JT, Editoriais, p.A3
18 de Jan de 2004
Crise da água deixa lições importantes
Depois de evitar ao máximo o racionamento de água, apesar dos baixos níveis dos reservatórios polêmica decisão na qual muitos viram motivações políticas e que mereceu críticas de especialistas , a Sabesp já admite adotar a medida para os 9 milhões de pessoas da capital e de municípios da Grande São Paulo servidas pelo Sistema Cantareira, cujo nível estava na marca de 5,2% na quinta-feira. É que nos primeiros 15 dias de janeiro choveu apenas 73,7 milímetros naquele manancial, quando a média histórica deste mês é de 259,6 milímetros.
A Sabesp, por meio de uma declaração do assessor de sua Diretoria de Produção e de Tecnologia, Ricardo Araújo, já começou a preparar o espírito da população para o racionamento em fevereiro. Segundo ele, se não houver até o fim do mês uma contribuição natural dos rios que formam o reservatório, não vamos esperar até março para tomar uma decisão. Sua esperança é que se repita o que ocorreu de 20 de janeiro a 3 de fevereiro do ano passado, quando fortes chuvas contribuíram para a recuperação dos mananciais. Em outras palavras, como os humores de São Pedro são imprevisíveis, é melhor aqueles 9 milhões de pessoas se preparem para o pior.
A dúvida sobre se a Sabesp está agindo corretamente, ao insistir em adiar ao máximo o racionamento, apesar da forte estiagem, vem alimentando o debate sobre a questão desde setembro do ano passado. Muitos especialistas têm sustentado que teria sido mais acertado decretar logo o racionamento, adequando o fornecimento de água à baixa capacidade dos reservatórios, para evitar seu esgotamento, o que só agravaria o problema.
Dias antes da advertência de Araújo, o jornal Gazeta Mercantil publicou matéria informando que o próprio órgão responsável pelos recursos hídricos do Estado, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), reconhece que a política seguida levou a um esgotamento do Sistema Cantareira. Segundo o diretor de recursos hídricos da Bacia do Médio Tietê, Sebastião Vainer Bosquilia, agora dificilmente haverá condições para recuperar os níveis necessários daquele sistema. Segundo ele, a política do governo foi errada. Eles esgotaram o Cantareira.
O Daae, depois de negar que os profissionais ouvidos por aquele jornal falaram em nome do órgão, voltou a insistir que o racionamento não teria alterado a situação: Hoje teríamos de 6% a 7% em vez de 4% a 5% das reservas, o que, é óbvio, não resolveria a situação. A questão não é tão simples, como mostra a posição assumida pelo prefeito de Rio Claro e presidente do Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, Mauro Claro. A seu ver, a Sabesp deveria ter decretado racionamento no Sistema Cantareira em meados do ano passado, quando seu nível chegou a 15%: Isso reduziria as perdas e permitiria que o reservatório se recuperasse para o período de estiagem.
Que tenha havido uma incorreta apreciação da situação, ou que a atitude do governo tenha sido ditada por razões políticas o que parece pouco provável, pois neste caso, como lembra o Daee, teria sido melhor adotar o racionamento em 2003 e não em 2004, ano eleitoral , o que importa agora é que este caso sirva para chamar novamente a atenção para a necessidade de repensar a política para o setor e estabelecer uma estreita colaboração entre todos os que detêm uma parcela de responsabilidade na solução do problema.
Os municípios da Grande São Paulo, por exemplo, podem ajudar protegendo os mananciais das agressões provocadas pela sua ocupação ilegal e desordenada. E o Estado, por sua vez, pode e deve instituir rodízio permanente no fornecimento para preservar os reservatórios, até que a situação se normalize, e manter campanhas de conscientização da população sobre o uso racional da água.
O racionamento de energia elétrica, há pouco mais de dois anos, mostrou que a população aceita fazer sacrifícios desde que ela seja devidamente esclarecida de que isto lhe poderá trazer benefícios, aliviando seus sofrimentos.
JT, 18/01/2004, p. A3
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