, os franceses tinham passaporte diplomático. E diplomatas podem entrar e sair de países com mais facilidade do que nós, pobres mortais. Também levam e trazem qualquer mercadoria sem a chateação das vistorias ou taxas alfandegárias. A desculpa era perfeita: reabastecimento. Governos de todos os países do mundo permitem aterrissagens para o abastecimento de aeronaves. Ainda mais de aviões militares.

A estranha visita do Hércules C-130 francês - um avião de transporte de tropas, com 29 metros de comprimento, 11 metros de altura e com capacidade para levar até 90 pessoas - poderia, até, passar despercebida nos confins da selva amazônica, não fosse a incômoda presença de um jornalista. Bob Fernandes, da revista Carta Capital, estava no lugar certo, na hora certa. Repórter experiente, ele cheirou encrenca quando viu aquele monstro cinza, com o escudo das Forças Armadas francesas, parado no Aeroporto Eduardo Gomes.

Paris-Manaus-Londres-São Paulo de Olivença-Tabatinga-Brasília. Em toda a rota dessa história há muitas interrogações. Um fato estranho foi a França querer esconder do Brasil e do mundo uma missão pra lá de explosiva: negociar com as Farc a libertação de uma refém com cidadania francesa. Em troca do quê? Esse é o segundo mistério. Autoridades brasileiras ouvidas ontem pelo Correio não acreditam que havia armas no avião francês, como afirma a reportagem de Carta Capital. Suspeitam de que, no máximo, ele estaria adaptado para atendimento médico de emergência. Mas se o Hércules tinha virado ''hospital aéreo'', por que esconder isso da PF brasileira, impedida de entrar no aparelho?

Mais esquisito ainda foi a postura do governo brasileiro de abafar tamanho incidente diplomático. O mais sério da história entre os dois países. Autoridades do alto escalão do governo brasileiro foram informadas do incidente no sábado, dia 12, quando a misteriosa missão francesa ainda estava em solo brasileiro. Mas só ontem, dia 21, o chanceler Celso Amorim resolveu convocar o embaixador Alain Rouquié para explicações.

Personagens do Imbróglio

INGRID BETANCOURT
Ex-senadora e candidata às eleições presidenciais de 2002 na Colômbia. Foi seqüestrada em fevereiro do ano passado pelas Farc.

PIERRE-HENRI GUIGNARD
Chefe do departamento da América Latina na Chancelaria francesa. Chefiou a Operação 14 de Julho.

ALAIN ROUQUIÉ
Embaixador da França no Brasil, convocado a dar explicações ao governo brasileiro sobre o incidente.

Sandra Lefcovich, Samy Adghirni e Thiago Vitale Jayme

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