OESP, Agrícola, p. 10-11
05 de Nov de 2008
Cresce área com floresta plantada
Programas de parceria são estímulo para produtores que têm
áreas disponíveis para arrendar
Fernanda Yoneya
É cada vez maior o número de produtores rurais interessados em plantar florestas em parceria com empresas, por meio de programas de fomento. Por esses programas, o produtor não precisa ter conhecimento do manejo da planta e a empresa ainda paga pelo arrendamento da terra. Segundo a Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), em 2005, a área fomentada por empresas no País era de 258 mil hectares; em 2006, passou para 322 mil hectares e, no ano passado, chegou a 380 mil hectares.
As áreas de florestas plantadas com eucalipto e pinus no Brasil totalizaram, em 2007, 5.560.203 hectares, um crescimento de 186.786 hectares em relação a 2006. De 2005 a 2007, houve incremento na área plantada de 318.428 hectares. O produtor José Eduardo de Oliveira, de Itu (SP), conta que soube do programa de fomento pelo rádio. "Fui atrás, pois não estava lucrando com a pecuária. Fizemos reuniões, eles visitaram a propriedade e fechamos contrato em abril."
PAGAMENTO MENSAL
Da área de 360 hectares, foram plantados 223,5 hectares de eucalipto. Pelo contrato, com duração de 14 anos, o primeiro e o segundo cortes são da empresa. O produtor recebe R$ 495/hectare/ano pelo arrendamento. "O valor é anual, mas recebemos mensalmente."
No 14o ano, ele decide se quer renovar o contrato. "Até lá, vou saber se é melhor tocar o plantio por conta própria ou manter a parceria." O custo médio de produção do eucalipto está estimado em R$ 4 mil/hectare, nos primeiros sete anos. Para Oliveira, o fomento é interessante sobretudo para quem não tem conhecimento sobre o plantio, nem capital. Outra vantagem é a flexibilidade. "Não preciso estar lá todo dia."
Antes de optar pela parceria, Oliveira comparou o custo-benefício de eucalipto, cana, pecuária, milho e soja. Ele mantém o gado de corte em outra fazenda e se anima com a possibilidade de, após dois anos, retomar a pecuária na área de eucalipto. "O dinheiro do eucalipto invisto na pecuária."
Também criador de gado de corte, o produtor Dirceu Franco de Almeida, de Anhembi (SP), investiu, há dois anos, na parceria com uma empresa para o plantio de florestas. Em área de 560 hectares, 192 hectares foram ocupados com eucalipto. "Tinha 500 cabeças de gado,sem lucrar. Plantei cana e laranja, mas não compensou. Como o eucalipto estava chegando à região, procurei a empresa", diz Almeida, que ainda destina 220 hectares para fazer engorda de 400 cabeças de gado.
Segundo Almeida, o contrato é de parceria rural, o que significa que o produtor, sem experiência na atividade, entra com a terra e a empresa maneja a área. "Como não tinha capital, optei pelo arrendamento. O dinheiro, invisto na pecuária." Pelo contrato, ele recebe R$ 415/hectare/ano.
ESTABILIDADE
Parceiro de uma empresa há 16 anos, o produtor Leodônio Costa Ferreira, de Mucuri (BA), diz que a principal vantagem do fomento é a estabilidade. "Tudo é combinado por contrato. O produtor sabe que terá mercado", diz Costa, que tem 320 hectares de eucalipto. Pela parceria, o produtor entra com a terra e a empresa faz o levantamento topográfico da propriedade, análise de solo, aplicação de calcário, adubação, controle de pragas, fornece mudas, paga o transporte dos insumos e dá assistência técnica. "Eu pago o que foi gasto na instalação da cultura em madeira, pelo preço de mercado", diz. "O contrato dura de 7 a 14 anos."
"Eu me comprometo a vender a madeira para a empresa e o que eu devo é descontado em madeira." Segundo Costa, 3% da madeira pode ser usada pelo produtor para outros fins. "Hoje, o metro cúbico está cotado em R$ 65,80, e ainda recebo um bônus de R$ 1,28/metro cúbico por cumprimento de cota e qualidade", diz. Como a maioria dos fomentados, Costa mantém outra atividade: um rebanho de 300 animais para a produção de leite e cultiva grãos.
380 mil hectares é a área de fomento florestal mantida por
empresas no País, segundo a Abraf
495 reais/hectare/ano é o valor médio pago aos produtores pelo arrendamento da terra para o plantio de florestas
14 anos é a duração mais comum de um contrato, o que
equivale a dois cortes de eucalipto
Antes de arrendar, informe-se
Segundo consultor, investimento é seguro, porém analisar todas as modalidades de contrato é fundamental
Fernanda Yoneya
A recomendação do consultor Alexandre Barbosa Leite, de uma empresa de consultoria de Bragança Paulita (SP), é que um profissional analise o contrato. "Além disso, deve-se visitar produtores que já tenham parceria e avaliar todas as modalidades." Também sugere buscar informações em outras regiões. "É um investimento seguro, mas é bom se informar."
