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Crianças, maiores vítimas da seca na Amazônia

O Globo, O País, p.18
23 de out de 2005

Crianças, maiores vítimas da seca na Amazônia
Na fronteira com Peru foram registrados mais de 450 casos de diarréia e dois bebês morreram. Escolas estão sem merenda

A seca na Amazônia provocou um surto de diarréia que já matou três pessoas em Atalaia do Norte, no Amazonas, a 1.100 quilômetros de Manaus, na fronteira do Brasil com o Peru. Nas últimas três semanas, dois bebês e uma mulher de 63 anos morreram devido à desidratação. A prefeitura suspeita da água, mas não descarta o risco de infecção por rotavírus, causador de diarréia e que é transmitido por via oral, fezes, água e até secreções respiratórias. Amostras recolhidas de 12 pacientes internados em setembro foram enviadas para exame em Manaus.
Em dois povoados da zona rural de Atalaia - Estirão do Equador e Palmeiras do Javari - as escolas estão sem merenda porque o barco não pode subir o Rio Javari. Os alimentos estão num armazém do Exército em Tabatinga, a sete horas de balsa, à espera de avião.
"São as primeiras mortes por diarréia em seis anos"
A Secretaria de Saúde de Atalaia registrou 432 casos de diarréia, a maior parte em crianças com menos de 10 anos. Com as internações da semana passada, esse número ultrapassa 450. O médico e vice-prefeito Robinson Moss conta que chegaram a ser atendidas 35 pessoas num único dia. Em tempos normais, segundo ele, a média mensal oscila entre 25 e 30 casos.
- São as primeiras mortes por diarréia nos seis anos que estou aqui - diz Moss.
Um dos bebês que morreram foi Marcel de Oliveira Silva, de 1 ano e oito meses. Apelidado de Fofão, ele aparece gordo e sorridente em fotos de família. Mas no último dia 10 não resistiu à desidratação e teve parada cardiorrespiratória depois de um mês de diarréia.
- Ele chorava, gritava. Eu dava suco, leite, mas ele vomitava. O médico passava remédio e não resolvia - diz a mãe Alvilina de Oliveira, de 16 anos.
A prefeitura enviou ao laboratório em Manaus amostras de 12 pacientes que apresentaram sintomas de infecção pelo rotavírus. Os resultados ainda não foram divulgados.
- Os sintomas são do rotavírus: dor abdominal, febre, diarréia aquosa e desidratação - diz Moss.
Tereza das Chagas de Almeida, de 63 anos, foi a primeira vítima do surto em Atalaia. Ela morreu no dia 2. O terceiro a morrer foi o bebê índio Maiá Kanamary, de 9 meses, no dia 13.
Atalaia do Norte fica à margem do Rio Javari, um dos mais afetados pela estiagem no Amazonas. O rio secou a ponto de aparecerem bancos de areia em seu leito. A água ficou barrenta e com mau cheiro.
Em condições normais, a estação de tratamento da cidade já é deficiente e não fornece água 100% potável, segundo o gerente Eliel Saraiva. Ele diz que o sistema usa tecnologia inadequada e foi projetado para uma população menor. O maior problema, porém, é que justamente no auge da seca, entre setembro e outubro, a estação ficou sem os produtos químicos usados na limpeza da água - sulfato de alumínio e cloro. O suprimento vem de Manaus, de balsa, mas o Rio Javari estava sem condições de navegação.
- Por mais de um mês, não tinha produto químico. A água estava indo direto do rio para as residências - diz Eliel.
Mesmo com os barcos agora chegando à sede do município, mas longe da zona rural, a estação de tratamento deixou de pôr cloro na semana passada devido à rachadura num tanque.
A agricultora Alcinda Epifânia Soares está acostumada à água amarelada saindo da torneira. Quando isso ocorre, ela usa um coador e hipoclorito de sódio - substância distribuída pelos governos estadual e federal para purificar a água. Na última quinta-feira, Alcinda convenceu a filha Josélia a levar as crianças da casa ao posto de saúde. O neto Renan, de 4 anos, estava com diarréia há dois dias. Sua irmã Raiane, de 3, volta e meia tem o mesmo problema, assim como a prima Geisimel, de 3, e Ruth, de 7 anos, irmã caçula de Josélia.
Para vereadora, problema seria provocado por peixes
No colo da mãe, aguardando ser atendido no posto de saúde, o bebê João Salazer Oré, de 1 ano, era puro abatimento.
- Desde ontem ele está com vômito e diarréia. Acho que é a água - disse a mãe, Olga.
Para a vereadora Adriana Mota (PFL), no entanto, o problema pode estar nos peixes. Ela teve diarréia, apesar de só tomar água mineral. Na região, há quem pesque com timbó, veneno natural feito com raízes que provoca intoxicação alimentar. Outra possibilidade seria a contaminação natural dos peixes: cai o volume de água, cresce a concentração de impurezas. O médico José Melo, do posto de saúde de Atalaia, diz que são comuns casos de ingestão da água do banho. Para ele, a diarréia está associada a verminoses.

Chuvas voltam a cair e fazem subir nível de rios
Solimões, que chegou a ficar com 36 cm, está agora com 2,56 metros em Tabatinga
Com a volta da chuva no oeste do Amazonas e nas nascentes de rios fora do país, o Rio Solimões subiu em média mais de 20 centímetros por dia na última semana, em Tabatinga, a 1.105 quilômetros de Manaus, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. Na sexta-feira, a água atingia o nível de 2,56 metros. Bem acima, portanto, da marca de 36 centímetros registrada em 9 de setembro, a mais baixa deste ano. Mas ainda distante da mais alta, de 11,62 metros, em maio.
Quem acompanha diariamente a variação do Solimões é Jayme Azevedo da Silva, conferente de carga da Sociedade de Navegação, Portos e Hidrovias (SNPH) do Amazonas. De domingo a domingo, faça chuva ou faça sol, ele caminha até a margem do rio e olha a régua de medição. A seguir, digita os dados num terminal. De lá, a informação segue para a Agência Nacional de Águas, em Brasília.
- Já perdi até festa de aniversário para vir aqui - diz ele.
A leitura é feita às 7h e às 17h. Quando o rio está cheio, basta caminhar até o porto. Com a seca, porém, Jayme é obrigado a descer um barranco enlameado até a beira d'água.
Há três réguas de medição. Duas costumam ficar submersas, pois marcam o nível de zero a três metros. A mais profunda, que marca até um metro, não vinha à tona desde 1999. A outra, desde 2003.
Jayme monitora o Solimões há 14 anos. Já viu secas piores, mas nunca uma que afetasse, como agora, a bacia do Solimões por inteiro, deixando em situação pior municípios vizinhos de Manaus - onde o Solimões se junta ao Rio Negro e passa a se chamar Rio Amazonas. Segundo a CNPH, o nível do rio desceu a 13 centímetros em 1998, em Tabatinga. Em 1999, atingiu a sua marca mais alta: 13,82 metros.
Em Benjamin Constant, a 30 minutos de voadeira (barco com motor de popa), o transporte escolar voltou a circular no riacho de Boa Vista. Isso significa um problema a menos para os filhos da agricultora Maria Inês Garcia, que não precisam mais caminhar 15 minutos até o Rio Javari, onde a navegação não havia sido suspensa. O igarapé, porém, não subiu ainda o suficiente para que dele se possa tirar água de boa qualidade para beber. Resta o brejo nos fundos da casa, onde a água é turva e fétida. (Demétrio Weber, enviado especial)

O Globo, 23/10/2005, O País, p. 18

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