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Corrida contra o tempo

CB, Opinião, p. 19
Autor: BERTELLI, Luiz Gonzaga
03 de Nov de 2005

Corrida contra o tempo

Luiz Gonzaga Bertelli

Diretor adjunto de Energia do Departamento de Infra-estrutura (Deinfra) da Fiesp, presidente-executivo do CIEE e presidente da Academia Paulista de História
Em recente reunião promovida pelo Deinfra da Fiesp, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, asseverou que não faltará gás natural para as indústrias e geração elétrica. Na ocasião, esclareceu o plano estratégico da estatal para o próximo qüinqüênio, com a entrega do gás natural, prioritariamente, para as usinas térmicas. Dessa forma, o volume destinado às térmicas alcançará em torno de 46 milhões de metros cúbicos diários, sendo que nos dias atuais totaliza 10 milhões.
O gás natural é um insumo básico, a fim de evitar o próximo desabastecimento elétrico, previsto para 2008/2009 ou antes, se o crescimento econômico superar 5% ao ano, como todos nós almejamos. Para o principal dirigente da Petrobrás, serão efetuados investimentos superiores a US$ 6 bilhões no setor do gás natural, no período de 2006/2010, para garantir a regularidade do fornecimento às indústrias e às térmicas.
Da vizinha Bolívia, serão importados 30% ou 40% dos 100 milhões de metros cúbicos, que o Brasil deverá consumir em 2010. Também poderão ser aproveitados 12 milhões de metros cúbicos diários da bacia santista, a partir de 2008. Nos últimos quatro anos, nenhuma nova usina hidrelétrica iniciou operação no país, embora exista ainda um potencial hídrico considerável, a ser aproveitado.
Instaura-se, dessa forma, verdadeira corrida conta o tempo, para que seja assegurada a eletricidade indispensável ao crescimento sustentado. Ademais, a construção de uma usina térmica demora mais de quatro anos, e as hidrelétricas tempo superior, na dependência, ainda, das decantadas licenças ambientais. É preciso, igualmente, a ampliação do gasoduto boliviano diante do crescimento da importação.
Quanto às demais fontes (bagaço, solar, ventos e pequenas hidrelétricas), falta, ainda, maior disposição governamental para a sua implantação. Existem sérios entraves, entre eles o corporativismo estatal e a falta de financiamentos do BNDES,para a inclusão das energias limpas, ecológicas e renováveis. Persiste um forte lobby da indústria do petróleo, embora o álcool da cana já seja competitivo com o petróleo, principalmente quando alcança US$ 60/barril, como sucede nos dias atuais.
A indústria sucroalcooleira paulista, por exemplo, poderá ofertar, no curto prazo, em torno de 5 mil MW, com o emprego de tecnologia convencional e equipamentos produzidos no interior do estado. Certamente, o custo de operação ficará mais baixo do que as térmicas movidas a gás natural boliviano, eólicas ou óleo diesel, derivado que a Petrobrás já passou a importar diante da exaustão das nossas refinarias, além de custos quatro ou cinco vezes mais do que o gás natural. O pensamento, hoje, é transformar as indústrias sucroalcooleiras em complexos energéticos, que possam produzir álcool, açúcar, eletricidade, ração animal e fertilizante.
Até agora, São Pedro continua condescendente, permitindo que os reservatórios das hidrelétricas permaneçam nos níveis indispensáveis. Muitos aproveitamentos de média potência foram desprogramados e pequenas usinas desativadas.
Em recente entrevista, o conceituado industrial Antônio Ermírio de Moraes afirmou que o Brasil necessita construir uma nova usina hidrelétrica, semelhante à de Tucurui, a cada ano, a fim de evitar novos apagões. Para a nossa felicidade o Brasil foi obsequiado pela providência com um rico sistema hídrico, que nos assegura água para o consumo familiar, das indústrias e produção elétrica.
Falta-nos, não obstante, a adoção de uma firme política energética, assegurar justa remuneração aos investidores e aprovação de marcos regulatórios, sem o que não atrairemos os investimentos. Aliás, se não temos os recursos do Tesouro, porque o governo promove uma nova reestatização do setor elétrico? Com efeito, o governo não pode mais eximir-se da grande parcela de responsabilidade pela nova e anunciada crise elétrica, pois é sua função planejar e coordenar a expansão da infra-estrutura, tarefa que não cabe à iniciativa privada. Embora se deva reconhecer que não será um trabalho fácil, diante das sucessivas crises políticas que atingiram o Brasil.

CB, 03/11/2005, Opinião, p. 19

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