OESP, Metrópole, p. C6-C7
17 de Jul de 2011
Cresce mobilização por áreas verdes em SP
Como no Itaim-Bibi, abraços coletivos e abaixo-assinados são formas de moradores pressionarem o poder público, na tentativa de evitar mais prédios
Márcio Pinho
Com áreas verdes cada vez mais escassas em São Paulo, paulistanos de diferentes regiões têm se mobilizado para evitar que elas deem lugar a espigões. Abraços coletivos a terrenos, coleta de assinaturas e pressão junto a órgão oficiais se tornaram comuns na briga para evitar que o mercado imobiliário leve a melhor. E o argumento costuma ser semelhante: para que adensar, poluir e levar mais trânsito a áreas já tão saturadas?
A tentativa é a de reverter uma lógica histórica na cidade que é a da destruição da natureza para a ocupação humana. Dados da Prefeitura indicam que apenas 14 das 31 subprefeituras de São Paulo conseguem superar o mínimo de área verde recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) - 12 metros quadrados por habitante. E boa parte do verde que sobrou se encontra em extremos, como a Serra da Cantareira, ou em condomínios fechados.
A recente decisão do prefeito Gilberto Kassab (sem partido) de vender 20 terrenos para construtoras deu ainda mais força aos movimentos. Um dos imóveis que mais causam mobilização é o Quarteirão da Cultura, no Itaim-Bibi (zona sul). O terreno de 20 mil metros quadrados - o equivalente a dois campos de futebol - tem oito equipamentos públicos, entre eles biblioteca e teatro, e mais de 40 espécies vegetais, segundo o Movimento em Defesa do Quarteirão da Cultura SOS Itaim-Bibi.
A área está avaliada em R$ 140 milhões e teve a venda autorizada pela Prefeitura no dia 6. Mas, a pedido dos moradores, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) estuda um pedido de tombamento da área, o que por enquanto impede a venda. Segundo o coordenador do movimento, Helcias de Pádua, a vegetação contribui para a qualidade de vida e os equipamentos são imprescindíveis para os moradores da região e os de outros bairros.
Além do Itaim, há outras áreas que causam mobilização na cidade. A Mooca, na zona leste, abriga pelo menos duas áreas polêmicas. A Praça Alfredo di Cunto, conhecida como Praça das Flores, é um dos terrenos que serão vendidos pela Prefeitura. Um abraço coletivo, organizado pela associação Amoamooca, demonstrou ontem a insatisfação.
"O sistema de captação de chuva é o mesmo, o de esgoto é o mesmo, as vias são as mesmas. Só diminui o que precisamos, que são áreas que tragam qualidade de vida", resume Pedro Felice Perduca, da associação de moradores. Na manhã de ontem, cerca de 30 moradores deram as mãos dentro da praça. "Foi um ato simbólico e uma retomada da força do bairro em brigar pelos interesses da comunidade."
Também na Mooca, um imóvel de 4,5 mil metros quadrados na Rua Padre Benedito Maria Cardoso mobilizou os moradores de um condomínio de 17 edifícios. Eles colaboram para a manutenção do espaço desde 1949. Em 2010, a área foi vendida pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Os moradores lutam pelo tombamento.
Augusta. Se a venda dos terrenos pela Prefeitura exaltou os ânimos neste ano, a disputa em torno de um imóvel na Rua Augusta é bem mais antiga. Desde 2005, vizinhos tentam evitar que uma área de 24 mil m² entre as Ruas Caio Prado e Marquês de Paranaguá, na Consolação, seja tomada por construções - primeiro de um supermercado, depois de um condomínio. Em 2006, houve o primeiro abraço coletivo; em junho deste ano, foi feito um piquenique.
"Defendemos espaços de convivência ao ar livre. As pessoas vivem em suas jaulas", diz o produtor de teatro Sérgio Carrera, de 53 anos, que se arrisca a comer os abacates que aparecem na área em disputa na Augusta.
Já são mais de 20 mil assinaturas a favor da construção do parque. Em 2008, Kassab chegou a decretar a área de utilidade pública para a criação da área verde, mas ela ainda não saiu do papel.
Carrera avalia que o movimento por parques em São Paulo reflete novo paradigma. Há 10, 20 anos, pensava-se no desenvolvimento; hoje, no planeta."
