CB, Mundo, p. 18
Autor: NEVE, Alain de
17 de Set de 2006
Corrida aos átomos
De olho na disparada dos preços e na tendência de esgotamento das reservas mundiais de petróleo, países de todos os continentes iniciam ou retomam programas de construção de usinas nucleares
Samy Adghirni
Da equipe do Correio
Enquanto as atenções continuam voltadas para as usinas atômicas iranianas, um outro movimento alimenta as discussões sobre a questão nuclear. Sem alarde, vários países, em todos os continentes, decidiram nas últimas semanas iniciar, ou simplesmente relançar, programas de energia atômica. A justificativa é que o preço do barril de petróleo está cada vez mais perto dos US$ 100, e as reservas mundiais não são infinitas. A França é citada como exemplo de planejamento energético por ter antecipado, há quase cinco décadas, a necessidade de não depender das importações de óleo bruto. Também argumenta-se que o combustível nuclear é seguro e menos poluente. Mas, em tempos de crescentes tensões geopolíticas, é difícil não cogitar sobre as motivações reais dos aspirantes à tecnologia.
"Nem todos os países que lidam com energia nuclear querem a bomba atômica. Mas todos aqueles que têm grandes programas nucleares estão tecnicamente mais perto de consegui-la. Eles podem facilmente alterar seus planos, se julgar em que o contexto assim exige", alerta Henry Sokolski, que trabalhou no Pentágono como chefe da equipe de não-proliferação nuclear, entre 1988 e 1993, e hoje ocupa o cargo de diretor do Centro de Educação para Políticas de Não-Proliferação, em Washington. O brasileiro Guilherme Leonardi, da ONG ambientalista Greenpeace,é mais alarmista: "É evidente que alguns países procuram a energia atômica com interesses militares".
Quase todos os 441 reatores civis em atividade-espalhados por 31 países-produz em plutônio. Quando separado e tratado, esse elemento pode, teoricamente, ser utilizado para a fabricação de armas nucleares. Os estoques de plutônio aumentaram muito desde os anos 80. A tendência deve se acentuar.
Há 30 reatores atualmente em construção, na China, Finlândia, Índia e outros países que já usam energia nuclear. Os governos dessas nações têm ainda no papel projetos de erguer dezenas de novas centrais. As usinas no Irã e na Coréia do Norte preocupam parte do Ocidente. A Austrália está desenvolvendo sua própria tecnologia. O Chile e os países da Liga Árabe estão pensando em fazer o mesmo.
Após 25 anos, a Argentina decidiu relançar seu programa nuclear. No Brasil, há indícios claros de que o presidente Lula, se reeleito, reativará o projeto de construção da central Angra 3.Na semana passada, o governo brasileiro assinou acordos de cooperação nuclear com a Índia e a África do Sul.
Sob controle
Um dos maiores especialistas no assunto, o francês Bruno Tertrais, da Fundação pela Pesquisa Estratégica, não vê motivo para ficar alarmado com essa renovada corrida rumo à energia nuclear. "O que se viu até agora foram meras palavras, discursos de intenções. É cedo para tirar conclusões, pois são precisos muitos anos e dezenas de bilhões de dólares antes que os programas anunciados sejam operacionais", explicou.
O assunto também não vem preocupando a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão das Nações Unidas encarregado de controlar o uso pacífico da tecnologia. "O renascimento da indústria nuclear resulta da alta do preço do petróleo e do efeito estufa provocado por agentes poluentes", disse ao Correio Marc Vidricaire, porta-voz da AIEA. Vidricaire destacou que a agência fiscalizará para que os novos programas nucleares sejam usados para fins pacíficos.
Nada impede os países de busca remter suas centrais nucleares, desde que isso seja feito dentro dos limites impostos pela AIEA. Segundo o Tratado de Não-Proliferação (TNP), adotado em 1968, os países signatários que têm armas atômicas (Estados Unidos, China, França, Rússia, Reino Unido) devem ajudar outras nações a desenvolver programas civis. Contando Israel, Índia e Paquistão, detentores da tecnologia militar que não aderiram ao TNP, calcula-se que existam hoje cerca de 28 mil ogivas atômicas.
