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Crise da água se agrava. Bônus deve continuar em 2015

OESP, Metrópole, p. A12
11 de Jul de 2014

Crise da água se agrava. Bônus deve continuar em 2015
Dados do comitê anticrise que monitora o Sistema Cantareira revela que, até ontem, o volume médio de água que chegou aos reservatórios foi 64% menor do que no mês passado; Alckmin disse que ampliar desconto pode ajudar a recuperar represas.

Fabio Leite e Rene Moreira - FRANCA

Embora já tenha chovido nas represas em dez dias mais do que choveu em junho inteiro, a crise hídrica no Sistema Cantareira se agravou neste mês. Dados do comitê que monitora o manancial revelam que, até esta quinta-feira, 10, o volume médio de água que chegou aos reservatórios foi 64% menor do que no mês passado, que é considerado o mais seco da história do sistema. Ainda ontem, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que pretende estender o bônus para quem economizar água até o próximo ano.
Um balanço parcial mostra que o déficit do Cantareira, que abastece parte da Grande São Paulo e a região de Campinas, já cresceu 26% neste mês, chegando a 20,8 mil litros por segundo. Isso ocorre porque a vazão média afluente até agora é de apenas 2,4 mil litros por segundo, 9% da média do mês, diante de uma retirada de 23,2 mil litros por segundo para abastecimento público. Se o ritmo permanecer, o manancial deve perder em julho cerca de 54 bilhões de litros, o equivalente a 5,5% de sua da capacidade total.
Os números indicam que os 22,1 milímetros que choveram até esta quinta no sistema - em junho, foram apenas 15,8 milímetros -, não surtiram efeito no nível das represas por dois motivos: os rios que nascem no sul de Minas e alimentam o Cantareira, como Jaguari e Jacareí, continuam com vazão baixíssima; e a água das chuvas que cai sobre os reservatórios praticamente secos acaba sendo absorvida pela terra.
Nesta quinta, técnicos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) estavam com receio de que a população deixasse de economizar água por causa da chuva. Conforme o Estado antecipou, esta quinta marcou o esgotamento dos 981,5 bilhões de litros do volume útil do manancial. Agora, restam 182,5 bilhões de litros do volume morto, reserva profunda abaixo das comportas.

Prorrogação. Segundo a Sabesp, até o mês passado, 87% dos clientes abastecidos pelo Cantareira já haviam reduzido o consumo, dos quais 55% atingiram a meta de 20% de economia e conseguiram desconto de 30% na conta por meio do programa de bônus lançado em fevereiro. Foi alegando a "ampla adesão" ao uso racional da água que Alckmin desistiu de multar quem aumentasse o consumo de água. Neste mês, ele iniciou sua campanha pelo reeleição ao governo.
Nesta quinta, em visita à região de Ribeirão Preto, onde vistoriou obras e fez gravações para seu programa do horário eleitoral gratuito, o governador afirmou que deve manter o bônus até 2015. A Sabesp havia anunciado o programa de descontos até dezembro. "O bônus vai continuar e estamos estudando prolongá-lo mesmo no período das chuvas para poder recuperar as represas", disse o governador, que garante abastecimento sem rodízio até março.

Perspectivas. A prorrogação indica que o próprio governo trabalha com a hipótese de a crise do Cantareira se estender no próximo ano. No início desta semana, o Estado revelou que uma análise estatística feita pelo comitê anticrise mostra que o manancial tem apenas 25% de chance de acumular, entre dezembro e abril do ano que vem, um volume de água (546 bilhões de litros) suficiente para se recuperar e sair da crise.
A estimativa considera previsões da própria Sabesp de que o volume morto dos reservatórios que já está sendo captado deve se esgotar entre outubro e novembro deste ano. Sendo assim, se o Cantareira acumular 546 bilhões de litros nos cinco meses seguintes, ele chega a maio de 2015 com 37,3% da capacidade, nível considerado confortável para atravessar a estiagem do próximo ano.
Os cálculos do comitê anticrise apontam, contudo, que há 50% de probabilidade de o manancial atingir ou exceder um saldo de 394 bilhões de litros no período e 75% de alcançar ou ultrapassar 219 bilhões de litros. Nesses cenários, o Cantareira começaria o próximo período seco, respectivamente, com 21,7% ou 3,8% da capacidade, ambos insuficientes para tirá-lo da crise de estiagem.

