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Cresce potencial de cultivo do grão na Amazônia

Valor Econômico, Agronegócios, p. B14
11 de Mar de 2014

Cresce potencial de cultivo do grão na Amazônia

Daniela Chiaretti
De São Paulo

A Amazônia sempre foi considerada inadequada para a produção de soja, mas o melhoramento genético aumentou o potencial de produção no bioma. O cenário de risco, somado ao corredor de escoamento de grãos que se desenha ao Norte, preocupa ambientalistas.
O potencial de ameaça da soja sobre a Amazônia é apontado no relatório "O crescimento da soja: impactos e soluções", da organização não governamental WWF. Trata-se de um amplo levantamento da produção e comercialização da commoditie no mundo.
"Sabe-se que 20% da Amazônia Legal tem aptidão para produzir grãos e desde 2002 pesquisadores estudam variedades de soja que podem se adaptar por lá", diz Cynthia Cominesi, analista de conservação do programa Agricultura e Meio Ambiente do WWF-Brasil.
"A pesquisa está fazendo o seu papel, mas vemos este quadro com preocupação", continua. "A pressão pelo plantio de soja na Amazônia aumentará, com a demanda global crescente, e pode repetir a cena do Cerrado. Há 20 anos não havia soja no bioma em função da aridez. Mas a pesquisa encontrou novas variedades e hoje a grande produção ocorre ali. O mesmo pode acontecer na Amazônia. "
Há outros impactos colaterais que podem ter efeito sobre a floresta. Boa parte da expansão da soja no Brasil se dá em terras que eram usadas pela pecuária. Se este fenômeno, de um lado, é positivo, pode empurrar o gado para a Amazônia e causar desmate.
A bem sucedida moratória da soja, pacto entre ambientalistas e a indústria que existe desde 2006 e pressupõe que não se compre soja de áreas que tenham desmatado a Amazônia, também tem seu lado ameaçador - no caso, sobre o Cerrado. "O problema é que quando se elabora algo como a moratória pode ocorrer um avanço sobre o bioma mais próximo, no caso, o Cerrado. Este processo não é exclusivo do Brasil, é do mundo inteiro", diz Pedro Miguel, coordenador do Programa de Agricultura e Meio Ambiente do WWF-Brasil.
No Cerrado, diz o estudo, está cerca de 5% da biodiversidade mundial - mais de 11 mil espécies de plantas, quase a metade não é encontrada em nenhum outro lugar. Além disso, é uma matriz importante de água (seis das principais regiões hidrológicas do país têm suas fontes ali, inclusive o Pantanal). Mas, desde 2000, soja, milho, algodão e cana-de-açúcar ocuparam áreas extensas no bioma. O WWF estima que o cultivo de soja ocupe entre 13 e 15 milhões de hectares de Cerrado, ou algo próximo ao território da Inglaterra.
"Se a alteração na vegetação continuar com os índices de 2004 - 2 a 3 milhões de hectares por ano -, o ecossistema natural do Cerrado poderá virtualmente desaparecer nas próximas três décadas", diz o estudo. "Nosso trabalho daqui para frente é criar mecanismos para salvaguardar as maiores extensões possíveis de ativos naturais", diz Miguel.
Ele lembra que o Brasil está na vanguarda da certificação de soja. Aqui existem 470 mil hectares de soja certificada - a China tem 27 mil hectares. "A certificação é importante porque acopla uma série de medidas mitigadoras em relação à emissão de gases-estufa e manutenção do solo", diz Miguel.

Valor Econômico, 11/03/2014, Agronegócios, p. B14

http://www.valor.com.br/agro/3456768/cresce-potencial-de-cultivo-do-gra…

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