A tentação da bomba
Entrevista: Alain de Neve
A disparada do preço do petróleo e a perspectiva de esgotamento das reservas mundiais levam alguns países a buscar a independência energética pela tecnologia nuclear. Mas quem desenvolve a energia atômica acaba, cedo ou tarde, cogitando seu uso militar. A afirmação é do belga Alain de Neve, analista da Rede Multidisciplinar de Estudos Estratégicos, com sede em Bruxelas. Em entrevista ao Correio, ele também explicou qual o interesse do G-8 (oito maiores potências mundiais) em oferecer tecnologia nuclear civil aos países em desenvolvimento.
Além de razões econômicas, pode haver intenções estratégicas ou militares por trás da decisão de alguns países de retomar ou iniciar programas nucleares?
Há interesse na busca da independência energética. A recente crise petroleira acelerou a decisão de voltar a apostar na energia nuclear. A questão é saber se esses países conseguirão um domínio pleno e seguro dessa tecnologia antes que o petróleo fique mais raro e mais caro. É preciso entender que o desenvolvimento atômico,mesmo para fins pacíficos, é extremamente custoso. De um ponto de vista estritamente econômico, um país pode rentabilizá-lo fazendo uso militar. A história mostra que todas as tecnologias civis acabam, cedo ou tarde, sendo usadas para fins militares - trem a vapor, automóvel, aço. A dúvida é: o mundo seria mais seguro com a multiplicação dos centros de decisão nuclear ou com a manutenção de alguns poucos núcleos? Uns pensam que, quanto mais países tiverem tecnologia nuclear, maior a tendência de usá-la meramente como ferramenta de dissuasão.
Outros apostam que a proliferação deixaria o mundo muito mais perigoso.
A incapacidade da ONU de frear as ambições atômicas iranianas pode estimular outros países a se lançarem em programas nucleares pouco transparentes?
Com certeza. Mas a ONU não pode se pronunciar sistematicamente contra o projeto iraniano, pois ele goza do apoio de muitos países, incluindo os não-alinhados.
Os mecanismos de prevenção da proliferação nuclear,TNP e AIEA,ainda são eficientes?
É válido cogitar se tais instituições, criadas nos tempos da Guerra Fria, ainda valem. Acho que a manutenção de mecanismos herdados de outra era se justifica pelo fato de que a criação de novas organizações e novos tratados custaria muito caro. Na verdade, não convém reformular instituições semelhantes em tempos de crise. E tudo que se viu desde a Guerra Fria foi uma grande crise.
O G-8 está interessado unicamente na venda de tecnologia,quando recomenda que os países em desenvolvimento adotem a energia nuclear civil?
Ao tornar outros países nucleares dependentes da tecnologia transferida, o G-8 cria uma relação de fidelidade com os seus aliados. A questão é saber se esses Estados que demandam energia atômica estão dispostos a pagar o preço cobrado pelos países nucleares para a transferência. De certa forma, a proposta do G-8 permite maior transparência, já que o repasse de tecnologia é condicionado a controles rigorosos. Por outro lado, os Estados que querem energia nuclear podem estar pensando:"Se a gente quiser desenvolver nossos programas sozinhos, então a AIEA vai ficar na nossa cola e corremos o risco de ficar marginalizados nas relações internacionais. Mas, se aceitarmos as tecnologias dos países que já dominam o setor, não haverá problema". Na verdade, a oferta do G-8 é insidiosa. Se as potências nucleares estabelecidas aceitam transferir seu know-how para o nuclear civil, isso permite identificar imediatamente os países que cogitam usar a energia para outros fins.
Qualquer um que recusasse essa mão estendida acabaria sendo considerado suspeito. (SA)
CB, 17/09/2006, Mundo, p. 18
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