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A Covid-19 e os quilombos na Bahia

A Tarde
Autor: Tiago Rodrigues Santos
02 de abr de 2020

No Brasil, com acréscimo das posturas irresponsáveis de Bolsonaro, a Covid-19 trouxe à tona as facetas das desigualdades socioterritoriais: caso o coronavírus avance, sem que medidas sejam tomadas, a pandemia causará a morte dos mais pobres e vulneráveis. O professor Milton Santos sempre indicou que as análises sociais não podem prescindir do componente territorial, e não por acaso vê-se com preocupação a expansão do coronavírus nas periferias das cidades. Porém é necessário observar a população do campo, a exemplo das comunidades quilombolas. A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) alerta para um dado preocupante em tempos de Covid-19: no Brasil são seis mil comunidades e nelas há um contingente populacional estimado em 16 milhões de pessoas, sendo 30% de idosos.

Presentes em todo o território baiano, as 811 comunidades certificadas pela Fundação Palmares têm vivido há séculos com a falta do acesso a saúde, pois poucas têm atendimento regular nos PSFs. A relação entre a espacialização dessas comunidades no estado e a existência de leitos de UTI do SUS na Bahia indica um cenário preocupante para os quilombos. No Território de Identidade de Irecê são 138 quilombos, porém no Hospital Regional de Irecê há apenas dez leitos de UTI; no Território Chapada Diamantina são 101 comunidades, e tão somente dez leitos; no Velho Chico, são 77 os povoados quilombolas, que seriam atendidos apenas nas UTIs de Guanambi ou Barreiras. Além da distância, os quilombolas sofrem com falta de recursos financeiros e as condições das estradas. Para chegar à sede municipal de Bom Jesus da Lapa - onde não há UTI - um morador de Rio das Rãs, tem que gastar, no mínimo, R$ 100 para alugar um carro e mais três horas de viagem devido às péssimas condições da BA-160. Em Lapa, teria que buscar atendimento em Guanambi, Barreiras, Seabra ou Salvador. No litoral, comunidades quilombolas e pesqueiras, em casos graves, precisam atravessar o mar ou rio de canoa ou lancha. Porém há que se lembrar: os leitos de UTIs já estão ocupados por outras enfermidades.

A situação dos quilombos, combalidos há séculos pelo racismo estrutural e pelos conflitos fundiários, pode se agravar caso o coronavírus chegue aos seus moradores. Nos quilombos, além de uma vida, a morte de um mais velho representa a perda de memórias preciosas de toda uma comunidade. Não por acaso certo provérbio deve ser lembrado: "Quando morre um idoso, perde-se uma biblioteca". Assim, cabe aos órgãos públicos da Bahia - que têm feito um trabalho exemplar no combate ao vírus - monitorarem o avanço da Covid-19 atentando para a vulnerabilidade das comunidades quilombolas em todo o estado.

*Tiago Rodrigues Santos é professor da educação do Campo (CFP/UFRB) e pesquisador do GeografAR - Ufba

http://atarde.uol.com.br/opiniao/noticias/2124593-artigo-a-covid19-e-os…

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