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Corredor ecológico: quando dois e dois são cinco

OESP, Vida, p. A20
Autor: REINACH, Fernando
04 de Out de 2006

Corredor ecológico: quando dois e dois são cinco

Fernando Reinach

Imagine que você é um sapo e vive em um pântano. Aí vem o homem e constrói uma rodovia que divide o local. Se você tentar passar da sua metade para a outra, a chance de ser atropelado é alta. O resultado é que a estrada, apesar de quase não alterar a área total, criou dois pântanos isolados.

Faz muito tempo que os ecologistas observaram que quando um ecossistema é reduzido em tamanho fica mais frágil e tem uma chance maior de se desestabilizar. Há muitas razões teóricas para isso, como a diminuição da população capaz de trocar genes entre si. É o caso do nosso sapo, que agora só pode casar com metade das fêmeas a que tinha acesso antes da maldita estrada.

Para reduzir o impacto ambiental de projetos como esse, faz muitos anos que se exige a construção de um corredor entre as duas metades do ecossistema original. No caso, haveria uma ponte - a estrada passa por cima e os animais, por baixo.

Por incrível que pareça, até agora não existiam estudos experimentais controlados que demonstrassem o efeito benéfico desses corredores ecológicos. Finalmente, um estudo comprovou que eles são realmente capazes de aumentar a biodiversidade.

O estudo foi feito nas reservas florestais da costa leste dos EUA. Os pesquisadores abriram clareiras do tamanho de um quarteirão (aproximadamente 100 por 100 metros) no meio da floresta nativa. Algumas clareiras eram isoladas, outras ligadas entre si por finos corredores desmatados. Os pesquisadores produziram uma grande combinação de áreas desmatadas, todas do mesmo tamanho, mas algumas delas ligadas entre si.

Após o desmatamento, que foi feito simultaneamente em todas as áreas, os pesquisadores mediram ao longo dos anos o retorno das espécies em cada uma das clareiras. A cada ano, entre 2001 e 2005, foi feito um levantamento das espécies que já haviam colonizado cada uma das clareiras. O que eles observaram é que ao longo dos anos muitas espécies recolonizaram as áreas desmatadas, mas nas áreas conectadas por corredores, o número de espécies diferentes (a biodiversidade) era maior que nas áreas desconectadas. Além disso, a diferença entre o número de espécies nas áreas conectadas e não conectadas foi aumentando com o passar dos anos, demonstrando que a presença dos corredores realmente contribui para aumentar a biodiversidade.

MODELO PARA SÃO PAULO

Esse resultado é importante para o manejo de regiões como o interior de São Paulo, onde a agricultura substituiu grandes extensões de floresta nativa. Aqui no Estado o que existe são ilhas de florestas cercadas por terras plantadas. O estudo demonstra que se as reservas naturais fossem ligadas entre si, maior quantidade da biodiversidade remanescente poderia ser preservada. Em nosso caso, os corredores podem ser as matas preservadas na beira dos rios que unem as áreas de preservação ou corredores de florestas.

Existe uma organização não-governamental que tem como objetivo interligar com corredores as poucas áreas de florestas nativas que existem em São Paulo. Investimentos como esses são um caso típico onde dois e dois são cinco: duas áreas conectadas valem mais que as mesmas áreas isoladas.

Mais informações em Corridors increase plant species richness at large scales, na Science, volume 313, página 1.284, de 2006.

OESP, 04/10/2006, Vida, p. A20

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