O Globo, Ciencia e Vida, p.37
03 de Fev de 2005
Criado cronograma da destruição causada pelo clima
Michael McCarthy
Do Independent
Um detalhado cronograma da destruição provocada pelo aquecimento global ao longo deste século foi apresentado ontem numa conferência sobre mudanças climáticas, em Exeter, Inglaterra. O trabalho traça o mais completo cenário de mudanças que poderão vir a ocorrer, se confirmadas as previsões de cientistas. O cronograma foi criado a partir da análise de estudos recentes pela equipe de Bill Hare, do Instituto Potsdam de Pesquisa de Mudanças Climáticas, na Alemanha
Fome e falta dágua se intensificarão
A conferência foi convocada pelo premier britânico Tony Blair e reúne especialistas de todo o mundo. Segundo o cronograma, o processo de aquecimento já está em curso. Em 25 anos, quando a elevação de temperatura média do planeta chegar a 1 grau Celsius, ecossistemas mais sensíveis, como as florestas tropicais de altitude, poderão ter grande perda de biodiversidade. Em alguns países em desenvolvimento, a produção de alimentos começará a diminuir e a falta de água se agravará.
Em meados do século, quando a Terra for 2 graus mais quente do que era no período pré-industrial, os efeitos mais dramáticos do caos no clima começarão a aparecer. O Ártico terá perdas severas de gelo e os ursos polares terão sua população severamente reduzida. Poderão ocorrer mais incêndios florestais no sul da Europa e doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e malária, se propagariam por regiões hoje de clima temperado.
Plantas que só vivem na África do Sul, nos Alpes e na Austrália poderão sofrer graves perdas e florestas da China começarão a morrer. A fome e a falta dágua nos países pobres se tornariam ainda mais graves.
De 2050 a 2070, quando o aumento for de 3 graus, esses problemas se tornarão críticos, prevêem cientistas. Por essa época, confirmadas as previsões, a floresta amazônica sofrerá danos irreversíveis e entrará em colapso, com matas dando lugar a campos. A flora alpina de Europa, Nova Zelândia e Austrália poderá desaparecer completamente.
Os pesquisadores prevêem que, por essa época, cinco bilhões e meio de pessoas viverão em áreas afetadas pela fome. Três bilhões sofrerão com uma falta crônica de água.
Ártico poderá perder todo gelo após 2070
As previsões para o período posterior a 2070 são ainda mais dramáticas. Hare e seus colegas acreditam que será um tempo de grandes catástrofes. O gelo do Ártico poderá desaparecer, causando extinções em massa. Ursos polares e morsas, provavelmente, se extinguiriam.
O ser humano também sofreria muito e bilhões de pessoas seriam afetadas pela escassez de alimentos.
Outro tema debatido na conferência foi o esfriamento da Europa devido a uma mudança de curso da Corrente do Golfo. Se a corrente for alterada devido ao aquecimento global, a temperatura na região do Atlântico Norte sofrerá um efeito contrário e poderá ter uma redução de até 10 graus Celsius. Segundo cientistas, há 50% de chance de a corrente marinha ser alterada.
Com agências internacionais
Antártica sofre perda inédita de gelo
A maciça cobertura de gelo da parte ocidental da Antártica, que se costumava imaginar estável, começa a entrar em colapso, alertaram ontem cientistas. A Antártica contém mais de 90% do gelo do mundo e a perda de um volume significativo pode causar um substancial aumento do nível do mar.
Cientistas costumavam ver a Antártica como um gigante adormecido afirmou Chris Rapley, do grupo de pesquisadores britânicos que estuda o continente. Mas agora a vejo como um gigante que está despertando.
Rapley apresentou os dados sobre a cobertura de gelo na Conferência Internacional do Clima, em Exeter, na Grã-Bretanha. Já se sabia que geleiras na Península Antártica estavam em processo de retração. Mas os números apresentados por Rapley revelam que as geleiras na parte ocidental da Antártica também começam a desaparecer.
Se todo o gelo da Península Antártica derreter, o aumento do nível do mar será de 30 centímetros. Mas a parte ocidental da cobertura de gelo contém água suficiente para contribuir com uma elevação do mar que poderia chegar a quatro metros.
O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, de 2001, sustenta que o colapso da cobertura de gelo seria improvável no século XXI. Mas o dado talvez tenha que ser reavaliado, alertou Rapley.
Os indícios de que as mudanças climáticas podem estar afetando a cobertura de gelo da parte ocidental da Antártica são provenientes de três geleiras. Os números revelam que elas estão perdendo mais gelo sobretudo por meio da formação de icebergs do que vem sendo reposto pela precipitação de neve.
De acordo com análises preliminares, a diferença entre a massa perdida e a reposta é de cerca de 60%. O derretimento dessas geleiras contribuiria para um aumento do nível do mar de 0,24 milímetros por ano. Os cientistas estudam ainda as causas do degelo.
O Globo, 03/02/2005, p. 37 (Ciência e Vida)
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