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Criação de camarão ameaça mangues no Ceará

O Globo, O País, p.18
13 de jun de 2004

Criação de camarão ameaça mangues no Ceará
Estado é o segundo maior exportador do produto no Brasil mas atividade tem provocado danos ambientais

A criação de camarão em cativeiro, uma das atividades mais rentáveis do agronegócio cearense, está causando polêmica por seu impacto ambiental sobre as áreas de mangue. No ano passado, o Ceará exportou 20 mil toneladas de camarão in natura, faturando U$ 80,944 milhões. O estado já é o segundo colocado no ranking nacional do setor. Em termos de produtividade, só perde para o Rio Grande do Norte. Mas os efeitos nocivos ao meio ambiente colocam a produção em xeque.

Numa blitz realizada no começo do ano, técnicos da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Semace) encontraram irregularidades em 139 das 292 fazendas de camarão inspecionadas. A maioria dos empreendimentos foi embargada, seja porque estivesse funcionando sem licença de operação, seja por ter feito desmatamento, aterro ou construção em área de proteção ambiental.

Denúncias de ambientalistas e moradores de comunidades levaram ao Ceará o Grupo de Trabalho (GT) de Carcinicultura da Câmara dos Deputados, ligado à Comissão de Meio Ambiente. O grupo visitou áreas de criação também no Rio Grande do Norte, Paraíba e Bahia. O relator do GT, deputado João Alfredo (PT-CE), disse que nas áreas de criatórios existe desmatamento de manguezais, poluição das águas de rios e degradação do ecossistema.

Ricos em material orgânico, os mangues fornecem abrigo e alimento a muitas espécies marinhas, e várias se reproduzem em meio ao manguezal. Segundo João Alfredo, com a expansão das fazendas, houve redução ou até mesmo o desaparecimento de camarões nativos e crustáceos.

Não há dados sobre áreas de mangue destruídas pela carcinicultura no Ceará. Para o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará Jeovah Meireles, os custos ambientais não estão sendo levados em conta e ainda é desconhecido o impacto da carcinicultura a longo prazo.

- Tem uma grande cadeia alimentar que depende desse ecossistema. Áreas de mariscagem e de captura de caranguejo são tomadas pelas piscinas de camarões.

AGRONEGÓCIO PROSPEROU A PARTIR DE 2000
Áreas de cativeiro existem em 26 municípios do estado

FORTALEZA. Os dados da Associação Cearense de Criadores de Camarões em Cativeiro também mostram o crescimento do setor. A carcinicultura existe desde a década de 70. Mas foi a partir de 2000 que proliferou rapidamente. A Associação Cearense de Criadores de Camarão diz que existem 185 fazendas, mas a Semace só concedeu 146 licenças. Outros 219 processos estão aguardando liberação. Os criatórios estão espalhados em 26 municípios. Os maiores núcleos estão concentrados em Aracati, Acaraú e Camocim.
Tecnicamente, os criatórios devem ser construídos em regiões de apicuns, que em tupi-guarani quer dizer terra de mangue. Com base numa resolução do Conselho Estadual do Meio Ambiente, a Semace considera o apicum uma área de transição entre o mangue a vegetação de tabuleiro. Já para a Superintendência do Ibama no Ceará, apicum é área de mangue.

Sem consenso, ambientalistas afirmam que a carcinicultura está proibida em áreas de mangue. A coordenadora da Coordenação de Controle e Proteção Ambiental, Maria Dias Cavalcante, admite que há irregularidades.

- Não posso dizer que a carcinicultura não é degradadora. Mas estudos realizados no Rio Jaguaribe, por exemplo, mostram que o esgoto sanitário é o maior poluidor.

(I.M.)

PRODUTOR DESTACA VANTAGENS
FORTALEZA. O presidente da Associação Cearense de Criadores de Camarões, Ricardo Cunha Lima, afirmou que os impactos positivos da criação de camarão em cativeiro são maiores do que os negativos. Do Nordeste saíram 95,2% da produção nacional de camarão em 2003.

Segundo Cunha Lima, a atividade gera 3,75 empregos diretos e indiretos por hectare, 90% da mão de obra utilizada é local e não demanda especialização. Nos primeiros dois meses deste ano foram produzidas 2,4 toneladas. O faturamento foi de US$ 8,6 milhões e a tendência é de crescimento.

- Os impactos são reversíveis e existem medidas compensatórias para minimizar os danos - disse Lima.

Segundo ele, eventuais desmatamentos em manguezais acontecem na hora de construir canais para transpor águas para os viveiros.

O Globo, 13/06/2004, O País, p. 18

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