O conselho foi seguido pelo produtor Hélio Godinho da Silveira Filho, de Tapiraí (SP). Antes de procurar uma empresa, ele conversou com produtores. Hoje, Godinho tem 196 hectares arrendados. O contrato é de 14 anos e ele recebe, por mês, de R$ 330 a R$ 500/hectare/ano. "Estou aprendendo sobre o manejo para, no futuro, plantar por conta própria."
O arrendamento rural é a modalidade de fomento mais comum, diz o engenheiro florestal Hernon José Ferreira, gerente de uma empresa madeireira que possui 8.400 hectares de parceiros. Nesta modalidade, a empresa paga pela terra e o contrato dura normalmente 14 anos. "A partir do terceiro corte, pode-se renovar o contrato." A empresa fornece mudas e cuida de todo o manejo. Em média, o produtor recebe R$ 495/hectare/ano.
DIVERSIFICAÇÃO
O que atrai produtores no fomento florestal é a possibilidade de diversificar a produção na propriedade, diz o gerente-executivo de outra indústria, Luiz Cornacchioni. A empresa tem 80 mil hectares em parceria com 1.150 fomentados. Ela dá mudas e assistência técnica e financia o plantio. O produtor paga em madeira.
No Paraná, outra empresa tem como parceiros pequenos produtores, diz o gerente da Unidade Florestal no Estado, Carlos Mendes. Em parceria com a Emater-PR, a empresa doa mudas e fornece insumos. O produtor conduz o plantio. "Incentivamos que o proprierário utilize até 30% da área útil com floresta."
Outra modalidade usa financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e do Programa de Plantio Comercial e Recuperação de Florestas (Propflora), para o plantio de 1 hectare. A empresa solicita recursos ao agente financeiro e o produtor paga em madeira, no fim do contrato.
A modalidade escolhida pelo produtor Geraldo Speltz, que possui plantios em Imbaú e Tibagi (PR), foi a troca de mudas por madeira. Ele cultiva 300 hectares de pinus e eucalipto e, desde 2007, planta mudas de pinus e clones de eucalipto fornecidos pela empresa. Em troca, entregará 18 toneladas de madeira após oito anos. A madeira pagará o plantio de 1 hectare, que leva 1.600 mudas. "A vantagem é que o material genético tem sempre a mesma qualidade."
Madeira para papel, serraria e carvão
Fernanda Yoneya
Segundo o engenheiro florestal Hernon José Ferreira, o mercado de parceria florestal é promissor e está valorizado, porque a demanda de empresas de celulose, painéis de madeira, serraria para móveis e carvão vegetal está em expansão. "De dois anos para cá, a demanda aumentou, mas o País plantou menos", diz Ferreira, que atribui a redução do plantio ao fim do incentivo fiscal, na década de 80. "Só os grandes grupos passaram a plantar. Como o preço melhorou, todo mundo voltou a querer plantar."
Conforme a Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS), o plantio de pinus e eucalipto no País deve aumentar nos próximos anos de 5,5 milhões de hectares para 11 milhões de hectares. O eucalipto e o pinus são as principais espécies de interesse da indústria; o primeiro leva vantagem por ter crescimento mais rápido. O eucalipto pode ser cortado com 6 a 7 anos; o pinus, com 12 anos. A produtividade do eucalipto é maior: são 45 metros cúbicos/hectare/ano, ante 30 a 35 metros cúbicos/hectare/ano para o pinus. Além das duas espécies, há opções de plantio de seringueira, teca, mogno e guanandi.
PREÇO BOM
Hoje, o preço é considerado remunerador. O metro cúbico da madeira em pé está cotado em R$ 54 e a tendência é que continue a subir. Conforme Ferreira, o País está plantando entre 600 mil e 650 mil hectares/ano, mas tem potencial para plantar entre 700 mil e 800 mil hectares/ano.
Para o diretor-executivo da Abraf, Cesar Augusto dos Reis, o principal mérito dos programas de fomento é fixar o homem no campo, "por causa da renda da produção de madeira", diz. "Além de ter acesso a insumos de boa qualidade, assistência técnica e mercado, ele pode, conforme a modalidade, ter participação nos lucros da empresa. O diretor-executivo do Fundo de Desenvolvimento Florestal (Florestar São Paulo), entidade que representa indústrias com atuação na área florestal em São Paulo, Luiz Henrique Câmara Leal Oliveira, acredita que os programas de fomento ajudam a equilibrar oferta e demanda de matéria-prima. "As empresas têm seus plantios próprios, mas como essa não é a principal atividade da empresa, cria-se uma oportunidade para terceiros."
Informações: No site www.abraflor.org.br
OESP, 05/11/2008, Agrícola, p. 10-11
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