Instituto recebe 13 queixas por dia de falta d'água em São Paulo

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) registrou uma média de 13 queixas por dia de falta d'água na Grande São Paulo, por meio da campanha "Tô sem água", lançada no dia 26 de junho. Até esta quinta-feira, 10, havia 178 relatos de falhas no abastecimento, dos quais 74% no período noturno. Segundo o Idec, 76% das queixas são de cortes todos os dias, e a maior parte das reclamações vem da zona oeste da capital paulista (30%). "Com a contribuição do consumidor, o Idec cobrará mais transparência dos órgãos responsáveis e vamos exigir eventuais providências da Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo)."
Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), não há racionamento em nenhuma das 365 cidades onde opera

Racionamento atinge mais de 1 milhão no interior
Na região de Sorocaba, Campinas e Ribeirão, são 18 cidades com rodízio; e há quem tenha de estocar água de madrugada

José Maria Tomazela

As chuvas leves da noite de quarta-feira e manhã de ontem nas regiões de Sorocaba, Campinas e Ribeirão Preto não foram suficientes para mudar o nível dos reservatórios, reduzido ao mínimo em razão da estiagem que atinge o Estado desde janeiro. O racionamento oficial já atinge mais de 1 milhão de pessoas - considerando que o rodízio é parcial em Sorocaba. Nessa região, 11 cidades já adotaram o racionamento e outras correm o risco de cortes no fornecimento de água. Em Ribeirão são mais de 20 municípios com falta de água e 7 com o racionamento já iniciado: Casa Branca, Santa Rita do Passa Quatro, Batatais, Santa Cruz das Palmeiras, Tambaú, Dobrada e Viradouro.
Em Sorocaba, choveu 8 milímetros e o racionamento atinge moradores de 33 bairros das regiões do Éden e Aparecidinha, na zona leste da cidade. A Represa dos Ferraz, que abastece a região, está quase seca. Já em Saltinho, a população tem abastecimento seis horas por dia. Também estão com água racionada São Pedro, Cosmópolis, Valinhos, Santo Antônio de Posse, Rio das Pedras, Vinhedo e Cordeirópolis.
Em Pereiras, o Ribeirão das Conchas, que abastece a cidade, praticamente secou e desde dezembro o sistema de captação está desligado. Para não deixar a população sem água, usam-se quatro poços a 210 metros de profundidade, mas a qualidade não é boa. Os bairros recebem essa água de 12 a 16 horas por dia - já em sistema de rodízio.
Em Campinas, o Rio Atibaia está operando praticamente no limite e há risco de faltar água. O manancial que abastece 95% da população vem sofrendo quedas bruscas na vazão. A Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) preparou um plano de racionamento, mas vem adiando a medida.
Em Tambaú, na região de Ribeirão, a prefeitura está multando em um salário mínimo moradores que desperdiçarem água em atividades como lavar calçadas ou carros. Na cidade, com o fornecimento interrompido 15 horas por dia, a população tem estocado água na madrugada.

Mais afetados. Apesar de os municípios não declararem abertamente o racionamento, a falta de água, agravada pela seca, atinge milhares de moradores em cidades médias da região de Araçatuba, como Marília, Bauru e Araçatuba e menores, como Birigui, Santa Fé do Sul e Guararapes. Marília, por exemplo, está investindo R$ 9 milhões na perfuração de poços, instalação de adutoras, bombeamento e construção de reservatórios para evitar o desabastecimento de 130 mil pessoas. / Colaborou Chico Siqueira, especial para o Estado

OESP, 11/07/2014, Metrópole, p. A12

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,crise-da-agua-se-agrava-…

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