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Crianças indígenas: a imprensa ignora a tragédia

Coiab - www.coiab.com.br
Autor: Ivânia Vieira *
25 de jul de 2008

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima em 146 mil o número de crianças indígenas no Brasil. Ou 28% da população indígena do País. Informações mais completas sobre as condições de vida desse segmento populacional são difíceis. Afinal, a começar pela imprensa, os povos indígenas ainda são tratados como bloco humano único sobre o qual espalham-se as generalizações perigosas.

A marca dessa conduta é visível nos discursos da maioria dos governos, dos legisladores e do judiciário e alcança a sociedade, às escolas, mantendo sem grandes alterações o vigor do circulo de realização da política da cumplicidade com o preconceito e com a discriminação.

Em um Estado como o Amazonas, onde vive a maior população indígena brasileira, a presença desses povos na pauta da imprensa deveria ser uma conduta natural. Mas é escassa. Na maioria das vezes a cobertura é feita em decorrência das tragédias e dos conflitos, como os de ocupação de prédios públicos, como os da Funasa e Funai. Tratados apenas como "índios", desaparecem nesse discurso os velhos, as mulheres, as crianças e a cultura que cada um povo é detentor. Esse é apenas um dos perigos da generalização.

As cartas do Conselho Indígena do Vale do Javari (Civaja), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Forin), da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e as notas do Conselho Indigenista Missionário do Regional Norte I (Cimi) atuam como o meio mais eficiente para denunciar, alertar, informar o que acontece nas comunidades indígenas no interior do Amazonas. São elas que estão nos avisando sobre a tragédia que atinge mais de dez povos indígenas e, em especial as crianças.

Reportagem feita pelo jornalista Ricardo Brandt e publicada no jornal O Estado de São Paulo, em maio último, indicam que a taxa de mortalidade infantil entre os índios do Vale do Javari, em 2007, foi de 123 para cada mil nascidos vivos. Os números foram fornecidos pelo Departamento de Saúde Indígena (Desai) da Funasa. "No Brasil, o índice médio é de 25 mortes por mil. Nem Moçambique, na África, que enfrenta uma epidemia de Aids, chega a essa marca. Lá morrem 81 crianças para cada mil.", escreveu o jornalista.

A Funasa em meio a graves denúncias e tantas mortes mudou de comando no Amazonas. As cartas continuam chegando transportando a mesma notícia: doenças, desnutrição e abandono matam no Vale do Javari., no Alto rio Solimões, no Alto rio Negro... Criar um espaço ou revitalizar os já existentes para sensibilizar comunicadores e estudantes da área a respeito da importância estratégica dessa pauta é um desafio desse momento. Uma outra postura nessa área terá influências nas discussões ora feitas nos ambientes governamentais, das ONGs e das instituições de ensino e pesquisa, constituindo-se numa forma concreta de enfrentar e romper o círculo da cumplicidade com o abandono e a morte de tantas crianças.

Jornalista e Profª de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

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