História. Segundo o professor da USP Nestor Goulart dos Reis Filho, autor do livro São Paulo Vila Cidade Metrópole, São Paulo era no passado uma área de campos entremeada por bosques. E muitos dos bairros que atualmente levantam bandeiras por áreas verdes cresceram utilizando-se de desmatamentos. Um exemplo é a próprio eixo da Avenida Paulista - Vila Mariana, que era um bosque. Paradoxalmente, acrescenta, esses desmatamentos foram facilitados, entre outros motivos, porque quem vinha do interior para a cidade queria distância daquele cenário.
Moradores da Vila Ema ainda esperam criação de parque
Márcio Pinho
Moradores da Vila Ema, na zona leste, lutam para evitar a construção de quatro torres em uma área de 17 mil m2. Residência de imigrantes alemães desde a década de 1950, a propriedade foi comprada pela construtora Tecnisa, cujo projeto prevê a preservação do verde. Moradores querem um parque e fizeram abraço coletivo no terreno em julho de 2010. Três meses depois, a Prefeitura publicou decreto considerando a área de utilidade pública. Mas a criação do parque ainda está sendo estudada.
Vila Mariana é o bairro das religiões
Marici Capitelli
A Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, é um bairro abençoado. E a bênção vem de todas as religiões, já que a região tem igrejas, templos e centros para todos os tipos de fiéis. Essa diversidade, que se concentra perto das estações de metrô e na Vila Clementino, vai desde instituições estabelecidas há décadas até aquelas que se preparam para ser inauguradas.
O início da Rua Estado de Israel, no cruzamento com a Coronel Lisboa, é um dos exemplos. Lá está localizado o centro espírita Casa do Caminho, que fica na frente do templo Xintoísta do Brasil. Ao lado deles, a Casa de Oração Comunidade Árabe Aberta.
A Rua Domingos de Morais é outro ponto. Além da tradicional igreja católica Nossa Senhora da Saúde, que foi entregue como capela em 1917, há na via seis templos evangélicos, um centro espírita e a mais jovem, Happy Science, cujo templo foi inaugurado em maio do ano passado. A Happy Science prega justamente a união de todas as igrejas. "É maravilhoso estar em um local com essa diversidade", afirma a monja Sandra Harada, de 46 anos.
Mas nem todo mundo acredita nessa tolerância. Maria Cristina do Nascimento, de 53 anos, tem o Núcleo de Umbanda Águas da Luz, um pouco mais afastado desse burburinho religioso do bairro.
"Existe intolerância, sim, com a umbanda e esse é um dos motivos da pouca representação da religião no bairro."
Religiões orientais marcam presença em vários pontos na Vila Mariana. Na Rua Rio Grande estão dois exemplos: o templo budista chinês Tzon Kwan, desde 1993, e a Igreja Messiânica Mundial do Brasil. Essa última se instalou no bairro em 1964. Em 1982, foi inaugurada mais uma sede, na Rua Sena Madureira. A sede da igreja Tenrikyo também fica no bairro desde 1971. "Essa diversidade sempre me chamou a atenção, porque é um bairro com muitas famílias tradicionais", diz o responsável Eduardo Otake, de 54 anos. O local dispõe de uma biblioteca aberta ao público com mais de 45 mil títulos em japonês.
Identificação. A diversidade de religiões permite que os moradores do bairro transitem por vários credos. O engenheiro Osvaldo Luiz Baccan, de 55 anos, se define como espiritualista. Católico não praticante, ele trabalha como voluntário em um centro espírita do bairro, mas faz questão de conhecer outras manifestações religiosas. "Já fui na igreja católica, na messiânica e também participei de eventos com árabes e judeus." Presidente da Associação de Moradores da Vila Mariana, ele atribui essa diversidade à imigração, que foi deixando suas marcas no bairro.
Mais verde
30 áreas são analisadas pela Prefeitura para a criação de espaços verdes. São adicionais ao Programa 100 Parques, que prevê que a capital tenha uma centena de equipamentos até 2012.
OESP, 17/07/2011, Metrópole, p. C6-C7
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110717/not_imp745991,0.php
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http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110717/not_imp745993,0.php
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