OESP, Metrópole, p. C1
18 de Abr de 2012
Corredor industrial ameaça reduto de Mata Atlântica no cinturão verde de SP
Pelo Plano Diretor de Embu das Artes, 2,4 mi de m2 em área de preservação serão comprometidos; clima na capital pode sofrer mudanças
Nataly Costa
A menos de 30 km do centro de São Paulo e um dos últimos redutos de Mata Atlântica remanescentes no entorno da capital, a Área de Preservação Ambiental (APA) Embu Verde pode virar um reduto industrial. É o que prevê o novo Plano Diretor de Embu das Artes, na Região Metropolitana, cuja votação está marcada para hoje. O projeto permite ainda a verticalização, com prédios de até dez andares, em bairros que hoje só têm casas.
Além de uma área verde importante, a APA serve de hábitat para vários animais em ameaça de extinção, como onça-parda e jaguatirica. Por ela também passará uma nova estrada, para ligar esse corredor de indústrias à Rodovia Régis Bittencourt, criando uma rota para caminhões.
O novo "corredor empresarial" - onde poderão se instalar indústrias de "baixo e médio impacto" - compromete uma área de 2,4 milhões de m², o equivalente a 300 campos de futebol, dentro da APA, que tem 15,7 milhões de m² no total e faz parte da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo. Instituído pela Unesco, o cinturão envolve mais de 70 municípios no entorno da capital e abrange as poucas áreas em que o adensamento e a especulação imobiliária ainda não chegaram.
Qualidade de vida. Para estudiosos do meio ambiente e clima, com o projeto, a qualidade de vida dos moradores está ameaçada - não só hoje, mas em um futuro próximo. "A falta de verde no entorno interfere diretamente na temperatura da megacidade e, principalmente, na quantidade de chuvas que teremos nos próximos anos, cada vez mais fortes", diz o pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cptec/Inpe), Paulo Nobre.
"A configuração de onde está o sítio urbano de São Paulo é muito peculiar. A cidade é uma bolha de calor", explica o climatologista João Lima Sant'Anna Neto, professor da Universidade Estadual Paulista Julio Mesquita Filho (Unesp). "Por isso a Mata Atlântica é tão vulnerável. Qualquer desmatamento coloca o equilíbrio climático da região em risco."
Especulação. Principalmente por causa do Rodoanel Oeste, que passa no meio de Embu das Artes, a especulação parece já ter alcançado a cidade: o metro quadrado em bairros como o Jardim Santa Tereza, que com a aprovação do Plano Diretor poderá ter prédios, já chega aos R$ 4 mil - antes, custava menos de R$ 100.
A votação do plano foi tema de discussões acaloradas entre moradores, ambientalistas e prefeitura. Duas audiências públicas chegaram a ser suspensas no fim do ano passado pela Justiça, sob alegação de que a prefeitura não deu a devida visibilidade ao tema. No começo deste ano, foi a vez de a prefeitura ganhar na Justiça o direito de prosseguir com as discussões - ao todo, 40 audiências públicas.
Os moradores alegam que o projeto do Plano Diretor foi alterado nas últimas reuniões e que o corredor industrial só apareceu nos últimos mapas apresentados. "O nome da cidade é Embu das Artes e você chega e só encontra galpão, indústria?", questiona o presidente da Sociedade Ecológica Amigos de Embu (Seae), Leandro Dolenc.
Para o artista plástico e ex-secretário de Turismo da cidade Renato Gonda, o Plano Diretor promove a destruição da vocação turística de Embu - que recebe até 20 mil pessoas na feira de artes nos fins de semana. "O Plano Diretor limita o turismo ao centro histórico. Por que, em vez de indústrias, não incentivar empresas com potencial de desenvolver o turismo?", diz.
Prefeito diz que ambientalistas têm interesses particulares na área
O prefeito Chico Brito (PT) diz que o corredor de empresas e indústrias na Área de Proteção Ambiental (APA) Embu Verde vai criar empregos e receita. "Não é aceitável que a população leve duas, três horas em um ônibus até o trabalho em São Paulo", diz Chico. "A receita do turismo não chega a 2% da receita de R$ 400 milhões, são R$ 10 milhões por ano. Só o imposto arrecadado com as empresas já instaladas hoje em Embu gera R$ 150 milhões", afirma.
Para Brito, defender a "vocação turística" de Embu das Artes não é um argumento legítimo. "A cidade é multivocacional. É indústria, é comércio e é serviço. Turismo é iniciativa privada. Não é o poder público que vai produzir empreendimento de turismo por aqui."
Sobre o corredor de indústrias na APA, o prefeito afirma que serão "não poluentes". "Já existe uma estrada ali, o que estamos fazendo é definir. Se você olhar, vai ver que 90% da vegetação que existe no corredor não é significativa, segundo estudos que nós fizemos baseados em mapas da Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano)", diz. Segundo ambientalistas, a prefeitura usou mapas que não descrevem a localização das áreas de mananciais, de córregos e da Mata Atlântica.
Brito afirma que os ambientalistas têm interesse na área porque moram ali. "Já temos condomínios residenciais, com muros que impactam muito mais a fauna do que um corredor aberto."
O Plano Diretor prevê a criação de 1,3 milhão de metros quadrados para habitação social - a intenção é acabar com 90% das moradias irregulares na cidade. A área a ser verticalizada, porém, não prevê prédios para a população de baixa renda. "Isso fica a cargo do empreendedor." / N.C.
Três razões para...
Prestar atenção no Plano Diretor
1. A vegetação tem o importante papel de absorver o calor da atmosfera e deixar a temperatura mais amena. Além disso, mantém o solo permeável para escoar as chuvas. Quanto menos verde no entorno de uma região já tão urbanizada como São Paulo, mais calor e mais enchentes.
2. O cinturão verde do entorno da capital ainda está a salvo da poluição que já dominou São Paulo. Indústrias no lugar de área verde vão gerar ainda mais poluição no ar da Região Metropolitana.
3.Com mais carros e caminhões passando por Embu, o trânsito de toda a região é afetado - sobretudo o das zonas sul e oeste de São Paulo.
OESP, 18/04/2012, Metrópole, p. C1
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,prefeito-diz-que-ambientali…
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,corredor-industrial-ameaca-…
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,prestar-atencao-no-plano-di…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.