O Globo, O Pais, p.10
17 de Abr de 2004
CONFLITOS NO CAMPO: BRASIL REGISTROU 73 ASSASSINATOS DE SEM-TERRA EM 2003, SEGUNDO A PASTORAL DA TERRA
CPT: conflitos no campo aumentaram com LulaSegundo dados da comissão, foram 1.690 invasões ano passado, o mais alto número dos últimos 18 anosBRASÍLIA. O número de conflitos no campo durante o primeiro ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva disparou em relação a anos anteriores. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) apresentados ontem mostram que houve 1.690 casos de conflitos em 2003, envolvendo mais de um milhão de pessoas. É o número mais alto registrado nos últimos 18 anos. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi fundado há 20 anos. Cerca de 65 mil famílias participaram de 391 ocupações em todo o país.O número de assassinatos de pequenos agricultores e sem-terra 73 no ano passado é o mais alto desde 1990, quando houve 82 casos. Mais mortes foram registradas apenas entre 1985 e 1988 (acima de 100 casos), no início do MST. Houve essa corrida para a terra na forma da ocupaçãoPara a CPT, a explicação para o aumento da violência está justamente na eleição de Lula. A chegada ao poder de um presidente ligado aos trabalhadores teria dado aos movimentos a esperança de que a reforma agrária seria feita. Isso teria gerado uma reação imediata dos donos da terra. Houve essa corrida espantosa para a terra na forma da ocupação, que é a forma natural aqui no Brasil. A gente não conhece outra. Agora, a reação se fez de imediato do lado do latifúndio, com o apoio do Judiciário disse Dom Tomás Balduíno, presidente da CPT.
DOM TOMÁS BALDUÍNO
Invasão até de terra produtivaO presidente da CPT, dom Tomás Balduíno, se diz decepcionado com a reforma agrária do governo Lula. Faz críticas ao governo e defende as ocupações, inclusive de terras produtivas.A reforma agrária no governo Lula evoluiu?DOM TOMÁS BALDUÍNO: Está fraquíssima. O plano foi tímido e a execução está muito devagar. Estou decepcionado e acho que essa decepção é compartilhada por diversos grupos. Não houve vontade de incluir no Orçamento de 2004. Há lentidão no ministério, o Incra está desaparelhado. Resta que, apesar disso, é o primeiro governo a lançar um plano nacional de reforma agrária, embora aquém da expectativa.O senhor acha que as invasões podem acelerar a reforma agrária?DOM TOMÁS: As ocupações mostram a presença das organizações populares no campo. São eleitores, pessoas que agem, e acredito que não será em vão. Não é violência. Não estão criando a Rocinha, de jeito algum.O senhor apóia a invasão de terras produtivas?DOM TOMÁS: A reforma agrária deve ser feita em qualquer terra. A ocupação de uma terra produtiva acena para a mudança de uma legislação que, hoje, impede a reforma agrária em terra produtiva. O governo pode desapropriar qualquer terra para passar uma estrada, mas para reforma agrária está proibido. Isso é discriminatório e o fato de ocupar uma terra produtiva, sabendo que não vai ser efetivada essa ocupação, é um aceno para a incongruência de nossas leis.O senhor acha que a Justiça tem sua parcela de culpa no aumento da violência no campo?DOM TOMÁS: A Justiça tem se mostrado conservadora e repressiva em relação ao pessoal da terra, em conluio com governos estaduais, que oferecem a polícia para executar mandados. Esse mandados são feitos de forma fulminante. Não vai se olhar a situação de quem está lá.O MST também não tem se excedido?DOM TOMÁS: A ação (do MST) é para recuperar a democratização da terra. Desde o Brasil Colônia o que houve é a ditadura do latifúndio. Então é um pessoal patriota que está expondo suas próprias peles para mudar essa estrutura fundiária nojenta.
O Globo, 17/04/2004, p. 10
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