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Crescimento responsavel

GM, Opiniao, p.A3
Autor: FRANCO, Roberto Messias
06 de Mai de 2005

Crescimento responsável
Expansão chinesa ameaça o equilíbrio ambiental da Terra. Há muitos anos os brasileiros ansiavam por um crescimento da economia que garantisse mais emprego e retirasse da miséria os milhões de cidadãos que vivem à margem da sociedade, excluídos do mercado de consumo e negligenciados em seus direitos básicos como alimentação, saúde, educação e lazer. Em conseqüência dos mais de 20 anos de um regime ditatorial, elitista e excludente, os anos de 1980 formaram o que todos já denominam como "a década perdida". Reconquistada a liberdade política, o Brasil não viu nos anos seguintes o resgate do crescimento econômico. E a década posterior se arrastou entre soluços de pequenos avanços e grandes retrocessos. Pacotes econômicos impostos à sociedade tentavam refrear o consumo. O consumo retido mantinha o círculo vicioso de crescimento tímido que impedia aumentar empregos e distribuir renda. Assim, vimos aumentar cada vez mais o exército de famintos e abandonados sociais. A falta de uma política comprometida com os mais pobres e frágeis deixou o País ainda mais sensível ao desequilíbrio que abalou as economias em quase todo o mundo. As crises externas atingiram de forma danosa o País e significaram barreiras ainda mais difíceis de transpor para a retomada interna. Vivemos, agora, um momento paradoxal. O ano passado foi marcado por um crescimento há muito não visto no Brasil. Todos os setores comemoraram o aumento de vendas e produção; o desemprego começou a se retrair e o otimismo voltou às pautas de reuniões empresariais e políticas. Agora, em 2005, o clima de confiança se consolida e o País parece retomar os trilhos do desenvolvimento. Mas esse crescimento, também sentido em outras nações, capitaneadas pela China, traz preocupações. Esse país, que vive a ânsia da expansão capitalista, parece ter uma fome insaciável para atender a uma sociedade pauperizada pelo regime comunista e pela economia centralizada no meio rural. Não é por acaso que o governo chinês se oferece para comprar 80% de todo o cimento produzido no planeta e toda a produção siderúrgica brasileira. Afinal, o país concentra mais de 1/5 da população mundial. O maior mercado do mundo, no entanto, é uma ameaça ao equilíbrio ambiental da Terra. Na pressa de se desenvolver, a China não faz nenhuma exigência aos fornecedores que atendem a seus pedidos. Essa negligência do gigante asiático pode representar grande destruição dos recursos naturais e degradação irrecuperável do meio ambiente. O que aos olhos da sociedade brasileira pode parecer uma grande oportunidade de crescimento econômico pode representar um dano irreparável a toda humanidade. A sociedade precisa refletir e decidir sobre que tipo de País quer. Precisamos de pessoas qualificadas e com influência política que consigam refrear a ganância daqueles que difundem a idéia de crescer a todo custo. Nesse sentido, louvo a iniciativa da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e do Instituto de Educação Tecnológica (Ietec) que, juntos, lançam um MBA inédito no País para discutir gestão e política ambiental. O executivo que cuida da área ambiental das empresas precisa atentar para a responsabilidade social da organização, que passa pela garantia das condições mínimas que assegurem qualidade de vida. Um país ambientalmente destruído não pode oferecer essas condições. Ao gestor público, que deve agir como defensor da sociedade, cabe o lineamento de políticas que imponham barreiras às empresas que resistem a garantir a preservação do meio ambiente e a utilizar de maneira civilizada os recursos naturais. As regras, no entanto, precisam ser claras. Existem organizações que investem em tecnologias e pesquisas para diminuir os impactos negativos à natureza. Elas não podem ser prejudicadas por aqueles que querem apenas lucrar e não se preocupam com as gerações futuras. O Brasil deseja e precisa voltar a crescer, todos merecemos mais conforto. Mas precisamos lutar para manter viva nossa casa, a Terra, sem a qual não há futuro para o homem.
(Roberto Messias Franco - Gerente-executivo do Ibama-MG, ex-secretário Especial de Meio Ambiente da Presidência da República.)

GM, 06-08/05/2005, p. A3

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